87º DRUNH, MINODGU / O NADA ALÉM DO AMOR

Ao me levantar me vi fora do owhaluvost. O veículo sumira. Os raios solares se apertavam nos meus olhos. As paisagens ao meu redor eram bonitas, mas naquele momento não se sobrepunham aos meus quietos desesperos.
Árvores de todos os metais liboririntáticos faziam fileiras pelo caminho. Cores e reflexos, reflexos e cores se prolongavam em uma espécie de exposição de excelências e vaidades.
Havia me levantado. Já era um outro drunh. Sentia o vento. Ele estava diferente, arisco. Furava-me. Parecia feito de setas com pontas aguçadas. Por mais que os sóis se expandissem no horizonte a sensação era a de que eu me infiltrara em noite escura, sem estrelas.
Nactvos voavam sobre a minha cabeça. Buscavam animais hetrotados. Acelerei os passos. O medo começou a criar amarras. Experimentei a sensação de estar sendo preso por algo repleto de algemas. Uma corrente talvez. O certo é que os passos se tornaram lentos. Não se aceleraram. Ao contrário: ficaram mais lentos do que estavam.
Ao invés de ganhar danças fui paralisado pelos meus próprios olhos. Os sóis não desapareceram. Mas aquele local se transformou em escuridão. Muros se ergueram. Os nactvos lançaram faíscas gerando sombras nos muros estabelecidos. Espantos da minha vida vieram me atormentar. A mente despertou imagens pavorosas.
Um owhaluvost surgiu à frente. Sua porta se abriu. O vento derrubou as árvores. Empurrou-me em pontas agudas para dentro do owhaluvost. O veículo se moveu sem quase nenhuma velocidade. Ele não possuía assentos. Espaçoso como um salão à beira de um mar. Mar que a mente criara. No interior do salão homens e  mulheres bebiam. Celebravam a candidatura de um deles a um cargo público. Iniciei a gritar. Gritos contra os discursos dos festejadores. As pernas subiram até os braços. Os braços desceram até as pernas. Verifiquei-me trôpego. Homens corpulentos me agarraram. Jogaram-me para fora do salão. Ébrio como eu estava não quis voltar aos gritos e ao confronto. O mar inventado lançou-me uma onda. O calor do corpo se refrescou. Arrefeci-me. Tomei um novo alento. Decidi retornar ao princípio de todos os meus espantos. Segui pela beira do mar.
Num repente um homem barbudo montado em um cachorro de metal apareceu. Bateu-me com fúria. Socos impregnados de gritos favoráveis aos festejadores do salão do owhaluvost. O cachorro mordeu-me várias vezes. O homem e o animal possuíam cólera e força extraordinária. Afundei-me no medo, na dor e na invenção oceânica.
Pensando estar fora da vida percorri o fundo do mar até encontrar um planeta iluminado por nove sóis. Os raios solares seguraram fortes os meus olhos chamando-os de volta. Os olhos, medrosos e atormentados, foram se abrindo. Aos poucos reconheci o owhaluvost vazio de assentos.
Endireitei-me quando uma das portas do velho veículo se abriu. Do lado de fora vários nactvos jaziam em esquifes douradas do chão ao céu. Retornei veloz ao interior do owhaluvost. Dois assentos, para minha surpresa, materializaram-se. Em um deles havia um liboririntáqueo.
MUHAX EINES, O RECLUOSIT
- Atemorizado duoef, vinde vós sentar ao meu lado. Nosso encontro não deve se demorar. Tente esquecer as ansiedades e os medos terrenos. O que passou, passou! Virou passado. O duoef tem que seguir em frente. Só assim regressará definitivo ao vosso planeta Terra. Venha duoef se sentar ao meu lado pois sou Muhax Eines, o recluosit.
Não existiam mais pontas delgadas no vento. Ele não se fazia mais de arame farpado. Levantei-me de vez e fui sentar ao lado do recluosit. O coração palpitava como se o nada que me corroía não estivesse em meu destino. O coração palpitava porque nele estava o nada além do amor.
- Desterroado duoef, sentai-vos. Não derrame vossas mil lágrimas. Estais em Liboririm porque amas Liboririm. O duoef já compreendeu que retornar à Terra não significará se abdicar do amor que nutris por Liboririm.
Muhax Eines, o recluosit, surgiu como uma brisa e como um fogo. Suas palavras me queimavam feito tocha. Abrandavam-me feito um seguir adiante. Eu havia entrado no meu próprio reino e céu. Agora deveria me aproximar do racluosit.
Assim que me sentei ao lado de Muhax Eines os dois assentos levitaram. Atravessaram as existências real e onírica do oco do owhaluvost. Fomos ao encontro de uma cidade. Ante os sóis, perante mais de mil liboririntáqueos e à vista do vento disse ao recluosit:
- Sair do mar de mim mesmo, Muhax Eines, é um êxodo solitário. Retornar a Nesemix é a alegria de povoar, morar.
- Regulado duoef, onde quer que fores eu vos seguirei à mando das nascenças e de Eudaips. 
Muhax Eines se soltou das minhas mãos. O assento no qual eu me sentara pousou em uma rua à frente de um cinema. Mas nem havia cinema naquela rua pequena porém com variedades infinitas. Eu havia regressado à rua de nome bonito, poético até: Silêncio D'Água.