55º DRUNH, SETERGU / NÃO AINDA NESTA NOITE

Em menos de um foroac de lucidez faltou-me a razão. Agarrei com força os mastros, sustentáculos do ghersapse como se a ausência até aquele momento perfumada de Sphany Teppor fosse me arremessar de volta à rua Hesb.
As casas em Liboririm não possuem números identificatórios. São identificadas pela rua na qual estão e por alguma característica única, diferenciada e exclusiva que somente a cada casa pertence. Se eu recebesse uma correspondência com certeza estaria ocupando no envelope a seguinte destinação:


TA - TERRÁQUEO ABDUZIDO
RÚBIO TALMA PERTINAX
RUA HESB, TNAIKCSTS XYDDRARS
LIBORIRIM
PLANALTO DOS METAIS - NESEMIX

Mesmo assim comecei a contar, a verificar os números que passavam nos meus pensamentos. Números decididos a tentarem emocionalmente abrandar o tempo. Não consegui com o cômputo localizar e trazer outra vez ao meu convívio a doce Sphany Teppor. Algarismos à parte resolvi caminhar no tshilafosnymit.
De cabo a rabo percorri os espaços do parque encostando-me nas estruturas metálicas dos brinquedos.
O silêncio me presenteava com o fim dos foroacs e com o regresso da razão. Ao prosseguir caminhando repetiu-se sob os meus pés as sensações do último foroac. Ponderei sobre os vazios que a cretselwzen me dissera sentir. Tive a suspeita de que eu e Sphany Teppor sobreviveríamos em oceanos diferentes.
- Melhor que eu diga em rios diferentes visto que os oceanos não tem vez em Liboririm. -ajuizei coçando a cabeça.
Pelo fato de em Liboririm eu caminhar tanto assim o meu cérebro era colocado em estado meditativo permitindo-me reflexões. Imenso, o tshilafosnymit não se perdia dos meus anseios. Nem a noite se extraviava das minhas sombras. Os brilhos do céu de Nesemix não eram riquezas em decadência. À noite o tshilafosnymit era mais tnaikcst do que os xyddrars da minha casa na rua Hesb. Os sóis cativantes deram lugar às estrelas. O ouro que poeticamente eu buscava reluzia ao meu redor. Por não saber ou por não querer saber a localização da saída do tshilafosnymit eu me senti prisioneiro da liberdade.
Os brinquedos se moviam. Não parariam nunca. Percebi que a minha presença no parque vinha de antigos foroacs, esquecidos e relembrados tempos. Eu narrava à noite o percurso das palavras quando uma música entrou nos meus sentimentos. Esmerada, a canção que eu escutei contrariava a filosofia da razão e me sorvia em experiências. A verdade é que antes de atendê-la vi quem a executara compô-la. Antes do antes quando os sóis frutificavam as estrelas o vromtaldy me chamou ao me ver passar pela enésima vez nas redondezas do ghersapse.
- Áureo duoef, vinde, vinde vós saborear pelo menos uma jivec. Façais companhia a este simples e solitário vromtaldy. Estou no bys-har à vossa frente.
O bys-har no instante do chamamento se fez materializado no lugar onde o ghersapse fora construído. Não posso afirmar que o bys-har havia tomado o lugar do ghersapse nem consolido a ideia de que o ghersapse cedeu lugar à existência do bys-har. A impressão foi que ambos, ghersapse e bys-har, eram uma só coisa, uma única construção, duas existências em uma vida. Ao entrar no bys-har não pude refrear o meu espanto, maravilhado que fiquei ao ver no teto do salão milhares de garrafas de jivec dependuradas no ar.
- Hedonista duoef, sentai-vos! Sentai-vos! As jivecs de tão geladas tiritam. Apresento-me à vossa senhoria: sou Gbereel Luzas, o vromtaldy. Celebrai-vos! Celebrai-vos! A noite de tão bela faz a companhia do duoef me inspirar. Ainda nesta noite a emoção me fará compor uma canção.
Apenas uma jivec não foi o suficiente. Gbereel Luzas nas primeiras jivecs se manteve em esporádicos silêncios. Súbito iniciou a desenhar notas modais em um guardanapo lustroso. Quando a décima garrafa de jivec se esvaziou o vromtaldy levantou-se da cadeira. Do bolso retirou uma minúscula caixa larga na base e que ia se afinando para o ápice. Puxou a parte mais inclinada da caixinha. Um longo braço de metal se esticou. A pequena caixa se metamorfoseou  em instrumento musical.
- Abaulado duoef, eu vejo o que vós vedes! Eu vejo o que vós vedes! O que os vossos olhos veem e o duoef não compreende é na verdade o meu idwnhet.
Gbereel Luzas pediu ao tabalon outra garrafa de jivec. O idwnhet possuía uma abertura oval. E foi nessa abertura que o vromtaldy, dando sinais de embriagues, jogou as notas modais desenhadas no guardanapo lustroso. O instrumento musical com o comando dos movimentos excêntricos dos dedos de Gbereel Luzas produziu acordes belíssimos, harmônicos que se uniram formando uma música de rara beleza.
À melodia se atrelaram escolhidas palavras liboririntáticas que falavam da ausência eterna dos oceanos em Liboririm, dos circuitos eletrônicos e elétricos dos aparelhos lúdicos do tshilafosnymit, dos 9 sóis liboririntáticos, das noites nesemixianas, das saudades que jamais se miniaturizarão.
A música e a poesia de Gbereel Luzas revelou-me a existência no tshilafosnymit do nachayran, brinquedo que me lembrou um elefante porque era proprietário de um grande porte. Nesse brinquedo existiam assentos rugosos e um focinho que se estendia no sentido longitudinal. O nachayran poderia me transportar à Marbcifm, a Cidade dos Amores.
- Embriagado duoef, entrai-vos no nachayran e sentai-vos! Entrai-vos no nachayran e sentai-vos! Bebestes tantas jivecs! Nem sentistes o tempo da loucura amadurecer.  Olhai vós o céu! Olhai vós o céu! A noite deixará mais uma vez de ser a estampa colocada por Eudaips no semblante do Planalto dos Metais.
Com o final da composição e execução da música o idwnhet voltou a ser uma minúscula caixa. Os sóis não demorariam a cobrir de claridade a cidade de Nesemix.
- Traga-nos, traga-nos tabalon a jivec mais gelada que o bys-har tiver...
Ao findar a jivec mais gelada do bys-har viriam as jivecs ultra geladas do bys-har.
- Insano duoef, vós deveis, vós deveis saber que eu, um simples e solitário vromtaldy, não tenho o hábito de escrever cartas. Para quem eu as remeteria? Mas de louco a outro louco confesso que o duoef me enlouquece.
Não diverso à realidade liboririntática que nos fazia rir, Gbereel Luzas a súbitas queria porque queria  me escrever uma carta. Desejou saber onde eu morava em Nesemix. Anotou sem disfarces o meu endereço liboririntático. Depois fingiu anotar em um guardanapo fusco o meu endereço no planeta Terra.
- Liboririntáqueo duoef, não ainda nesta noite, não ainda nesta noite receberás a minha carta. Ao terminar de lê-la terás encontrado o nome da minha mais recente canção.
Em mais de um foroac no que não é fora do comum sobrava a Gbereel Luzas a emoção.