Antes que o xyddrar ficasse quieto saí de casa. Outra vez fui à Racerac Citlew.Ao chegar me senti arranhado por uma flor de caule comprido infestado de espinhos. Dourado ficou o meu corpo. O sangue brotou das feridas. Desenhou na pele uma criança metade terráquea, metade liboririntáquea. Essa criança era uma ussungtgiu. Ao brotar dessas feridas, o pequeno ser fugiu dos meus alcances. Correu. Com dribles corporais escapou das minhas mãos. Queria tocá-la. De certa forma constatar as proezas do infinito nos sentimentos do bem-querer. Quanto mais ela crescia mais ela engordava. Quanto mais a ussungtgiu engordava o seu distanciamento ficava visível no meu corpo. Fui perdendo paulatino a cor dourada.
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| FLANGIT GHIST, A DZEDULAIJA |
O silêncio se estendeu por toda rua Racerac Citlew. Liboririm é um planeta de infinitas portas. Na única casa térrea da rua uma dessas portas se abriu. E da profundidade da paisagem irrompeu a obra pictórica de Flangit Ghist, a dzedulaija. Gliax Jesram não se indispôs a vir ao nosso encontro. Olhou-me como se eu fosse um novo conhecido. Abraçou a dzedulaija. Disse-lhe em prantos:
- A minha cabeça dói muito! Preciso continuar as leituras dos meus livros favoritos. A cabeça...
- Venha se encostar ao meu ombro pequena e terna Gliax Jesram. Necessitamos caminhar juntas. Sempre lado a lado. Laços afetivos são saudáveis. Veja, desenhei uma tiara e a colori de vermelho e branco. É para você! Coloque-a...e a dor na cabeça passará.
Eu observava com admiração as duas liboririntáqueas. Mãe e filha? Artista e arte? Realidade e fantasia? O sentimento de amor entre a criadora e a criatura me emocionou.
No final do drunh, quando os sóis do Planalto dos Metais sopraram as estrelas ao céu de Nesemix, eu ficaria sabendo que Flangit Ghist desenhara Gliax Jesram na minha pele porque eu permitira com louvor.
Meus dedos procuraram uma maneira de escrever. Mente e sentimentos me levavam a esta procura. Afastei-me de súbito de Flangit Ghist. As sílabas que os meus dedos escreveram na rua Racerac Citlew virada confessionário vieram de um universo escuro e sombrio, claro e transparente. Ao terminar a sucessão de palavras me fixei na voz infantil de Gliax Jesram. Principalmente no seu último dizer à dzedulaija.
- Dormistes tão profunda que nem os vossos braços movestes.
Qual seria a idade de Gliax Jesram? Não sei responder. Sei somente que ela era um desenho bonito. Tinha uma alma sensível.
Flangit Ghist se deslizou para perto de mim como se pressentisse a razão da minha escrita.
- Confiante duoef, vosso coração se confessa ao corpo da minha criação. Vosso corpo se confessa ao coração de Gliax Jesram. Mas não a desenhei com coração. Ela não é terráquea embora a vistes como uma criança metade liboririntáquea, metade terrena. As portas que a levaram ao íntimo do tempo são as mesmas portas que a trouxeram de volta. O retorno, porém, é efêmero, ligeiro. Se o duoef amar Gliax Jesram além das nuvens o amor vos trará dores terrenas da carne. As dores se configurarão em solidão idêntica às existentes no vosso planeta de origem. Exulto ao duoef que dê ao meu desenho a liberdade! Deixe que Gliax Jesram vá embora da rua Racerac Citlew. Que ela vá atrás da sua própria vida! Liberte-a de mim!
Tudo se cumpriu perfeito nos braços de Eudaips. A força da minha mente gerou sentimentos libertários e generosos. Perguntei à dzedulaija:
- O que devo fazer para libertar Gliax Jesram de você?
A flor que me arranhara soltou-se do caule. Ao flutuar veloz pousou em Gliax Jesram. O vento que a desprendera do caule comprido e espinhento empurrou Flangit Ghist às profunduras do elevador surgido na rua Racerac Citlew.
Desconfio que essa foi a segunda vez em que fui à Silêncio D'Água. A verdade é que o elevador transportou Flangit Ghist de volta às suas nuvens de desenhos.
Overebuts depois Gliax Jesram foi embora de Nesemix na mesma velocidade em que os silêncios, as confissões e os amores me levavam às vezes à rua Racerac Citlew.

