127º DRUNH, SETERGU / A GRANDE ARTE DE VIVER

- O que está acontecendo com a minha liboririntática casa?
Silêncio. Julguei que a noite iria se reter no espaço. Não foi assim. A noite não se manteve em prisão. O tempo prosseguiu no tempo. A Rua Hesb me pareceu mais larga. Meu coração disparou. Na noite ouvi os sons se moverem. Os moradores da Rua Hesb continuavam vivos nas janelas das casas. Algo se sucedia ininterrupto com a minha liboririntática casa. Ela se desmembrava, desarticulava-se. Suas partes se separavam do todo. Os moradores das outras casas intactas seguiam a me acenar. Uma tristeza veio ao meu encontro. Senti que os acenos significavam despedida. Tornei a perguntar ao xessnessen:
- O que está acontecendo com a minha liboririntática casa?
O silêncio não fugia. Causava-me sensações de perdas. Nulidades por não estar fazendo nada para impedir o despedaçamento, a dilaceração da moradia. Era silêncio espontâneo, estratégico, voluntário ou forçado? Não soube me responder. As paredes da casa se quebravam silenciosas. Comecei a suar. O vazio me preencheu. Fiquei tenso. Sentimentos de abandono e solidão não me desprezaram. Por outro lado aquele silêncio foi me extraindo da autoridade sem restrições das respostas.
Oog Ariacme quase não se movimentava. Sua força apanhadora nascia da sua energia espiritual, mental, psicológica. O xessnessen era lento e concentrado. Nada mais o perguntei. A casa estava indo embora. Minha liboririntática residência chegava ao fim. Fim?
A noite quente fazia suores escorrerem pelas estrelas. O tempo que o tempo protegia procurava guardar memórias num ir-se embora constante. Diferente do Rio Ojand que não cessava de se movimentar nos meus pensamentos. A noite passou pelos pedaços cálidos da casa da Rua Hesb. Os maravilhosos sóis tomaram o lugar das estradas. Ao vê-los refletidos nos contínuos acenos dos moradores da rua compreendi que o fim estava sempre em análises em Liboririm, e mesmo que uma forte tempestade caísse os sóis nem a noite de Nesemix se deslizariam até o fim. Sentei-me na calçada. Os cômodos da casa por Oog Ariacme tinham se afastados uns dos outros. Separação que se fez as paredes virarem pós.
O setergu amanheceu ensolarado. De repente o mormaço cobriu a Rua Hesb. Uma gigantesca poça d'água apareceu à frente desses pós. Reparei nesse instante que os liboririntáqueos da Rua Hesb desapareceram das janelas das suas respectivas casas.
Pela primeira vez Oog Ariacme sorriu. Sua mão empoeirada tocou no meu peito. Apontou-me o céu morno. Levei os meus olhares ao alto. Fiquei estupefacto com o que vi. Entre as nuvens e infiltrada na harmonia com o silêncio a nave TAREORA PL.470/NE sobrevoava a Rua Hesb. Pela segunda vez Oog Ariacme sorriu. Encantei-me tanto com a nave que vislumbrei no infinito liboririntático o vulto de Ny Eait, o piloto da espaçonave. Pela terceira vez Oog Ariacme sorriu. Não resisti e lhe perguntei por qual motivo a TAREORA PL.470/NE se encontrava em Nesemix justamente sobre a Rua Hesb.
Oog Ariacme, o xessnessen, finalmente me respondeu:
- Residente duoef, começastes a voar. Então Ny Eait começou a morar em vós.
Prontamente a nave atingiu velocidade deslumbrante levando consigo o mormaço. O azul se fez domínio no céu de Nesemix. Foi fascinante quando os meus olhares retornaram aos montes de pós que a minha liboririntática casa se tornara. Silêncio. Simples os montes de pós não estavam onde antes estavam. Apenas o xyddrar permanecia ileso, são e salvo sob os raios solares daquela manhã que corria lenta ao fim. Fim?
- Desmurado duoef, não há o fim. Não há a espera. Pensais que és o menor de todos nós. Sentis que não há mais onde morar. Ah, duoef vós és o maior. Não bajulais o fim. Não adulais a espera. Não ignorais o Liboririm. Vossa casa não existe mais. O xyddrar continuará a vos trazer a força necessária para respirar. Sentireis o ânimo do xyddrar esteja onde vós estejais. A Rua Hesb permanecerá no mesmo lugar. Por ela o duoef passará quantas vezes assim vós desejardes. Não é raro abduzidos descreverem como obscura a linguagem liboririntática, não obtê-la e não aprendê-la. O duoef terráqueo sem muito custo aprendeu a penetrar nos significados convencionais, fonéticos e visuais dos códigos do liboririnkes. Rúbio Talma Pertinax não tem medo de perguntar a respeito do que filosofa, poetiza, angustia, do que vos desvia dum ponto sem vos afastardes dos drunhs. Por este motivo, por esta razão vim arrancar do chão a vossa liboririntática casa, desmembrá-la e apanhar todos os seus pedaços. O duoef não deve ficar apreensivo. A partir de khaej vivereis em Liboririm sem ter a fixidade de onde morar, dormir, alimentar-se, fazer as vossas necessidades fisiológicas. Quando chegar o derradeiro drunh do duoef em Liboririm...
O poeta português Fernando Pessoa escreveu que "o ser humano é do tamanho do seu sonho". Eu andaria ao acaso em Nesemix? Seria possível eu alcançar outras cidades? Seria possível eu sair do Planalto dos Metais e atingir com os meus passos as Esferas liboririntáticas? Meu tamanho saberia envelhecer? Agora não haveria fim. O tempo liboririntático, esse sim, dominava a grande arte de viver. O sonho continuaria a desejar o meu coração.
Assim feito as flores do xyddrar o meu regresso ao planeta Terra desabrochava lento e rápido. Às vezes a volta era imperceptível; outras vezes em alto-relevo se punha às claras.
A nave TAREORA PL.470/NE ficou na minha lembrança, no meu modo de pensar, no meu direito de sentir. Oog Ariacme, o xessnessen, sorriu pela quarta vez.
- Construtor duoef, arranco a vossa casa khaej para que vós a apanhareis no futuro.
O xyddrar estava também dentro de mim. Oog Ariacme foi embora. Silêncio. Virei-me em direção oposta à continuação da Rua Hesb. A casa não a tinha mais. Todavia algo me seria consagrado. E mesmo se os pensamentos se transformassem em sentimentos e se metamorfoseassem em ventos eu viveria ainda por alguns momentos. O tempo não era servo, porém servia ao planeta Liboririm da maneira como aprendeu a ser.
Andei por Nesemix por um resucla de overebuts. Os sóis completaram o movimento giratório e se esconderam sob o Planalto dos Metais. A noite regressou. Nesemix friccionada por todos os passos
LE LIFFE, A WAIUTDA
passou a fosforescer. Numa das suas esquinas sem obscuridades encontrei uma portinhola retangular embrechada no chão. Dessa portinhola barulhenta surgiu uma liboririntáquea aflita que trazia consigo angústias em grandes quantidades.
- Destelhado duoef, em vosso planeta Terra viveu um poeta de nome Fernando Pessoa. Ele escreveu que a Hetrotadem chega cedo "pois breve é toda vida. O instante é o arremedo de uma coisa perdida". Sou Le Liffe, a waiutda.