49º DRUNH, TXETAGU / A HOSPEDARIA DAS ALMAS

- Vamos Lety Rasmes me responda. Estando eu na periferia da cidade de Nesemix como faço para chegar à Rua Hesb?
A terveler me olha aguçada. A sua resposta ainda em silêncio desponta em seus olhos. Uma luz percorre o interior da terverel. Os vercois surgem com as lamentações e esperanças contidas nos cantos dos Anjos das Pressagias. Estrondos se propagam por Tolam. A resposta desaparece do olhar da liboririntática que corre à escuridão trazida inesperadamente pelas nuvens a Nesemix. As águas desabam sobre Tolam. Os relâmpagos riscam o céu de ruas.
A corrida de Lety Rasmes à escuridão de nada resolve. Não há negociação. Os sóis desaparecem no meio das nuvens. A tempestade é impiedosa. A terveler volta ao ponto de onde partiu. Nada nos falamos. Meu espírito se aquieta. Sento-me no chão da terverel. Encosto minha cabeça na quina da parede. Fecho os olhos. Deixo-me levar pelos ruídos da chuva. A melancolia aciona os seus motores indefinidos. Sou invadido, sem saber por qual razão, pela sensação de incapacidade. Vidraças se mostram atacadas pelo temporal. Deixo de prestar atenção em Lety Rasmes. Meus pensamentos exploram ansiosos os meus sentimentos. Entristeço-me em poder do dilúvio. No escuro da languidez fico em dúvidas. Não me lembro de já ter presenciado tempestade em Liboririm. Ao mesmo tempo as dúvidas são cravejadas de certezas molhadas dos pés à cabeça. Eu já experimentara inundações em Liboririm? Sim ou não? Acho que sim. Também acho que não. Escondido na escuridade úmida das nuvens perco a noção do tempo liboririntático. Torna-se difícil de compreender e calcular por exemplo o tempo em que me encontro no planeta Liboririm. Estico os braços. Conduzo minhas mãos para fora da terverel. Desejo apanhar as gotas da chuva. Passo as mãos molhadas na nuca. Estou com torcicolo. A posição anormal da minha cabeça e os meus olhos cerrados me fazem sentir a presença de Lety Rasmes. Abro os olhos e volto a prestar atenção na terveler.
Ao contrário da minha repentina introspecção a liboririntática me passa as qualidades do seu estado extroverso. Voltada para fora a terveler se mostra comunicativa.
- Introverso duoef, o escurecimento das nuvens e a precipitação das águas além de serem fenômenos meteorológicos também são vistos em Liboririm como sendo o sacrifício da natureza liboririntática a Eudaips, que primeiro colocou a chuva e depois os seres liboririntáqueos neste planeta para ajudar uns aos outros. Iniciou, duoef, a vossa saída desta escuridão imprevista ao abrir os vossos olhos. Em poucos overebuts Nesemix e Tolam serão outra vez campos livres e seguros onde o duoef possa pousar e permanecer. Lembro-me que a minha resposta à vossa pergunta estava prestes a sair dos meus olhos quando o silêncio foi possuído pelos vercois.
A terveler realmente se lembra da minha pergunta sobre a Rua Hesb. Lembra-se tanto que quase explode de dar risadas. A liboririntáquea risona não para de rir. Algo na minha pergunta a estimula à risadagem. Fico encabulado. Preso entre o levantar-se do chão da terverel e as minhas incertezas. Enquanto Lety Rasmes ri a tempestade se finaliza. Impossível não ver. A gigantesca nuvem cobre Nesemix e Tolam mantendo os sóis escondidos.
- Encalistrado duoef, vossa pergunta ocasionou-me um ataque de risadas. Acho-a engraçada porque a Rua Hesb está muito longe de Tolam, muito distante da terverel. Por mais que eu vos forneça direções a Rua Hesb continuará longínqua... e impossível de se ver.
Compreendi sem medições a distância onde me encontro. Tal compreensão cura o meu torcicolo. Meu pescoço se mexe veloz. Começo a dar risadas cúmplices das risadas de Lety Rasmes. Quanto mais rimos mais eu sinto paz e alegria de estar em Liboririm.
E não é que as risadas fazem os meus cabelos crescerem. De um overebut para outro os cabelos se arrastam pelo chão da terverel.
- Hirsuto duoef, corto os vossos cabelos. Não se preocupe. Sei fazer isto muito bem.
Não entendo por que os meus cabelos crescem quando rio ao lado da terveler. O importante é Lety Rasmes os apara com felicidade. Preciso rir. Preciso cortar os cabelos. Preciso de liberdade.
- Apresentável duoef, os vossos cabelos quando saíres de Tolam não crescerão mais quando por qualquer motivo rires. Enquanto eu os corto deixa-me vos contar uma pequena história. Muito jovem amei um liboririntáqueo. Chamava-se Zenge Uessen. Era muito conhecido aqui em Tolam. Nossos olhos ficavam grandes quando nos encontrávamos. Marcamos o nosso casamento. Os anjos do Vale das Pressagias  foram avisados. Mas de repente assim como a tempestade os meus pais fizeram a Hetrotadem. Pai e mãe hetrotados sem aviso prévio. Senti que não poderia mais me casar com Zenge Uessen, embora o amasse eternamente. Minha decisão não possuía escapatórias. Desapontado e introspectivo o meu jovem amado se misturou às nuvens cinza-escuras da tempestade que logo em seguida se lançou sobre Tolam. A partir deste drunh, Zenge Uessen, falsamente rejeitado por mim, começou a viver entre as nuvens. Chamava-as de hospedaria das almas. Deixou de ser Zenge Uessen e definitivamente passou a ser o driolssnevhax.
A história narrada pela terveler termina. O corte de cabelo igualmente termina.
- Apessoado duoef, estando na periferia da cidade de Nesemix siga pela Ulesboliq, a rua defronte à terverel. É o primeiro passo para se chegar à Rua Hesb, em Nesemix.
Sem me dizer mais nada a terveler caminha sobrepondo-se aos cômodos anexos à terverel.
Não vejo mais Lety Rasmes.

Recomecei a andar. Ainda sob as gigantescas nuvens cinza-escuras meus pés se movimentaram pela Rua Ulesboliq. Apressava-me sem saber a razão. Se houvesse motivo para a pressa só poderia ser o que estava para acontecer.
As nuvens se agitaram em várias direções. Os sóis reapareceram iluminando a paisagem do vento. E foi o vento que trouxe à minha presença uma nuvem que tinha em si a forma do liboririntáqueo que no passado de Tolam fora conhecido como Zenge Uessen, e que por amar o possível mais do que poderia se esquecer do complexo impossível voltava ao lugar de onde saíra. Era conhecido agora, bem me dissera Lety Rasmes, como o driolssnevhax.
- Pemanente duoef, sou o driolssnevhax! O vento vos levará de volta a Nesemix. O trajeto é longo. O vento é a vossa nave porque a distância que o duoef percorrerá até a Rua Hesb se finalizará somente ao raiar do drunh que já se alinha à hospedaria das almas, nuvens do futuro.