Não havia alegria em Origem, a nova casa. Acordei sem as claridades solares entrando impetuosas pelas janelas. Origem parecia pairar no espaço. Proporcionava-me a sensação de não estar totalmente perdida nos confins liboririntáticos. Talvez por não possuir uma cidade para se fixar a nova casa vagasse no celeste escuro, no divino sideral. Constatei o descanso tomando conta do meu corpo. Ainda deitado vi Apocnay Eriemy atravessar lenta o corredor. Milax Grecont a chamava.
- Venha Apocnay Eriemy me ajudar a levantar-me!
Rolei sobre a cama. Passei os dedos dos pés sobre o lanzdoal. Não satisfeito voltei a passar os dedos dos pés sobre o lanzdoal. Fiz isso nove vezes.
- Por que estais a fazer isto duoef? -perguntou-me Apocnay Eriemy. Sua voz vinha do quarto de Milax Grecont.
- Acredito que alisando o lanzdoal com os dedos dos pés esteja atraindo sorte e felicidade.
Nem Milax Grecont nem Apocnay Eriemy conversaram mais comigo durante o transcorrer do drunh. Levantei-me da cama içado pelo silêncio. Na mesa da sala encontrei alimentos e bebidas.
Comi e bebi encarando as paredes. Os sentimentos mudavam de padrão. A tristeza se embriagou no meu coração. Nesse overebut me senti uma garrafa de uísque. Sem cereais fermentados em Liboririm eu me tornava uma garrafa vazia, um ser humano oco. Desisti de sair de Origem. Construir uma cidade é trabalho árido, penoso. Como eu poderia construí-la se jamais havia construído algo relevante na vida? Não é para mim a alegria o contrário de tristeza. Achava e ainda acho que tristeza é um sentimento de lembranças, que a alegria significa memória de sentimentos nos pensamentos.
Permaneci estabelecido à mesa por muito tempo. Penetrei-me nas paredes de Origem tentando me descobrir um construtor de cidades.
Nenhuma viva alma aparecia para me fazer companhia. Nem as orocruwas! Será que a sorte em Origem era não possuir sorte?
A nova casa se esticava, encolhia-se. Fora das paredes por toda aquela manhã sem manhã, drunh sem drunh, considerei que as portas da nova casa estivessem fechadas.
Lacrei-me em mim. A intenção do lacre era unicamente me ajustar à espera. Fazia-se necessário esperar o tempo voltar. Não sairia de Origem. Eu tinha medo de me perder fora das suas paredes. O tempo se retornasse demoraria. O silêncio da nova casa foi ligeiro. Envelheceu-me.
Durante a espera pelo tempo a minha imaginação se conheceu por meios virtuais explorando os hardwares e softwares avançados que descobri no quarto de Milax Grecont. Também a espera fez com que eu conhecesse uma liboririntáquea chamada Lesdla Mytwza. Ela morava em uma casa conhecida na Esfera Brilhante como Onamus. A espera pelo tempo foi tão extensa que Lesdla Mytwza saiu de Onamus e veio ter comigo de maneira real em Origem, no quarto de Apocnay Eriemy. A sua visita se iniciou quando escutei barulhos procedentes do lado externo da nova casa.
- Quem está aí fora? -perguntei em voz alta apertando a minha língua com os dentes.
A possível resposta da causa dos ruídos se materializou à minha frente. Meus cabelos pretos se fizeram brancos. A jovem Lesdla Mytwza se equilibrou vertical. Aproximou-se.
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| LESDLA MYTWZA, A SNADINLAY |
- Não! Nunca desejei imaginar nem me apaixonar por uma liboririntáquea tão jovem. Veja: tornei-me um velho cansado e inútil.
Lesdla Mytwza variava entre a realidade e algum fator do irreal que eu não sabia nomear, mas que me produzia a extraordinária sensação de oscilação, um nada perfumado.
- Duoef, deixe que o meu aroma se perpetue em vossa mente. Vosso coração necessita do meu cheiro. Vossa imaginação não o terá para sempre. O amor dos liboririntáqueos tem fim. O amor de Eudaips pelo amor dos liboririntáqueos é o que é eterno em Liboririm.
A snadinlay me beijou por nove vezes. Eu acariciei o seu rosto harmonioso, melifluo. Sua pele e o seu frescor intensificaram a delícia do seu perfume. Enlevado assim por minha imaginação vi Lesdla Mytwza chegar e partir. Separou-se de mim como um sonho inesquecível.
A porta de Origem se escancarou. O tempo voltava à nova casa. A brancura nos meus cabelos sumiu. Tornaram-se pretos outra vez. O tempo se sentou ao meu lado. Compreendi que ele não falava nem ouvia. O tempo agia. Meu coração se encheu de coragem.
- Sairei de Origem! Construirei a cidade! A nova casa se fixará em Liboririm!
O tempo que não falou nem ouviu por algum motivo sorriu.
