Otnap Xepd não respondeu a pergunta sobre o motivo pelo qual os seus quadros expostos eram chamados de últimos trabalhos. Terminei de beber a água contida na garrafa revestida de gelo. A minha sede estava saciada. Levantei-me do assento. A pedido do pralat sitscat nos afastamos do quadro O QUE HÁ DE VIR. Durante grande parte do inquagu ficamos naquela galeria de arte. Conversamos sobre as estéticas das vivas e multicoloridas imagens que habitavam Liboririm. Aproximamo-nos da ideia de que tais imagens embora fizessem parte do cotidiano liboririntático não eram visíveis sem a vestimenta da arte. Não sentíamos fome. A sede recebia de tempos em tempos garrafas revestidas de gelo. As garrafas nos chegavam por esteiras refrigeradas que corriam na mesma direção de nossas sombras. O drunh estava adiantado quando entramos em um setor da galeria de arte que eu ainda não havia visitado. Passamos diante de um impressionante quadro que me fez parar por alguns overebuts diante das minhas memórias e dos meus desejos. O extenso quadro funcionava no ambiente do salão como se fosse um altar. Mostrava o Rio Ojand, animais que eu desconhecia os nomes e uma rede repleta de peixes. Ao redor deste cenário os semblantes desenhados e pintados dos 38 liboririntáqueos com os quais eu mantivera contato desde que cheguei ao planeta Liboririm. Fiquei totalmente fascinado com aquelas imagens. Não sei se era eu quem parara no tempo ou se era o tempo que se fixara somente naquele quadro. Quando o meu fascínio se acostumou com o tempo liboririntático o pralat sitscat me informou que era o momento dele se retirar da galeria de arte. E foi isto mesmo o que aconteceu. Otnap Xepd veio para me mostrar a abundância da vida em sua arte. Agora, sem despedidas, pânicos, batimentos cardíacos acelerados o pralat sitscat foi embora. Nunca fiquei sabendo o motivo de os quadros da sua exposição serem chamados de últimos trabalhos e também nada soube sobre o caminho que tomara.
O meu caminho também me buscava. Procurei pelos quadros nas paredes da galeria. Elas estavam brancas de tanta invisibilidade e os meus pés se coloriam de direções parecidas com a terra e estrelas. Prossegui com os movimentos que me faziam sair da galeria de arte. Avistei a porta de saída. Vivia o que a exposição de Otnap Xped fizera comigo. Sentia-me renovado em relação às expectativas. Ir adiante se constituía na minha maior esperança. Novo ou velho eu não hesitava em martelar, desenhar ou até mesmo esculpir sentidos e significados. A vida ainda me fazia viver, A porta de saída não se localizava perto da porta de entrada. Cada vez mais próxima e sólida a saída não me faria ir embora do mesmo jeito que a esperança não me faria esperar.
Tocou-me no ombro uma mão liboririntáquea. Disse-me aquele ser úmido, energizante e com cheiro de tinta:
- Fraternal duoef, os quadros de Otnap Xped ainda me transbordam. Despeço-me da exposição como se eu fosse, por divina obra de Eudaips, um anjo.
- Então sairemos juntos. Lá está a saída. Ela não nos desperdiçará.
- Afetuoso duoef, diminua o tempo dos seus passos e não se esqueça de abrir os seus pensamentos enquanto caminha. Agora que passamos pela porta de saída da galeria de arte não a deixaremos aberta por muito tempo. Ao fechá-la verificaremos se a porta não ficou entreaberta. As luzes do interior da galeria já se apagaram. Veja como as ruas de Nesemix estão claras. Os sóis comentam a realidade.
Os sentidos, os significados e até as curiosidades agiam ao meu redor. Os resultados desta ação se faziam sentir na simpatia esotérica que aquele ser úmido, energizante e com cheiro de tinta me transmitia.
- Simpatista duoef, meu nome é Lozay Raco. Sou conhecedor dos princípios e dogmas da seita Dew'Wed. Sou um padxwep.
Reduzi o tempo dos meus passos e não me esqueci de abrir os pensamentos à medida que caminhávamos nas ruas ainda ensolaradas de Nesemix. Durante o restante do drunh Lozay Raco me falou das peculiaridades da seita Dew'Wed. Mesmo sob os sóis o padxwep se mantinha úmido. A notável energia das suas ações não se definhava. O seu cheiro no entanto não era mais de tinta.
- Noviço duoef, meus aromas são variados. Fazem parte dos ambientes que alcanço. Agora o cheiro que está em meu corpo vem das velas, dos espelhos e da noite do Planalto dos Metais. Lá está a casa principal da seita Dew'Wed. Gostaria que o duoef a conhecesse...
Explícito aceitei o convite de Lozay Raco sem saber que o edifício que se deixava entrever se localizava nas margens mais distantes do Rio Ojand. Sabia o meu misticismo que os olhos se encontram entre os órgãos mais usados do corpo. E eu não tinha dúvidas de que a divina obra de Eudaips me faria entrar nos portais e umbrais da Dew'Wed feito um anjo de alma humana e pele liboririntática. Lozay Raco segurou em minhas mãos, partimos. Transportou-me à seita. Quando chegamos ao Rio Ojand vi em suas margens longínquas os animais feitos de carne e ossos. Ao ser imergido vi os peixes nas profunduras do rio. No centro do templo da Dew'Wed o Rio Ojand e Nesemix me pareceram o batismo do meu único início.
