Próximo dos meus olhos de observador o espelho ficou suspenso no nada. Transformou-se em testemunha do meu encontro com Natzel Meybuxy.
Uma auréola dourada surgiu a rodear a cabeça da kravytrar. Fez-se silêncio. O silêncio cruzou os braços. Ouvi vozes ininteligíveis. O mistério contido nelas me causaram perturbação. A auréola se engrandecia com as vozes. Percebi que as vozes subiam gradativas o tom. Minhas funções psíquicas se punham em desordem. As qualidades sonoras e as inflexões das vozes forneciam a Natzel Meybuxy o poder de aprofundar em mim os seus olhares ardentes.
Como não possuía braços para cruzar o silêncio se retirou da casa de Natzel Meybuxy. As vozes se fundiram aos sons da cidade construída. O chão se tornou dourado como a auréola despontada. Atraído me senti pela superfície na qual eu pisava. Deitei-me sobre a cor do ouro. O chão refletia a minha mão direita. Meus dedos se moviam rápidos. Via-me a escrever. Por tudo que fosse sagrado eu não estava de maneira alguma escrevendo qualquer palavra que fosse.
A auréola veio ao encontro da minha cabeça. A alegria me invadiu de repente. Deixei de sentir as perturbações orgânicas e psíquicas provocadas pelas vozes que a cidade consumia. A fortaleza da auréola me estampou mais ainda no chão. Fiquei atirado ao lado do reflexo da minha mão que não parava de se movimentar em escritas imaginárias. Talvez não.
Natzel Meybuxy veio se deitar comigo. Tocou-me o corpo com os seus dedos repletos de luxúria. Beijei a kravytrar. O gosto do beijo foi de celebração do passado imutável. O beijo serviu também para engrandecer o futuro. Totalmente despido pelos olhares da liboririntáquea, e os seus olhares sabiam como me levitar, consegui afinal ler o que o reflexo da minha mão direita poderia estar escrevendo ininterrupta. Meus lábios se mexeram. Pela audição senti a minha voz sair de dentro do silêncio que ainda restava na cidade construída.
Mais sólida com a tradução das palavras a auréola se pôs ao avesso. Entornou-se sobre nossos corpos em forma de carne. Habitei o meu corpo no corpo de Natzel Meybuxy.
Levitado feito o espelho e eu o drunh encheu-me de esperança. Erguido pela atração que sentia pela kravytrar respondi a pergunta que Natzel Meybuxy me fizera a vários konasts.
- Duoef, qual nome darás à cidade construída pelos vossos pensamentos?
Levitado feito o espelho o drunh deu-me devoluções. A minha mão direita se soltou do reflexo do chão. As palavras escritas ficaram suspensas aos olhos de Natzel Meybuxy. Meus pensamentos me entregaram o nome que eu daria à cidade construída.
- Kacbayajhek!
Para o tempo não houve mais tempo. Natzel Meybuxy puxou a porta refletida no espelho. Deixou-me passar por essa porta. Foi embora da casa que não mais existia porque a cidade construída agora se chamava Kacbayajhek.
E aos meus pensamentos Kacbayajhek não mais pertencia. A cidade cresceria, mas tudo está propenso a ter fim. Caminhei pela cidade à procura de Origem. Não reencontrei a nova casa. Desaparecera no meio de tantas construções modernas criadas pelo pensar no meu estabelecer-se naquele lugar inóspito que eu não sabia se realmente existia.
Não demoraria a cair a noite sobre Kacbayajhek. Meu coração sentiu ao despontar estrelas um chamado. A mente o traduziu. Sem pressa encontrei no lado oeste de Kacbayajhek a estátua de Natzel Meybuxy colocada no centro de uma praça. Sentei-me nas linhas imaginárias que formavam uma auréola, um polígono. Deveria segundo os meus pensamentos permanecer ali à espera de Alnie Neaemi.
Poucos overebuts se transcorreram. Alnie Neaemi chegou sorrateira por detrás do meu corpo. Quando fui revestido por sua sombra me virei e sorri.
- Duoef, sei que já sabes quem sou. Porém te reafirmo que sou Alnie Neaemi, a tuscorytsma.
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| ALNIE NEAEMI, A TUSCORYTSMA |
Ergui-me das linhas imaginárias da auréola. A noite caíra sobre a cidade. Compreendi que a tuscorytsma não me levaria para fora da cidade, que penetraríamos nas entranhas de Kacbayajhek de modo decifrador, lúdico, confessional, devocioneiro e pronunciado.
