A noite se entregava ao tempo. Meus pensamentos queriam ir para longe. Eu dizia a mim mesmo que a vida me levara a viver num lugar infinitamente longe. Eu estava distante o bastante para não querer que os meus pensamentos fossem embora de mim.
Desde o momento do encontro quando Ofro Dool me pediu a água fui habitado pelo silêncio às vezes interrompido por veículos de solo que passavam ali perto ou pelos sons das naves espaciais que cruzavam o céu estrelado de Nesemix. O nazzart não parava de triturar as correntes. Esse processo mastigatório assim como quase tudo o que me envolveu naquela noite de txetagu aconteceu em silêncio. Nada era falado. As palavras pareciam dormir amplamente numa eterna indisponibilidade para o retorno.
Encostei-me no tempo que se entregava à noite. Olhava os movimentos da tacicriz de Ofro Dool, um liboririntáqueo sequioso. Dono de sede de fome, fome de sede e convivente da companhia do silêncio. Em nada na noite o nazzart me chamou de duoef. Eu existia ao seu lado. Compreendia que Ofro Dool me alimentava. Imaginei que ele era um liboririntáqueo dado a amores ilícitos num planeta marcado pela água. Correu nos meus pensamentos por um foroac o Rio Ojand. Talvez essa imaginação tenha sido o único jeito de ouvir o nazzart.
Passamos a noite juntos. Nesemix me pedia para ficar. Dar-me-ia o que fosse justo. Eu a experimentava urbano nos últimos drunhs de uma forma diferente. Vivenciava as datas liboririntáticas com intensidade d'alma fora dum mundo oco. Minha locomoção se intitulava caminhada.
Não sobrando pedaço para narrar a história as correntes desapareceram. Deduzi que o nazzart me contaria uma história. Dedução errada. Sua sede se entregava à sua alma sem ruídos.
Em breve a noite se findaria. Sentia-me preparado, alimentado para viver o abatxegu seja lá onde Liboririm me levasse. Ofro Dool lia os meus pensamentos. Conclui que na verdade liboririntática era eu quem contava a história ao nazzart. Conclusão correta. Ambicionei tornar os meus pensamentos mais interessantes. Precisei colocar as ideias em ordem antes de começar a desenvolver o meu novo pensar. As estrelas se desgrudavam da noite. O tempo consultava os sóis. Os prédios de Nesemix não se mostraram grandes, mas possuíam números abundantes de andares.
Desencostei-me da noite porque surgiram os sóis magníficos do Planalto dos Metais. Nesemix se clareou. A cidade significava a ciência da organização. Desejei permanecer em Nesemix até o final dos meus drunhs em Liboririm. Com os olhares tomados pelas claridades solares procurei por Ofro Dool. Sua tacicriz estava quieta. O nazzart continuava em silêncio. Percebi que os seus punhos se apresentavam fechados. O liboririntáqueo ainda lia os meus pensamentos. Tirei como consequência que o nazzart se entregaria ao ato de partir.
Por motivo espontâneo, repentino, humano soltei uma constante e intensa gargalhada. A tacicriz de Ofro Dool se mexeu. Minha risada contagiou a alma silenciosa do nazzart. Sua expressão facial se modificou. Provocado pelo meu riso gargalhou francamente, prolongadamente.
O vento rodopiou. Virou as páginas da história que eu escrevia nos meus pensamentos. O silêncio sempre esteve infalível, determinado. Ofro Dool regressaria às correntes das distantes marquises de Nesemix.
Assim como quase tudo que nos envolvia em Liboririm o nazzart sem se despedir me disse apenas:
- Duoef...
Entre as naves espaciais que transitavam no céu de Nesemix vieram os draplis. Os trinados dos pássaros me forneceram o caminho. Em meus pensamentos se escreveu "profundo celestial". Sob a égide do abatxegu reiniciei a caminhar sentindo-me em paz. Os draplis foram aos poucos se distanciando do meu corpo.
Jamais me arrependi de ter aceitado a abdução. Não procurava recompensas em Liboririm. Precisava continuar caminhando. Deparei-me com uma casa simples de janelas abertas. Tão simples que notável era a sua beleza de dentro. Dessa casa vinha para fora um som de um utront muito bem tocado. A maravilhosa música se expandiu n'alma. Sem temer o incógnito nem a beleza cheguei mais perto das janelas da casa. Além de ouvir a música senti o aroma daquela morada.
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| ADA GOVDA, A HAJULANLEIM |
