As noites do Planalto dos Metais são esplêndidas. Os reluzentes contornos das árvores metalizadas e clorofiladas proporcionam espetáculos inestimáveis, inesquecíveis. A claridade cor de prata se manisfestava nos campos, florestas e caminhos. As estrelas, e são tantas, parecem bordados divinos no espaço liboririntático ausente de lua.
Eu pedia com instância à minha memória que registrasse em seus arquivos aquelas imagens maravilhosas e que eternamente guardasse-as. Faltava-me aparelho fotográfico, máquina de filmar. Fazia anotações nas páginas de um caderno guardado dentro da minha mochila. Não me desgrudava dele nem dela. Eram anotações na maioria das vezes descritivas. Não sabia bem como defini-las. Palavras reunidas com características de poemas. Palavras ligadas a distintivos prosaicos. O importante era escrevê-las colocando-me no tempo presente. Curiosamente ao lê-las e relê-las sentia-me no tempo futuro. Quando eu buscava o tempo no planeta Terra o encontrava em passos dúbios, recordações trêmulas e desfocadas. Era como se as minhas memórias terrenas estivessem se estagnando sem lentidão. Com o passar do tempo liboririntático uma nova memória começou a viver em outro departamento do meu cérebro. O verdadeiro era que eu me entendia e me sentia bem. Dispunha de consciência da fé na vida.
Levantei-me do bloco de metal produzido pelos agentes naturais liboririntáticos. Guardei o caderno na mochila. Continuei a caminhar. A noite se diluía. Os passos se afiguravam em minha mente: sílabas métricas que rimavam com as últimas palavras proferidas por Haragna Clijhna. E foi com os pensamentos na agnyl que presenciei os sóis entrarem nas nuvens do fim da noite. Era o novo drunh alcançando o seu lugar. Sem tempo de espera o drunh guiou o calor até a estrada Belymzwa. Honrando os dizeres de Haragna Clijhna a temperatura subiu mais ainda. Suores começaram a atingir o movimento de vinda do drunh. Tratei de descobrir as sombras. Encontrei algumas. Caminhei sobre e dentro delas protegendo-me dos intensos raios solares.
Nesemix não dava as caras. Depois da reta uma curva. Dei crédito, tive como certo que ao término da curva algo aconteceria. Quem sabe Nesemix se projetaria na paisagem derrubando a voz viva, bem-humorada e profética de Haragna Clijhna em minha memória? Engano.
Não ocorreu com o termo da curva a cidade de Nesemix. A estrada Belymzwa não teria fim?
Ouvi um estrépido, um ruído forte de asas se movendo. Olhei na direção dos sóis. As sombras aladas se deslocaram. Os suores me banhavam. Vi o pássaro sobrevoar a minha cabeça. Gritei bastante.
- Pusagueb! Sou o duoef! Estou aqui! Sou o duoef! Pusagueb! Estou aqui!
Os gritos continham espantos. Pusagueb, liboririntático pássaro fantástico. Seus cantos fizeram com que as matas metalizadas e clorofiladas invadissem a estrada Belymzwa. Metido no meio de tantas árvores perdi o contato visual com os sóis. O calor ainda presente. Os suores mais amenos. Escutei barulho de passos. Provavelmente seguiam para longe de onde eu estava. Os enganos me faziam perder o rumo.
- Memorizado duoef, vire-se devagar. Sou Pieb Furuc, o ctorpemp. A agnyl Haragna Clijhna vos informou que ao passar o pusagueb sobre a vossa cabeça o duoef me encontraria.
Virei-me rápido. Pieb Furuc era um liboririntáqueo que usava uma roupa preta confeccionada com udvuly. Por achar que a vestimenta não combinava com a alta temperatura que estava fazendo tive vontade de rir. Seus pés ao inverso com os calcanhares para diante e os dedos para trás me causaram medo.
- Fotográfico duoef, creia que o vosso medo me faz rir. Vossos risos silenciosos fazem-me achar o duoef engraçado. Acalme-se! Não vos açoitarei! Não vos machucarei! E de maneira nenhuma vos trarei a Hetrotadem.
O pássaro sumiu do céu. Repentino olhei as palmas das minhas mãos. Penas do pusagueb fincadas entre os dedos.
- Embrenhado duoef, dê-me os penachos. O pusagueb vos tornou o transportador do seu oferecimento. As penas em vossas mãos são a oferenda do pássaro ao meu ser. A volátil criatura tem como verdade que me presenteando com algumas das suas penas não farei mal a ela, não a açoitarei, não a machucarei, não trarei a Hetrotadem nem a farei perder o rumo. Engano?
Passei-lhe os penachos. Pieb Furuc os enfiou na sua tacicriz e os engoliu.
Enquanto a expectativa de que algo poderia acontecer ao ctorpemp por ter ingerido as penas do pássaro os raios solares descobriram vãos entre as árvores e se jogaram ardentes no meu corpo. Os suores se intensificaram. Pieb Furuc não transpirava. Em silêncio remexeu o amiudado corpo trazendo os enormes pés para frente. Ao executar o giro ficou de costas. Não pude mais ver os seus calcanhares. Os braços do ctorpemp se esticaram até as árvores. As forças mental e física do liboririntático aborígene retiraram todas as árvores invasoras da estrada Belymzwa. Com a pista livre retomei a andança.
- Retomado duoef, atenda os desejos dos vossos pés.
Não foi Pieb Furuc que se envolveu com o próximo horizonte. Sem parar de andar contei de 1 até 5 e cheguei à curva onde a estrada Belymzwa se finda. Entrei nos princípios da cidade de Nesemix.
Os sóis se descreveram com exatidão à minha memória. Não desistiram tão cedo dos suores, das anotações. O próximo drunh ainda levaria tempo para voltar à sua casa.
