109º DRUNH, SETERGU / DO SENTIDO DO EQUILÍBRIO

Sem entender completamente o que se passava comigo movi o corpo. A minha cabeça girou para a direita. Abrindo-me ao mistério que se revelava à vida liboririntática senti os traços fisionômicos do lefvyet. Eu não me identificava nem deitado, sentado ou levantado. E ficar levantado era mesmo me esforçando ao máximo impossível, irrealizável para mim. Talvez eu pudesse me ajoelhar. Os dedos dos meus pés me mostravam e indicavam o céu. Minhas mãos se apoiavam no chão de uma rua áspera que poderia ser estrada.
- Inter-humano duoef, vossas posições corpóreas me desejam.
A voz do lefvyet, extremamente rígida, era de uma agudeza sem fim. Ouvia-a como se os meus sentimentos traduzissem os seus intentos.
Meu corpo a pairar sobre as águas mexeu-se com intensidade. A cabeça voltou-se ao alto. Senti o tórax do lefvyet. Ele parecia voar. Desejou-me alçado a posição elevada. Eu certo de que estava deitado. Os meus joelhos rangiam. Tentei me estabelecer assentado. Os pés se aproximaram do chão. As mãos penetraram nas nuvens de uma estrada lisa que poderia ser uma rua.
- Revirado duoef, vossas posições corpóreas vos desejam.
A voz do lefvyet, infinitamente aguda, era de uma flexibilidade notável. Ouvia-o como se os seus sentimentos pretendessem as minhas traduções.
O corpo se mexeu com intensidade porque as mãos de Lefvy me puxaram com força para o alto. A cabeça se alçou ao centro dos olhos do lefvyet. Sofri a ação do comando do liboririntáqueo. Minha altura repartiu poderes ao meu corpo. Os joelhos se silenciaram, pararam com os rangidos. Tive a certeza de estar levantado. Pés e mãos não oscilavam, não tremiam. De repente o lefvyet me tocou com o seu corpo sustentado por inclinações, obliquidades. Imitei-o desviando-me da posição perpendicular levando o meu corpo de um lado para outro até que compreendi que eu não mais cairia.
- Controlado duoef, agora que estais estável, equilibrado arrisque-se a cometer gestos, movimentos improváveis. Reinicie-se. Interaja com a vossa individualidade mesmo se não a encontrares nas iniciais tentativas e tudo não passar, a princípio, de um imenso aluvião.
Não entendia perfeitamente o que o lefvyet me dizia. Mas a essência das palavras do liboririntáqueo davam sentidos ao meu estar de pé. Assim erguido com o meu corpo manchado pela lama e pelo lodo toquei com as minhas mãos no corpo do lefvyet. Abri-o por inteiro. Escutei a sua voz. Lefvy andou em minha direção. Separou os percebimentos que estavam em baixo dos percebimentos que estavam em cima da minha cabeça. Consciente do equilíbrio constatei que eu não estava na rua nem na estrada.
- Levantado duoef, prossiga a procurar o sentido da vida no sentido do equilíbrio. Bem antes que o setergu termine um pássaro voará sobre a vossa cabeça elevada. E eu, o lefvyet, partirei sem abandonar o duoef.
Mais íntimo do lefvyet o abracei. Perguntei-lhe se o Rio Ojand e o Rio Graepia estavam longe demais de onde nós estávamos. Lefvy sorriu. Seu sorriso retirou do  meu corpo as manchas de lodo e de lama. Os sóis se amainaram. O calor deu lugar a uma brisa que descobriu entre os troncos das árvores os vãos equilibrados do meu corpo. O corpo de Lefvy se soltou dos meus braços. O liboririntáqueo de voz aguda que parecia voar se fixou na minha memória para sempre.
Quando não mais o vi um pássaro de espetacular beleza sobrevoou a minha cabeça deixando no seu rasto um agradabilíssimo perfume. Seria aquele pássaro Lefvy, o lefvyet?
OVAON GEMRAYD, O STERNI OAANTE
Depois que o pássaro sumiu nos horizontes de Liboririm a vida  liboririntática me pareceu serena. Nas minhas proximidades, nos meus arredores não pressentia a presença de ninguém. Eu não percebia ao longe nem ao perto a minha existência. Faltava-me a influência do meu próprio eu. Em algum lugar o equilíbrio me conduzira. Era um lugar preto que me reconhecia, que começava a me ver branco.  Era um lugar branco que começava a me ver, que me reconhecia preto.
- Central duoef, sou Ovaon Gemrayd, o sterni oaante.