45º DRUNH, DOSUGNO / IMPLACÁVEL SONHO DE UMA GUERRA TOLA

Defronte da caverna reluzente Anuj Liars me sinalizou. Havíamos chegado à moradia do qeroierl. A brisa inesperada mexeu os meus cabelos. Afugentei da minha cabeça a vontade que tive de latir. Certo é que quase comecei a dar latidos sem saber com exatidão o motivo. Devo ter pensado na maneira que os hooohogdohs reagem quando percebem alguém chegando ou quando descobrem alguma coisa anormal nos terrenos do cotidiano. Concentrei-me nos próximos passos de Anuj Liars e não soltei os latidos. Também não grunhi, não uivei, não miei e nem falei. O silêncio me reequilibrou. Pelos olhares da sdaryalind me chegou a compreensão de que eu deveria permanecer naquela latitude e longitude enquanto Anuj Liars fosse materializar o seu encontro com Vlamua Trien.
A sdaryalind outra vez me olhou. Percebi que aquele olhar em forma de bis continha a sua despedida. Fechei os meus olhos como se fechasse janelas com o intuito de fortalecer e promover o silêncio. Ao abri-los não enxerguei mais a apreciadora de caminhadas geradas no ar no mesmo tempo em que foram criados os passos.
Talvez a minha espera por Vlamua Trien demorasse mais do que eu poderia presumir. Sentei-me em uma pedra retangular que a princípio pensei ser uma lolesboquia. Não era. Era uma pedra de tonalidade escura, extremamente rústica, formada pelos movimentos tectônicos da crosta liboririntática. Aos poucos fui me espichando fazendo da pedra um leito. Ao me alongar trouxe o relaxamento. A sensação de repouso foi instantânea. Não me senti impróprio à véspera do comparecimento ao encontro com o qeroierl. Meu desleixo era aparente. Algo me dizia que lá fora, onde Redag Cernka é uma deslumbrante paisagem, era noite cheia de estrelas. Quase incorpóreo cobriu-me um sono inquebrantável.
Em minha mente se hospedaram sequências fenomenais de batalhas ferozes entre qeroierls liboririntáticos e qeroierls guywalamios. Naves espaciais se enfrentavam entre os brilhos estrelares ao passo que no solo do meu sonho as infantarias pesadas dos planetas Liboririm e Guywalam se atacavam de frente produzindo pântanos de sangue. Sonho ou realidade foram por essas margens psíquicas ou atos que tomei conhecimento que a cor do líquido que transita no interior do corpo dos liboririntáqueos é alaranjado, amarelo-avermelhado. Já a cor do "sangue" que transita no interior do corpo dos guywalamios é o preto, a cor mais sombria de todas as cores. Corpos e espaçonaves tombavam sobre a Esfera Escura. Planetas e armas em uma guerra tola. A pedra retangular na qual eu me deitara era o meu escudo e abrigo. Os qeroierls liboririntáqueos defendiam a Esfera Escura. Vi com proeminências um corajoso qeroierl de Liboririm lutar contra os inimigos e tombar riscando o chão com as pontas dos seus idosos dedos. Os ambiciosos e beligerantes qeroierls guywalamios eram os invasores. Doentes, feridos e hetrotados de ambos os planetas passavam sob o meu corpo suspenso. Uma grande explosão aconteceu entre o céu e o chão. Faíscas nucleares espalharam radiação ocasionando queimaduras na população liboririntática. Redag Cernka tremendo afigurou-se na minha mente. O sonho que sonhava era concreto e puro material bélico.
De repente procedente das nuvens ouvi o som de uma trombeta misturado a rumores contínuos e indefinidos. Coisas e seres tinham a aparência da partida. Uma mancha esbranquiçada se apossou do ambiente cavernal. O sol que brilhava no sonho se escureceu e os qeroierls liboririntáqueos e guywalamios começaram a voar verticalmente. Desapareceram.
- Cavernoso duoef, acordai!
A voz nada cavalheiresca me fez saltar da pedra num ímpeto. Esfreguei as mãos nos meus olhos. Queria que a imagem do acordador saísse do assombramento, livrasse-me do temor e se resultasse nítida.
- Receoso duoef, sou o qeroierl Vlamua Trien, pertencente ao clã Trien. Habito temporário nesta caverna de Redag Cernka. Anuj Liars me falou do duoef. Fui informado que o duoef sabia que a sdaryalind depois de me encontrar não permaneceria mais em vossa companhia. Venha duoef! Entre em minha casa de pedra e me relate o que se lembra do vosso sonho armipotente.
Nada mais havia na casa de Vlamua Trien do que pedras, espadas, fogos, duas xícaras, sacos contendo becfta, uma trombeta e uma porta de metal que por momentos me parecia estar suspensa. Contei-lhe o meu sonho. O qeroierl me ouviu em silêncio. Em certas partes do relato os seus olhos escondidos em sua pele se mostraram brilhantes contracenando com os seus cabelos amarelos que transitavam nas possibilidades de serem elmo, capacete ou aura.
Assim que finalizei a narrativa do sonho, Vlamua Trien me ofereceu uma xícara com uma bebida quente: becfta. 
- Fomentado duoef, o vosso sonho se refere à Nacse Uyd Zud Gon, um devastador conflito bélico que em liboririntáticos tempos remotos afastados no espaço aconteceu entre Liboririm e o planeta Guywalam. O vosso sonho vos levou muito próximo a um liboririntáqueo qeroierl já hetrotado cujo nome é Miteug Trien. Sou descendente de Miteug Trien.
Insisti em ficar silencioso. Vivas ainda eram as imagens do qeroierl Miteug Trien nos olhos de Vlamua Trien e na minha memória onírica de grande intensidade.
- Vívido duoef, é desejo de Eudaips que eu viaje por todo o planeta para protegê-lo de malignas criaturas. Iremos embora de Redag Cernka ao surgir do novo drunh. Eu continuarei a minha jornada. Ao duoef mostrarei a estrada que vos conduzirá de volta a Nesemix.
A noite passou no tempo ideal sem precocidades e sem antecipar ou retardar os sóis.
Depois de bebermos mais becfta, Vlamua Trien diante da porta que me parecia às vezes suspensa me indicou usando gestos o caminho que eu deveria seguir. Do outro lado da porta uma estrada se apresentou sem sonhos aos meus olhos. Não havia mais tempo em Redag Cernka para Vlamua Trien. O qeroierl partiria para um outro lugar. Disse-me antes do adeus:
- Guerreador duoef, siga a estrada Belymzwa. Antes de Nesemix haverá tempo ainda à disposição do vosso alcance. Algum fim em um drunh qualquer quem sabe o duoef combaterá. Adeus.
O qeroierl sumiu.
Vivendo em guerras visíveis e invisíveis, ambientes carregados de saturações maldosas Vlamua Trien me ofereceu a paz.
- Adeus Vlamua Trien. Vi em você virtudes e bondades. -falei ou pensei prestando a atenção num ponto preto que se movimentava no horizonte.
Confiando em minha própria força iniciei a caminhada na estrada Belymzwa. Os sóis iluminavam com firmeza a coragem. Pensei em bifes de lentilha. Achei que tais bifes combinariam com becfta.
Overebuts depois o ponto preto que se movimentava no horizonte e que a bem da verdade era azul me encontrou.
Na belíssima Belymzwa fiquei diante de uma klywba, de Nal Draxepen, o klyweb, e de um hooohogdoh.