130º DRUNH, TXETAGU / O ANTEPASSADO

Riscilap Uidig estava certo. Eu preferia mesmo fazer o que achasse que tinha de fazer. Então naquele momento dei primazia em oferecer ao nailtunx ocociqi a garrafa que trazia comigo contendo o restante do singray rigenbaim. A sede do liboririntáqueo foi saciada. Ele bebeu todo o singray. Seus olhos se expandiram. Sorriu como se me agradecesse. Eu, sem saber a totalidade dos motivos dos seus sorrisos, falei a Riscilap Uidig que me sentia uma fantasma desapossado da casa.
- Fantasmático duoef, não posso me esquecer de que vim à vossa presença com o intuito de vos dar, enfim, oferecer-vos este ocociqi. Aqui está ele! Coloque-o em vosso rosto. O duoef enxergará a casa que tanto em silêncio reclamas de volta, a casa na qual moravas na Rua Hesb. Tive sede e vós me destes o que beber! Vós deixais que eu sorria!
Quando o ocociqi se assentou no meu rosto meus olhos se abriram como se buscassem no deserto o oásis. A imagem da casa da Rua Hesb passou veloz pela minha visão. A velocidade dessa passagem retirou da imagem as sequências centrais e laterais levando-me a ver unicamente o telhado da casa. E o telhado se mostrava prateado e brilhante. Nele não havia poeira, secura. O meu rosto ficou úmido. Emocionei-me ao ver a casa chegar e partir. Tudo era verdade absoluta e necessária.
- Autêntico duoef, não posso me esquecer de que vim à vossa presença com o objetivo de vos pedir, enfim, de vos rogar que retire do vosso rosto este ocociqi. Não dê a ele todo o vosso tempo. Vim a vós ofertar a visibilidade humana aos vossos olhos já acostumados à capacidade liboririntática de ver. Vós deixais que eu sorria!
A imagem da casa da Rua Hesb não surgia mais na minha mente. Despontavam outras imagens misturadas aos raios solares: um liboririntáqueo sem cabelos puxando uma caixa repleta de rodas, outro liboririntáqueo sentado no alto de um prédio vermelho a conversar com as nuvens, a liboririntáquea idosa passeando no interior de corredores sem correspondência com a realidade, um animal de orelhas proeminentes, lábios salientes, braços mais longos que as pernas se deslocando pelas copas das árvores de uma floresta imaginária, o corpo de Riscilap Uidig vindo em minha direção feito vento libertador de sons agudos e inarticulados. Retirei o ocociqi. Aventurei-me a entregá-lo ao nailtunx. Não consegui, mas ao tentar senti fraternidade em Riscilap Uidig. Perguntei a mim mesmo qual era a finalidade real daquele ocociqi incluído numa avançada tecnologia de incorreções e correções visuais. Outra vez tentei devolvê-lo ao liboririntáqueo que se fazendo de desentendido espichou ainda mais a sua conversa, o que me levou a um ponto multiplicativo das interrogações que desordenadas povoavam os meus pensamentos. Submeti-me a um sentimento de distância. Era como se o tempo liboririntático tivesse me levado ao início de uma história sem-fim.
- Afastado duoef, não posso me esquecer de que vim à vossa presença com a diretriz de vos solicitar, enfim, de vos impelir que recoloques o ocociqi em vosso rosto. Assim fazendo o duoef não o adquirirá por valor nenhum. Apenas o obterá por alguns overebuts que vos parecerão uma eternidade de evoluções. Ganhareis o ocociqi por merecimento, pela amizade íntima que une o duoef aos Anjos das Pressagias. O duoef alcançará tanto o caminho terrestre quanto o caminho liboririntático. Vosso coração está calmo. E vejo que já colocastes o ocociqi. Conquistastes a minha simpatia. Vós deixais que eu sorria!
E se a história sem-fim estivesse dentro de um livro condenado a ter fim? E se as páginas do livro não mais se virassem? Era a verdade dos sentimentos um objeto de lentes? A razão dava-me as contradições. Livro, páginas e vidas embaralhadas me faziam tropeçar em tudo o que eu enxergava por intermédio do ocociqi de Riscilap Uidig.
- Irrecusável duoef, não posso me esquecer de que vim à vossa presença com a instrução de vos dizer, enfim, de vos alertar que o drunh de khaej, o txetagu, ainda não se findou no tempo liboririntático. O som do silêncio dá a impressão às vezes que o duoef não sabe se informar para onde ir. Olhai-vos para vós! Vós deixais que eu sorria!
A claridade do txetagu total, espargida. Os sóis altos, mas a temperatura fria, o que não se cumpria como costume em Nesemix. Senti no íntimo um silêncio de doer alma. Meus olhares se voltaram para mim. Por um instante me tornei a própria aflição. Guiado pela claridade recebi o sustento e o sacio depois que o aflitivo, porém evolutivo instante passou revelando-me pelos olhares uma criatura parecida com um chimpanzé de pelos prateados que morava no tempo que existia dentro de mim.
- Predecessor duoef, não posso me esquecer de que vim à vossa presença com a obrigatoriedade de vos pedir, enfim, de vos requerer que devolvas o objeto de lentes a este simples nailtunx ocociqi, pois nem eu nem o duoef sabemos se lestes tudo o que poderia ser visto e se vistes tudo o que poderia ser escrito. Vós deixais que eu sorria!
Riscilap Uidig estava certo. Eu preferia mesmo fazer o que achasse que tinha de fazer. Então, naquele momento, retirei do meu rosto o ocociqi. Passei-o ao liboririntáqueo. Assim que se viu com o ocociqi outra vez em seu poder fez surgir na minha mão uma garrafa de água cristalina e própria para se beber. Meus olhos criacionistas se atentaram à realidade daquela garrafa. Sorri como se perguntasse a Eudaips como todas aquelas coisas eram possíveis de acontecer. Ainda sem saber a totalidade dos motivos dos seus sorrisos disse a Riscilap Uidig que eu me sentia um homem necessitado de casa, mas que o meu coração começara a pressentir e a minha mente a entender o processo liboririntático que drunh após drunh me fazia regressar ao meu planeta de origem. Eu estava certo?
Ah como eu esperei ouvir novamente a voz do nailtunx ocociqi. Riscilap Uidig não me disse mais nada. Tornou-se ilimitado e partiu.
OFRO DOOL, O NAZZART
Olhei para a garrafa de água. Coloquei-a em um dos bolsos da minha roupa e aos poucos fui me entregando aos passos. 
Parei de caminhar quando o txetagu escureceu. A noite era o outro início de Nesemix. Foi quando encontrei enrolado em correntes um liboririntáqueo de baixa estatura muito desejoso de um gole d'água.
- Aguacento duoef, também tenho sede. Dai-me um pouco da vossa água e me libertarás destas correntes. Sou Ofro Dool, o nazzart.