Minhas lembranças levaram Remejy Tofleg à porta de saída da casa da Rua Hesb. As certezas me diziam que o phelesgor'baxatic havia ido embora. Meu descanso viria ainda no tempo das estrelas. Dormi com rapidez. Sonhei ou pensei que sonhei com uma vida longa. Em determinado tempo do sonho ou do pensamento ouvi uma voz em suspiros dizer:
- Quem me dera tornar o encanto infinito e poder vos trazer para cá e o duoef querido ficaria aqui para sempre.
Ainda com os olhos fechados eu procurava um jeito que me favorecesse a enxergar no escuro o dono ou a dona daquela voz. Tentativas inúteis. Meu cérebro parecia correr da capacidade elétrica da voz. Senti o sonho despencar de múltiplos fins. Odores nem azedos nem picantes, doces, penetraram nas minhas narinas. Os olhos aos poucos se abriram.
- Sóis possuem cheiros, sabores? -indaguei-me.
As respostas podem ter tomado a voz do amanhecer. A liboririntática casa era boa porque também era uma casa de muitas janelas. Doces, amargos, picantes e salgados eram os meus pedidos silenciosos e devotados. Fui à cozinha. Sobre a mesa a presença de alimentos. Apliquei o tato sobre eles e me servi. Reconhecia os sabores das comidas liboririntáticas. Nada de insipidez havia nelas.
Por uma das janelas vi o xyddrar e toda a magnitude que lhe era peculiar. Não resisti ao esplendor. Fui com o olhar ao meio do xyddrar. Queria ouvir as vozes das flores. A audição sensível estava apta a me fazer permanecer em silêncio absoluto diante das manifestações sonoras das flores. Quanto menos eu verbalizasse a grandiosidade do xyddrar mais as janelas da casa me sentiriam e se abririam e os sons flóreos viriam adular a minha audição. Eu poderia encontrar mundos fantásticos no xyddrar.
- Caso eu pense intensamente no planeta Terra conseguirei me comunicar com alguém que amo? -perguntei em sussurro a uma flor de pétalas de cristal.
O silêncio atravessou o xyddrar. Trouxe o tempo da espera. Foram instantes nos quais eu nada disse aos meus pensamentos. O peito se incendiava. Existiam flores que além de falar sabiam verter lágrimas. Fabulosas lágrimas que feito espelhos refletiam os raios solares. Meus olhares conduziram o meu corpo ao xyddrar.
O céu se movia nos sóis ou eram os sóis que se movimentavam assim tão longe? Ouvi o vento conversar com as flores. Ouvi as flores conversarem com os sóis. Ouvi os sóis conversarem com o céu. Ouvi os meus pensamentos me alertarem sobre a chegada de um orimotklim. Águas e tremores passageiros me ocorriam. Recuei os meus passos e avancei nos passos das sombras.
- Por quais motivos estou agora caído no interior do habateni?
Passei as mãos no meu cinto. Na fivela os dedos sentiram uma bolsa de silêncios. Assustei-me por desconhecer a razão de tantos silêncios. Levantei-me. Ao me retirar do habateni pisei em cacos de espelho. A liboririntática casa se sacudia. Segurei-me nas paredes. Dei fé aos meus sentimentos que eu estava fugindo do habateni.
O nada e o tudo se passavam na casa da Rua Hesb. A tempestade despencou sobre Nesemix. O orimotklim se fez profundo. O tudo e o nada se passavam no meu íntimo. Mas quando os tremores se findaram uma floresta cresceu no meu íntimo. Pausadamente ao me procurar nessa floresta encontrei um bosque. No bosque uma envelhecida flor me afirmou que o duoef que eu procurava viajara ao deserto. O bosque não me queria mais. Um deserto surgiu para me proteger. As roupas do meu corpo se tornaram amarrotadas.
Abalado pelo orimotklim desejei não ver ou estar com alguém. Assim mesmo o deserto me mostrou ao longe uma liboririntáquea madura. Ela estava dentro de uma moldura como se fosse uma pintura de um quadro vivo. Eu a enxergava de cabeça para baixo, de ponta-cabeça. Essa liboririntáquea avançada em konasts se chamava Xemitya Iaderim. Aproximou-se de mim ou fui eu que me aproximei dela?
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| XEMITYA IADERIM, A NABLONIAN |
Emocionei-me sem ser merecedor. O deserto então sucumbiu-se. O bosque levou a envelhecida flor para a floresta. Reencontrei-a. Ela me afirmou que o duoef que eu me encontrara fora para Nesemix ensolarada. O xyddrar retornou. Cacei-me no primeiro pensamento que tive de Kacbayajhek desde o drunh que eu saíra da cidade construída que não mais existia. Contei a este pensamento uma história triste de fim melancólico.
- Quanto menos eu falar de Kacbayajhek será melhor.
Molhados estavam os meus pés. A tempestade logo terminaria. Com temporal ou sem temporal continuaria a conviver com os interiores da liboririntática casa da Rua Hesb. Bastavam-me os sóis e as flores falantes.
- Quem me dera tornar o encanto infinito e poder vos trazer para cá e o duoef querido ficaria aqui para sempre.
Ainda no escuro procurava um jeito que me favorecesse a enxergar o dono ou a dona daquela voz num complexo piscar de olhos.
O drunh, abatxegu, voou sobre os resíduos da tempestade e foi principiar o regresso dos sóis.
Olhei com carinho para o xyddrar. As vozes das flores liboririntáticas são bem diferentes das vozes dos tanfulyots.

