58º DRUNH, TXETAGU / O ESTRAGO DA RAZÃO

Sobrevoando Marbcifm o meu coração presenciou e sentiu a chegada do novo drunh. Os reflexos solares esbanjaram belezas clareando os telhados das casas. Houve um instante que tive vontade de recolocar os meus pés no chão. Fiz o contrário. Subi muito mais alto. Quanto mais ganhava velocidade e os céus o drunh em plena noite me abraçava. Voei ao alto do mais alto. Vasculhei com pensamentos o interior das estrelas. O céu estava sereno. O destino produzia o efeito de estrelas que desprendiam dos meus olhos e caiam da abóbada celeste. Meu coração se desgrudou das memórias.
Largos riscos azuis se desenharam no infinito. Formaram caminhos semelhantes às avenidas de uma grande cidade terrestre. Aproximei-me de tal maneira dos traços que não pude evitar o sorriso ao enxergar nas vias circulares e azulinas uma rahiitile puxada por um zvaolactaar. Transportava uma liboririntáquea extravagante que me sinalizava com os brilhos dos seus olhos. Era certo que a passageira da rahiitile desejava me conhecer.
Eu sabia que o meu tempo nas alturas não duraria a eternidade. Gritei com o propósito de fazer parar a rahiitile. Queria que a excêntrica liboririntáquea viesse me fazer companhia. Os gritos ressoaram quase aflitos dentro da realidade fecunda em expectativas. Não desejava com os gritos atingir fantasias gratificadoras. Bastava que a singular passageira acenasse fornecendo-me as certezas da manifestação da verdade.
Vozes internas responderam aos gritos dos meus gritos. A rahiitile a cada grito soado parecia estar mais perto do meu coração. Assim minhas mãos tocaram no zvaolactaar. A estouvada liboririntáquea se esticou, agarrou-me e me puxou para dentro da rahiitile. Fiquei sentado ao seu lado enquanto os ovais sulcos azuis desapareciam entre as estrelas. Por não estarem sozinhas as estrelas foram duplamente se iluminando de tal forma que os sóis me exibiram os telhados das casas de Marbcifm. Descemos das alturas retornando às claridades solares da Cidade dos Amores.
A rahiitile era tão verdadeira quanto o zvaolactaar. O zvaolactaar era tão veloz quanto o instante liboririntático no qual a noite, que não era mais a noite, em pleno drunh distanciou do meu corpo os seus abraços.
Ela, a viageira da rahiitile, chamava-se Racra Csexm. Sua voz invadia as mansidões. O seu silêncio acalmava o meu silêncio. Quis lhe dizer tantas coisas. Os sentimentos me mantinham na plenitude da minha condição humana.
As ruas de Marbcifm se coloreavam. Chegamos aos portões de uma grande casa. Racra Csexm não esboçou nenhuma reação quando o zvaolactaar foi embora levando as minhas lembranças na rahiitile. Mantínhamos nossos pés pousados no chão.
No interior da grande casa foi perceptível a presença de múltiplos cômodos. Entramos em um deles. Nem o menor, nem o maior. De imediato Racra Csexm se deitou na cama. Cobriu-se com prolongado manto. Sua voz chegou ao meu coração.
- Calmoso duoef, aconchegai-vos! Esta é a minha casa. Moro com os meus nove irmãos. No momento eles não se encontram. Nem a minha mãe agora encontraremos por aqui. Foram todos desfrutar por alguns drunhs as benesses terapêuticas do Tsocwast, um lugar muito distante, pródigo, generoso no tratamento das enfermidades mentais. Sinto a falta deles. Nosso reencontro será veemente! A ausência foi pressentida. Não procure pelo meu pai em vossa mente. Executou a Hetrotadem num konast perdido no meio da chuva cósmica. Eu permaneço quase todo o tempo dos drunhs deitada. Se não estou na cama estou passeando de rahiitile. Estas viagens fazem parte do meu tratamento. Sou uma tzomockyn. Pode vos parecer que sou cheia de graça e fortaleza. A demência também me corrói. Sou dominada pelos espinhos da paixão. Vivo amores loucos que não cabem nesta grande casa vazia. Os brilhos dos meus olhos são abstratos. Higracum é o nome do zvaolactaar da rahiitile. Higracum possui a alma da minha estranheza. O silêncio que acalmou o vosso silêncio vai além do psiquismo, da privação do falar e me causa dores. Ah, incomum duoef, retire-me desta cama. Leve-me aos sóis e às estrelas.
O que é o estrago da razão? Talvez o drunh em plena noite e a corrosão mental da tzomockyn não passassem de efeitos colaterais, encontros transversais prestes a subtrair-me as linhas retas da minha efêmera condição liboririntática.
Meus lábios buscaram a tacicriz de Racra Csexm. Às escuras beijei-a no amor do silêncio despudorado. Minha língua nos claros e nos coloridos de Marbcifm percorreu os vários sentidos dos drunhs doidos e apaixonados de Racra Csexm. Drunhs que jamais regressariam do Tsocwast.