29º DRUNH, TRAREGU / SINTO OS MEUS PÉS NO FUNDO DO POÇO

O novo drunh aos poucos veio do fundo do espaço para a superfície como se a emersão acontecesse pelas escotilhas da TAREORA PL.470/NE.
Assim que saí da Rexatrex Woset o mormaço se apresentou às sensações. Perdi subitamente a sincronia com o meio ambiente. Minhas pernas se tornaram inquietas e os meus olhos se tornaram pesados. Adormeci sem desejar o sono.
As escotilhas da espaçonave me propunham o acordar. O nome correto, claro, daquelas aberturas não poderia ser escotilha. A TAREORA PL.470/NE avançava em rodopios pelo espaço liboririntático. E por lá não havia águas por onde a nave pudesse navegar em caminhos de volta a Nesemix.
Agia como se estivesse dormido ao lado de distúrbios do sono. Manifestavam-se alterações de humor. Minha memória parecia tremer.
Ao ver as claridades dos sóis agarrei-me ao ânimo. Ergui-me da prateleira metálica onde dormira. A cama se comportava como se estivesse dentro de um armário ou estante. Acordei sem ter sede, fome. Tudo ao meu redor esboçava-se em estar no devido lugar.
Uma voz vibrante e laçadora se fez ouvir. A voz cheia pertencia a Ny Eait.
- Avivado duoef, que vós tenhais um excelente drunh. Caminhai vós pela nave até a primeira entrada à esquerda e na boca entrai. Vós não demorareis a chegar a Nesemix. É necessário que desembocais na porta a qual me refiro.
Movi as pernas. Caminhei entre as estrelas que brotavam no piso da embarcação. Inúmeros astros luminosos que a partir da minha esbarrada sem querer em uma das quinas de um objeto fossilizado parecido com uma mesa começaram a fazer sair em jorro um líquido pelas suas extremidades aguçadas. Este líquido nada mais era do que óxido de di-hidrogênio: água. E a água tomou conta do percurso até a entrada à esquerda formando um poço. Principiei-me a suar. Se foi tristeza que me fez verter lágrimas não sei asseverar. A saliva movia a minha língua. Cuspi. Molhei-me com a minha própria urina. As matérias líquidas do meu organismo me confidenciavam com pretensa tranquilidade o equilíbrio.
Neste meio tempo irritou-me a incerteza. Impressionava-me a dúvida. Não sabia se o poço que se criara no meu caminho era realidade ou se era um efeito colateral da minha permanência em Liboririm ou em mim mesmo.
- Submerso duoef, não se sinta perturbado, desarranjado. Valorize-se! Cultive o seu amor-próprio. Quem com Eudaips caminha nada lhe falta! -disse-me o comandante e piloto da espaçonave com a voz longínqua.
Por se apresentar tão remota suspeitei que não ouviria mais aquela voz carregada de determinações e autoestima.
Por fim as estrelas se misturaram aos sóis e quando virei-me à esquerda deparei com a primeira entrada. Entrei na boca. Recepcionou-me um ente real que não tirou os seus olhares dos meus pés calçados.
Enquanto permaneci ao lado de Alme Ineaduic em nenhum momento consegui chegar à conclusão sobre o seu sexo. Suas características distintivas por mais absurdo que pareça não me conferiam a capacidade de identificá-lo como macho ou fêmea. Às vezes eu optava em achar que Alme Ineaduic era um ser masculino. Em outros instantes tinha a convicção da sua feminilidade. Visitava-me também a ideia de que o enigmático tripulante da nave era um ser hermafrodito, andrógino, bissexual e se fosse ele uma orquídea seria um ginândrico.
- Jovem duoef, estais à frente de um ser vocacional. Não te implicarei de exigências.
Por um momento tirou os seus olhos dos meus tênis. Seus olhares me banharam afetuosos. Dirigiu-me um convite, um pedido decisivo.
- Lutador duoef, venha a mim. Retirai vossos sapatos de lona. Vós os colocareis sobre a minha tacicriz enquanto eu digo com insistência que é exatamente isso o que quero que façais.
Ao fazer realidade a solicitação de Alme Ineaduic meus dedos das mãos tocaram em seu rosto quando os tênis se equilibraram na tacicriz. A impressão que chegou a mim por meio desse toque foi algo sensacional. Causou-me o toque a sensação de estar na parte externa da espaçonave em contato com a natureza dos ventos procedentes das alturas e das profunduras do sistema eco vital liboririntático. Foi como se eu aprendesse a dançar ritmos sublimes em um salão infinito.
A função de Alme Ineaduic era devorar os meus tênis evitando assim que os meus pés fizessem o papel de condutor de arriscadas sujeiras que pudessem contaminar o meu lar (santuário?) em Nesemix. Respeito, relaxamento, descanso, maturidade? O certo foi que Alme Ineaduic seguiu à risca as suas determinações mastigando os tênis e levando-os para dentro do que chamei de fora do comum.
E eu estrangeiro do lado de fora tão próximo de coisas novas não entendia de maneira cabal a razão daquelas estranhas mastigações.
Depois que os sapatos de lona desapareceram sugados pela tacicriz de Alme Ineaduic senti por intermédio dos meus pés descalços a temperatura da minha saída do fundo do poço estelar. E esta saída pareceu-me um oceano que arejou e iluminou a chegada da TAREORA PL.470/NE a Nesemix.