153º DRUNH, DOSUGNO / O OCEANO E A ILHA

Por vezes o planeta Liboririm me passou a ideia dele ser liboririntáqueos a jogarem sementes no solo proficiente. Os acontecimentos no Reino de Eudaips quando não se continham no coração escorriam pelos meus olhos. As presenças dos liboririntáqueos nos meus sentimentos e pensamentos me faziam colher ainda as belezas espetaculares da natureza do planeta que em anúncios abstratos, fundamentos no discorrer do tempo, despedia-se de mim. Eu me tornara o possível de mim mesmo.
Compreendia, contudo, que as escolhas liboririntáticas, as somas dos drunhs da minha permanência sob os nove sóis, ocasionavam consequências. O resultado que mais mexeu comigo foi saber que o caminho me proposto pelos liboririntáqueos estava se finalizando. Eu o percorrera com a minha justa medida. Liboririntaticamente isso não significava fim, rompimento, mas por mais e ainda mais que Liboririm me acrescentasse felicidades e suas variantes as certezas me convenceram de que eu nunca mais retornaria ao planeta das três Esferas e do Planalto dos Metais. Para os argumentos das incertezas era certo que o futuro me traria outra vez ao tempo liboririntático.
Quando o médico Rolzi Stemkiv segurou em minhas mãos o dosugno transbordou no coração. Espalhou-se o drunh nas amplidões da minha mente. O tempo me ergueu além das nuvens. Os olhos se abriram. Enxerguei a nave espacial que me seguia em todas as direções que eu me movimentava. Quem poderia afirmar que dentro daquela nave não estivessem o oceano e a ilha?
Rolzi Stemkiv sabia muitas coisas a meu respeito. Possuía dados estatísticos, informações cerebrais, intelectuais, sentimentais, digitais, elétricas, manuais. Com as suas mãos entremeadas às minhas mãos me conduziu à sua sala. 
O consultório estava diferente sem estar desigual. Lembrava-me muito bem como eram as disposições dos equipamentos quando estivera com o médico Rolzi Stemkiv logo que desembarquei em Liboririm. Os móveis e aparelhos mudaram de lugar. As paredes foram pintadas. Ladrilhos desenhados foram inseridos no teto. O lugar sofrera modificações talvez profundas. Mesmo assim não perdera o ar de sua graça. Deitei-me numa maca. O médico me pediu nudez completa. Passou-me um creme oleoso de aroma agradável. As duas portas do consultório se fecharam. O médico ficou parado a olhar para mim consentido nas duas portas. Pressenti que o trabalho de Rolzi Stemkiv começara. 
Em silêncio me perguntei se Liboririm me concedera faculdades divinatórias. Imagens de metais em forma de animais vieram dos olhos do médico à minha mente. Sentimentos me diziam que eu me simpatizava com o doutor. Vi-me mentalmente um egaup. Imaginei Rolzi Stemkiv como se ele fosse um reparador, um consertador de metais. Minhas mãos buscaram o chão. Não encontraram o piso. Mal tive tempo para relancear o olhar ao abismo que se formara sob a maca. Uma enorme vontade de ouvir música se lançou sobre mim. Encontrei o silêncio afeiçoado ao cheiro agradável do creme oleoso untado na minha pele. O egaup que eu me imaginara logo se evaporou. A maca na qual me deitara se moveu. Encostou-se na parede clara de sylarts mesomórfico. 
Rolzi Stemkiv desapareceu do meu campo de visão. Repentino, impelido por luzes e pelo calor, comecei a desenhar com o dedo médio da mão esquerda os números 22, 21, 20, 19, 18, 17, 16, 15, 14, 13, 12... Enquanto os números surgiam na parede clara, palavras povoaram o oceano e a ilha. Verbos que se repetiam, depois se multiplicavam. Então se juntavam uns aos outros: caminhar, planar, voar, boiar, rastejar. Apareceu o substantivo masculino Liboririm. Contei quantas letras possui Liboririm. Traduzia rapidamente o liboririnkes para o meu idioma natural, o português do Brasil.
...11, 10... Uma vez para sempre ao desenhar o número que viria regressado tive a impressão de estar saindo, largando o 9. A nave espacial que me seguia se aproximou do meu rosto. Eu precisava ouvir a música dos seus motores. O silêncio mostrou aos meus olhares visionários que a nave espacial se projetava em uma sombra. Era a sombra de um imenso penloayc, a ave da despedida. Ao ver aquele pássaro obtive a medida exata da devoção liboririntática que estava dentro de mim. Meus olhos se tornaram novos. Ao meu coração Eudaips enviara vida. 
O agradável aroma do creme oleoso foi aos poucos se misturando com os ventos que sopravam nas paisagens das distantes músicas liboririntáticas em algum tempo passado. A vida rompera a barreira do silêncio. Ouvi passos leves e úmidos vindos de muito longe. Dei todo o tempo do meu reino ao dosugno. Outra a vez a maca se movimentou. Os passos próximos eram do médico Rolzi Stemkiv. Somente nesse momento percebi que o meu corpo estava conectado a aparelhos virtuais que praticavam comigo uma espécie de emulação, ou seja, aceitavam as minhas entradas e produziam saídas. Essa conectividade causava encontros entre as variadas velocidades liboririntáticas com os meus desiguais motivos humanos. Quem sabe fossem o oceano e a ilha me vestindo, recolando no meu corpo a roupa que eu tirara? 
Sem necessidades extremas de ligeirezas o médico liboririntáqueo foi me soltando daqueles equipamentos avançados da medicina liboririntáquea. Suas avaliações se mostraram quando ele me sorrindo me perguntou:
- Despregado duoef, como vós estais se sentindo?
- Não me sentia assim tão bem desde o tempo terrestre de 19 de Maio de 2015.
O médico Rolzi Stemkiv satisfeito ficou  com o futuro que me encontraria. O tempo proveria as minhas necessidades. Assim seria a caridade de Eudaips. Assim tem sido a misericórdia de Deus. Os tempos nunca estiveram atrasados. E se ficassem se atualizariam assim por diante...
O médico me deixou pronto, apto, preparado. As dores nada me propunham. Terminei de me vestir acalentado pelas músicas de milhões de sinos dourados libertados pelo silêncio. Sem vê-lo me despedi de Rolzi Stemkiv. 
Sai do consultório fechando a porta bem devagar. No corredor escrevi nas paredes números e palavras enquanto nas alturas esperava pelos elevadores.