40º DRUNH, TXETAGU / EM BUSCA DA JANELA PARALELA

Ao regressar das profunduras do Rio Ojand permaneci em silêncio sobre o piso transparente que me acatava e me transmitia a segurança de uma hospitalidade nascida a milhares de konasts atrás. O piso pertencia ao templo da Seita Dew'Wed. Alimentei com força o contato dos meus pés com a transparência do chão. Quanto mais os pés se certificavam da realidade estável mais a transparência se opacificava. Eu considerava esta opacificação um fato natural. O meu emocional estava acessível. Emocionei-me com a esplendidez do templo. A grandeza daquele lugar misterioso e respeitável me tocava pela simplicidade. Pode parecer estranho e impossível o fato de um local simples ser também esplendoroso, mas era exatamente o que eu achava e sentia. Tentei balbuciar algumas palavras quando o chão completou a sua planificação e se fez compacto, sólido. Não consegui articular nenhuma palavra. Somente as lágrimas apareceram. Com a presença das lágrimas a minha mente se manifestou no universo liboririntático. E como se eu, o homem, fosse por meio de Eudaips a mãe, energia, concentrei-me no Rio Ojand. Ergui as minhas vibrações. Consegui me aproximar do fato de ser o Ojand o princípio liboririntático de um mundo positivo.
De repente Lozay Raco, o padxwep, surgiu trajando uma roupa com características de santidade pessoal. Lembrei-me que em Liboririm não existem santos.
- Padxwep, sua vestimenta possui características angelicais...
- Lembrado duoef, em transformação constante estão a mente e a matéria. Vossa boa fé o trouxe à Dew'Wed. Nós, os liboririntáqueos, desconhecemos conflitos bélicos, preconceitos raciais e religiosos, violências. Não nos consideramos seres perfeitos. Temos as nossas falhas. Vivemos em Liboririm repletos de altruísmos, mas também nos cercam o profano e o obsceno. Há algo que necessito dizer e quero vos falar com entusiasmo e com afã. Quero que o duoef saiba que nos 9 hokils da Dew'Wed há as hawis e que no interior das hawis existem as halbans. São nas halbans que os padxweps da Dew'Wed se reúnem. Acrescento ao duoef que em um dos hokils ou hawis ou halbans tem existência real uma janela chamada de Janela Paralela. Foi escrito por Eudaips que o duoef deverá procurar por esta janela e achá-la antes que o abatxegu, o novo drunh, amanheça. Deverá descobri-la mesmo se a procura causar dores, prazeres, tristezas, alegrias.
A sabedoria de Eudaips e o conhecimento de Lozay Raco me translumbravam por encantamento. Bastou o padxwep proferir Janela Paralela que as palavras retornaram e enxugaram as lágrimas das minhas lembranças. Não me esqueci dos dizeres do místico liboririntáqueo. Palavras que se juntaram e edificaram uma seita e pregação.
- Eu nunca achei o discurso de Lozay Raco um discurso maçante. -afirmei a mim mesmo na intenção de não deixar o padxwep ir embora.
- Sacro duoef do coração humano necessito me retirar. Estudarei, trabalharei e meditarei em uma das halbans. O duoef tem permissão para livremente caminhar nas dependências da Seita Dew'Wed. Afinal foi dada a vós a incumbência de ir em busca da Janela Paralela.
Eu não desconhecia que o motivo principal da existência da Seita Dew'Wed era a adoração a Eudaips. Ao iniciar a busca pela Janela Paralela revelei a Eudaips estar com Ele no meu coração profano e na minha mente obscena. O silêncio feriu os meus pensamentos. O vento invadiu os pátios da Dew'Wed. A solidão me retirou do centro do templo. Levou-me a caminhar por todos os ângulos dos hokils, hawis e halbans. Lozay Raco havia mesmo ido embora e nunca mais senti a sua umidade, energia e os seus aromas. Busquei a Janela Paralela feito um demente de mãos dadas com a poesia. Passei por paisagens áridas, majestosas, descoloridas, ermas e inexistentes.
Como explicar que todos os movimentos íntimos que eu empreendi na busca pela Janela Paralela não duraram mais do que um drunh?
Lozay Raco sempre esteve confiante e certo:
- Há algo que necessito dizer e quero vos falar com entusiasmo e com afã... Foi escrito por Eudaips que o duoef deverá procurar esta janela e achá-la antes que o abatxegu, o novo drunh, amanheça...
Prestes a duvidar da minha capacidade de cumprir o esperado desci um escadório espiralado em um dos holkis. Persegui ruídos na escuridão. Devo ter cruzado as formas de uma hawi porque meus dedos tatearam com cautela um corpo frio que denominei de porta. E foi no meio desta passagem espelhada em profundos silêncios que os medos tentaram roubar o meu coração. Apeguei-me à minha humanidade. Retirei da mente conhecimentos do que já havia me acontecido na Terra e em Liboririm. Veio-me a sensação de que a procura pela Janela Paralela em algum tempo eu já a fizera. Então gritei para corroer o medo. Procurei pelo meu corpo e o equilíbrio clareou a passagem. Meu coração continuava comigo.
A claridade desenhou no piso um caminho prefulgente. Com os meus pés nas linhas e nos brilhos do chão encontrei em toda a sua extensão a Janela Paralela.
Entretanto eu não estava sozinho. Ao lado da janela uma liboririntáquea me olhava e não parava de se mover descrevendo curvas.
- Buscador duoef, sou Sda Nakabyn, a dlannyrya.