134º DRUNH, INSEGOGU / O DEGRAU

Protegido e desprotegido passei a noite sobre o degrau a resistir às oscilações da sua existência. Por alguns momentos eu me senti convicto de que o degrau era realidade. Em outros momentos dominava-me a certeza da falta de existência daquele degrau de certa forma salvador, mas que também me fazia prisioneiro. 
Percebi-me pouco a pouco envolvido pela neblina. Nada enxergava a um palmo de distância. Nem as luzes de Nesemix apareciam. Devo ter me movimentado porque desconfiei que os meus pés não estivessem o tempo inteiro sobre o degrau. Minha suspeita deixou de ser meu temor. Realmente o degrau não se fazia presente. Sob os meus pés a ausência colocara o nevoeiro. Paralelo à intensificação da neblina o sentimento de tristeza se expandia pela minha alma já tomada de abandono. De maneira lenta corroia-me no pensamento a ideia de que a falta da casa da Rua Hesb que tanto me habitara me tornava desamparado, abandonado.
Vata Nusokkar se apresentara. Eu já me fixara dentro dela. Embora a smun ugt tsukow possuísse corpo, rosto e voz aquela liboririntáquea além de representar o nevoeiro era na sua essência o mesmo nevoeiro que me enfaixava, que me ligava à tristeza.
- Abatido duoef, ouvi vós a me  perder desta  forma corporal. Certifiqueis de que vós me tocais. Apalpai-me! Não fujo dos vossos olhares. Não me escondo das vossas tristezas. As nossas vidas passarão, mas a vida permanecerá no Universo. Caminhe até mesmo voe dentro de mim. O duoef descobrirá que por vezes sou a melancolia sem razão aparente. Penetre em toda a solidão úmida que vos mantém suspenso. O chão se distancia cada vez mais. Esqueçais-vos do meu semblante. Sou um local abandonado. Respirai-me totalmente. Virarei nuvens. A voz que o duoef escuta agora não tardará a se dissipar, evaporar, desaparecer. Quando a minha desaparição acontecer o duoef estará profundamente dentro de mim e a vossa tristeza se agigantará.
Foram fielmente estas palavras que ouvi de Vata Nusokkar. Nelas não havia tempo prolongado. Não havia erro, falta. O nevoeiro se mexeu. Imprimiu movimento e se deslocou da posição ocupada. Misturei-me àquela modificação. Minha mão tocou em algo. Virei o rosto. Enxerguei o degrau onde eu passara a noite. O degrau se mostrava diferente. Exibia-se em proporções gigantescas. Vi também o vermelho e o preto da roupa inesperada que comecei a usar. Eu, ávido de esquadrinhamentos, lembrava-me daquela vestimenta. Como poderia me lembrar de uma coisa que nunca havia visto? Recordo-me com perfeição do momento em que eu cobri o corpo com aquela indumentária. Além das duas cores o traje possuía sete losangos estampados.
- Entristecido duoef, as cores da vossa roupa significam a minha ausência. A noite que ainda se hospeda no tempo liboririntático. O mesmo tempo que trará os sóis. Estas cores não são eventualidades. São as importâncias fundamentais das claridades, os efeitos das luzes, as transições esplendorosas do fim que viaja para o começo. Os sete losangos interpretam, simbolizam a Tropd Tsukow que diz que eu, Vata Nusokkar, possuo a forma losângica.
Outra vez, e seria a última vez, a voz da smun ugt tsukow preencheu-me de movimentos. Talvez, não por acaso, encontrei no degrau alimentos liboririntáticos de alto valor proteico. O degrau que se trasladou gigante confesso que de repente sumiu. Com a dissipação e o desfazer do nevoeiro me alimentei como se tivesse trocado Vata Nusokkar pela fome.
- Seria Vata Nusokkar uma espécie de wodsa? -tentei saber a resposta de mim mesmo.
Foi ao me sentir alimentado e fortificado que o degrau e os alimentos encontrados deram lugar ao regresso dos sóis em Nesemix. As claridades muitíssimas alegres iluminaram o meu corpo. O preto, o vermelho e os sete losangos também tinha ido embora. Eu estava nu diante dos sóis de insegogu. Nesemix compreendia a minha nudez. Eu me vesti com o destino liboririntático que me fora traçado pela vida e seus antigos, atuais e futuros encontros. Localizei as minhas roupas normais, as minhas cores reais, os meus significados fundamentais. Talvez nem os tivessem perdidos de vista.
Todos aqueles sóis eram um convite irrecusável ao ato de caminhar. Nesemix nem mesmo Liboririm me tratavam como um prisioneiro. Caminhei até me deparar com uma nave espacial em reforma, manutenção, pousada em um pátio que retinha em seu poder propriedades específicas de ser na verdade uma ponte cósmica.
Apressei-me em me aproximar da nave. Ao lado da espaçonave a presença do degrau. Sobre o degrau um liboririntáqueo reparava, consertava, atualizava, restaurava a astronave. Sentindo cansaço pressenti ou deduzi que era em mim que as viagens estavam por toda parte, que Liboririm somente encontrava o que eu  buscava.
- Descanseis da vossa incessante caminhada. O meu trabalho nesta nave não se prolongará aos obstáculos. Mas eis que surge um fato novo: tudo dará certo!
Não precisei indagar ao liboririntáqueo quem era ele. Com um pulo afastou-se do degrau. No chão, bem perto de mim, não hesitou em me perguntar:
- Quem sois vós?
ICKY MANAN, O WAALBE AMEROT
Eu tinha plena certeza que o liboririntáqueo sabia amplamente quem eu era. Então, movido por um atrevimento súbito respondi ao acabado de pular:
- Sou duoef, o piloto.
- A nave IMTAGONX está quase pronta para alçar voo. Está prestes a ficar ausente de quaisquer defeitos. Sou Icky Manan, o waalbe amerot.