129º DRUNH, INQUAGU / A CASA DE GENA AXOTED

Eu entrei sim na casa de Gena Axoted. Mas não me introduzi em sua residência logo depois de ter recebido da maffaker singray o convite. Mantive-me ereto. Não me sentei em nenhum local, em objeto nenhum. Meus pensamentos precisavam de mim. Entreguei-me a eles. Essa entrega desencadeou um lembrar-se. À minha memória vieram os momentos em que vivi antes do meu achar numa das esquinas desentenebrecidas de Nesemix uma portinhola retangular embrechada no chão. Se a encontrei ou se fui encontrado por ela não saberia responder. O fato é que necessitei dos meus pensamentos. Eles de entregaram a mim. Essa entrega proporcionou movimentos giratórios à portinhola retangular. Círculo e retângulo? Disco, anel, arco, aro! Ângulos retos, lados paralelos, bloco, caixa? Tosses, medos e umidade nos olhos desejaram me salvar. Tossi como se de repente eu estivesse resfriado. Amedrontei-me porque o círculo se fez bem maior do que o retângulo. Lacrimejei porque percebi em questão de menos de um foroac que eu não estava constipado, desanimado, indiferente. Não corria perigo. Apesar de não correr perigo desejei que os liboririntáqueos me salvassem. A vontade de me livrar do purgatório inventado e do inferno imaginário levou-me ao conhecimento da verdade: o círculo e o retângulo pertenciam ao corpo de metal da nave TAREORA PL.470/NE. E foi essa nave repito que me transportou a Nesemix. Quando a portinhola se abriu depois de longo e breve tempo os pensamentos não deram trégua aos sentimentos. Eu, ainda movido pela lembrança de Le Liffe, declamei um poema de Fernando Pessoa dedicando-o à minha casa sem telhado, ausente fisicamente de mim: "... Senão de que me habito / por trás dos olhos cegos. / Nada, senão o instante me conhece. / Minha mesma lembrança é nada, e sinto / que quem sou e quem fui / são sonhos diferentes".

- Uma longa viagem com certeza. Entrai vós agora em minha casa. Sei que presenciastes o último mergulho, eterno, de Le Liffe nas águas do Rio Ojand. Creio que Le Liffe começou a se achar incapaz de vencer a angústia. Sua Hetrotadem assim como aconteceu foi um fato de crise emocional, uma ruptura com o equilíbrio. Ponde vós, duoef, à minha vista!
Não titubeei. Avancei no rumo de Gena Axoted. Dentro da sua casa a liboririntáquea me lançou olhares de curiosidade misturados com gestos de amparo, auxílio, atenção especial. Sua voz era benéfica. Indicava que a maffaker singray possuía generosidades adquiridas nos valiosos konasts da existência.
- Expansionista duoef, drunh após drunh deparastes com vastos horizontes liboririntáticos. Em Liboririm se descortinam belezas indescritíveis. Não repare no que pode para o duoef não ser singelo em minha casa. Os olhares da vossa memória sobre a cidade de Butrew nas duas vezes que por lá estivestes registraram imagens, lembranças que não mais se apagarão. Butrew é parecida comigo. Somos da pacatez embora não pareça!
Assim narrando os drunhs que vivi no planeta Liboririm não tenho a pretensão de ser um contista dos nove sóis e das 1001 galáxias. É real que estou aqui! Mas agora não é somente tempo do já. É também um aqui do tempo liboririntáqueo. Como se eu liboririntaticamente me encontrasse prestes a deixar a casa de Gena Axoted bebi sem infortúnios o gelado singray rigenbaim que ela tanto me oferecia.
Primeiro Gena Axoted se levantou do horizonte que parecia unir o teto da casa ao chão. Depois ela se agarrou a um enorme livro de receitas como se absorvesse o conteúdo das palavras pensadas, manuscritas e impressas. Feito isso ela se afastou das páginas que instantaneamente foram se transformando em sementes de rigenbaim. Em seguida articulou sons, vocábulos que eu nunca ouvira até então na minha vida liboririntática. As expressões proferidas despertaram as sementes de rigenbaim. Os frutos surgiram do nada da mesma forma que o nada não restringe o tudo. Gena Axoted cortou os frutos em fatias. Jogou-as num aparelho elétrico chamado ikildfec. Além de triturar as fatias de rigenbaim ao mesmo tempo o aparelho transformava o ar em líquido gelado.
- Liquefeito duoef, o singray ficou pronto. Bebei-o!
O singray muito frio era delicioso. Refrescava, reanimava, restaurava, alimentava, nutria, sustentava. Abasteceu a minha mente com pensamentos fantásticos, enigmáticos.
Não havia muros ou paredes na casa de Gena Axoted. A casa era um salão com poucos móveis. Um espaço retangular onde sem simetria, nenhuma combinação e proporção regular exibia um habateni pequeno, uma cozinha média, degraus solitários espalhados num espaço amarelo que a maffaker singray chamava de saleta. Numa das extremidades, a mais escura, consegui ver ossos de liboririntáqueos e uma cruz de cramr.
- Noturno duoef, eu tenho a impressão de que os sóis do Planalto dos Metais beberam a noite. Uma vez li nas estrelas que a cruz de cramr é a escada mais certa para se chegar ao lugar que o duoef chama de céu e que nós liboririntáqueos chamamos de ybeqto. 
- Estou me sentindo alegre Gena Axoted. Não tenho fome. Não quero ir embora. Meus pensamentos me querem metade terráqueo metade liboririntáqueo. Meu corpo foge da minha casa! Mas que casa é essa se a minha casa inexiste desde que desprovido de pés eu voo em busca de algo que encontrei desde que privado de asas eu caminho para regressar à procura de algo que jamais encontrarei. Quando os sóis iluminam Nesemix trato de descobrir a noite. Quando a noite me veste trato de conhecer o outro drunh que chega irreversível. Devo retornar. O gelado singray rigenbaim me fez ir além das nuvens prateadas.
Deixou-me a liboririntáquea uma garrafa com o que sobrou do singray rigenbaim. Gena Axoted ainda existia. Gena Axoted não era mais na continuidade da sua existência a maffaker singray. Nem a casa onde eu estava era mais um salão retangular. A casa passara a ser um triângulo circular. Se eu me curvasse ou me erguesse veloz a casa passaria a ser um círculo triangular. Gena Axoted se afastou de mim não por me considerar impraticável. Não entrei na casa konhme tampouco entrarei na casa txetagu, o próximo drunh.
- Retiro-me, khaej, desta casa!
A porta se abriu. O líquido substancioso que eu levava na garrafa talvez fosse a alma da liboririntáquea que conhecia Le Liffe, que por sua vez conhecia o poeta Fernando Pessoa. Do lado de fora da casa as ruas de Nesemix me abrigavam com as riquezas das sabedorias e das sortes liboririntáticas.
RISCILAP UIDIG, O NAILTUNX OCOCIQI
- Presencial duoef, não há novamente ninguém na casa. Nem mesmo a maffaker singray rigenbaim retornou a casa onde ela estava. Se o duoef ainda possuísse uma champnax eu faria uso dela para chamá-lo. Nem mesmo o abduzido tem mais casa. Sei que o duoef faz o que prefere fazer. Sei que o duoef quer me ver. Tenho sede! Sou Riscilap Uidig, o nailtunx ocociqi.