30º DRUNH, INQUAGU / SAPATARIA DLEMOLEBAL

Certo de que a reforma da minha casa havia atingido o ponto de conclusão afastei-me do piso gelado da TAREORA PL.470/NE.
Reencontrei as ruas de Nesemix no final do meu percurso em um corredor silencioso cuja temperatura a cada passo empreendido ganhava tantos calores que foi necessário que eu corresse para o mais do que depressa e atravessasse a saída da espaçonave.
Meus pés descalços se pelavam como se o chão de Nesemix fosse um fogareiro de ferro. Ao ver a cidade outra vez e pisar em suas ruas depois do desaparecimento dos meus tênis constatei que durante a minha estadia em Butrew eu sentira saudades da casa liboririntática e da cidade na qual ela se localizava.
Envoltos em Nesemix meus pés soltavam fumaças. Por mais que eu procurasse me espantar com a paisagem fumegante nada além de confiança me invadia. O local onde me achava não me causava estranheza embora fosse uma parte da cidade que eu desconhecia completamente. Não me fiz ir para as partes iguais. De certa forma estar separado do conhecível  me jogava nos diferentes sentidos das fumaças que botavam os meus pés no planeta Liboririm.
Entrei em uma viela rente a uma casa branca e cinza. A noite e o dia ainda duelavam pelo amor temporário das claridades. O clima me pareceu ameno. Ainda assim minha imaginação se deixou levar pelos vazios dos sons. Ruídos, músicas e silêncios mexidos pelo que se assemelhava a um pântano diante dos meus olhos. Atraído pelas águas estagnadas aproximei-me cada vez mais da porta da casa branca e cinza. Quando as minhas mãos tocaram a maçaneta da porta as fumaças saídas dos meus pés se misturaram às fumaças procedentes do brejo.
Girei a maçaneta. Entrei na casa. Sentei-me na poltrona encardida alojada na recepção da sala. Algo calcetado, mescla de causas alegres e tristes, manifestou-se dentro de mim cruzando raças com efeitos reais. Por intermédio dos sentidos a parte mais superficial do amor pelas claridades separou-se da parte mais profunda do amor pelas claridades. Meus sentimentos penetraram nas efervescências. Nada em Liboririm durava apenas um drunh. Mesmo com a existência da morte na vida liboririntática o efêmero era um adjetivo inexistente nos meus pensamentos.
A poltrona encardida se deslocou. Arrastou-se ao centro da sala. Foi nesse momento, instante de algo calcetado, mescla de causas alegres e tristes, que eu conheci Sios Ujerte, o quavanju.
- Descalçado duoef, bem-vindo à Sapataria Dlemolebal. Sou o proprietário, o provedor, o vendedor. Meu nome é Sios Ujerte, o quavanju. O motivo da sua vinda à minha sapataria é realizar a escolha dos sapatos que o duoef usará no baile.
- Baile?!
- Apropriado duoef, antes que retornai à vossa casa, aliás plenamente reformada, ireis ao Baile da Celebração do Princípio da Finitude Liboririntática que denominamos simplesmente de Alelab.
- Mas quavanju eu acabei de regressar de Butrew e foi uma viagem cansativa. -tentei sem estar sentindo um pingo de cansaço me distanciar do tal Alelab.
Sios Ujerte arregalou os olhos. Olhou-me em um espelho esticado na última parede da sala e gargalhou prazenteiro ao me ver por completo da cabeça aos pés. Esse espelho refletia brilhos estrelares, raios solares e era a porta de entrada para um outro aposento da sapataria.
- Incansável duoef, deixe a preguiça do lado de fora e vá conhecer as prateleiras onde deposito os sapatos terráqueos. Não demoreis a fazer a vossa escolha dos sapatos que te conduzirão à grande sala do Clube Vhiszer.
A poltrona encardida moveu-se pequena de um para outro lado como se informasse que eu deveria me levantar. E sem enfiar meias pelo avesso nos meus pés passei por dentro do espelho. Com tantas prateleiras à disposição devo ter demorado para fazer a escolha do par de sapatos que usaria no avançado das danças do Alelab.
Feita a escolha retornei à Sios Ujerte. Fiquei admirado com a Sapataria Dlemolebal. Ela perdera a tonalidade cinzenta. O branco se alumiou de tal forma que faíscas penetraram nos meus olhos fechando-os. Ao abri-los em seguida enxerguei no meu corpo a roupa apropriada à minha ida ao Clube Vhiszer. Pasmei-me com o refinamento das longas abas do fraque. 
- Requintado duoef, queria eu te fazer uma surpresa e consegui. Só agora te informo que a Dlemolebal também trabalha com roupas para diversas ocasiões. Veja e sinta como o fraque ficou bem ajustado ao vosso tronco.
O pasmo foi tão real que voltei a me sentar na poltrona que agora liboririntaticamente estava desencardida.
O quavanju se agachou diante dos meus pés. Com jeito, delicadeza e paciência calçou-me os sapatos eleitos.
- Crescente duoef, os sapatos ficaram perfeitos. Agora levantai-vos e esforçai-vos em entrar nas dependências do Clube Vhiszer quando a noite se abraçar ao amor eterno das claridades pelas estrelas.