A região de Butrew onde eu havia chegado, depois que me retirei da casa do baab Xezco Govird, possuía vários degraus incrustados em figuras geométricas. À medida em que os meus olhos iam perdendo a ardência cada vez mais a cidade a mim se mostrava. E embora eu não gozasse do privilégio de ver e ouvir os vários liboririntáqueos que transitavam ao meu lado não me sentia de modo algum receoso em ser atropelado pela solidão mesmo em uma cidade considerada pacata como Butrew.
Percorri admirado aqueles degraus com os meus olhos focados no chão. Degraus que em vários momentos se exibiam brancos e com tamanha transparência e cristalinidade que me foi possível divisar no fundo dos pensamentos arcabouços, estruturas ósseas liboririntáticas. Distinguia os esqueletos deitados em retângulos parecidos com banheiras ovais. Não tardou a claridade me trazer pensamentos fantásticos, mágicos, enigmáticos.
Um destes pensamentos me fez, como terráqueo e cristão que sou, a bater na mesma tecla de que ninguém nasce por acaso, por descuido. Acredito que cada ser humano ao nascer traz consigo uma missão para desempenhar no planeta Terra. Mas o espetacular desta premissa era o fato de ela ser um axioma em contato direto com outra civilização, com outro planeta tão distante da Terra e tão igual ao mundo em que nascemos, vivemos e morremos. Perguntei-me tocando na pele liboririntática que encobria os meus olhos humanos:
- Se nasci sem acasos, sem descuidos e se tenho uma missão a cumprir na Terra por qual motivo estou no planeta Liboririm?
No lugar das respostas vieram martírios. Corri desenfreado sobre os degraus até atingir uma plataforma esverdeada. Ao parar de correr senti que o meu coração fora arrancado pelas costas durante os pousos dos meus olhares naqueles ossos de liboririntáqueos desencarnados.
Igual ou diferente de mim a resistente claridade não se abalou com a transição dos ventos no complexo solar de Liboririm. Mais controlado emocionalmente continuei a caminhar sobre os degraus. Os ventos frios já estavam distantes de Butrew quando encontrei uma Cruz de Cramr que me pareceu ter o meu tamanho. Busquei emoções e razões que me unissem àquela cruz. Toquei-a. Meu corpo rodopiou sobre a plataforma esverdeada. Com um salto galguei a claridade apalpando as ranhuras alongadas escavadas no objeto cruciforme pelos ventos.
Claramente eu voava. E foi voando sobre os degraus que eu enxerguei ao longe o que eu havia visto de perto: o muro.
Voei até ao outro lado do infindo muro. Retornei ao solo de Butrew parelho à parte externa do interminável muro. A força e a velocidade do pouso me jogaram nas sombras produzidas pelas nuvens. Ao me levantar transpirei receios de que a solidão me atropelara. Percorri as sombras admirando as nuvens.
E sob as nuvens encontrei o fabricante e vendedor de quinquilharias e clacachataucos. Atraído pelo cheiro da guloseima me aproximei de Deron Elpe.
No limite de um foroac o ambulante liboririntáqueo me disse:
- Alumiado duoef, sei que tu quererás saber sobre as ossaturas que vistes no interior dos degraus. Primeiro use os teus olhos para clarear este muro que ao contrário do que pensas tem fim.
Movi o pescoço. O muro parecia me invadir de perguntas. Fitei-o me declarando um abduzido sem imaginação cujo interesse era entender somente o infinitivo das coisas que realmente existem. Eu não possuía respostas. Mesmo assim meus olhos encontraram o fim do muro.
- Alegro-me ao sentir os cheiros deliciosos dos seus clacachataucos...
- Olhirridente duoef, que tu saibas que a função deste muro é de proteger, amparar, resguardar e não separar os vivos dos mortos nem a Hetrotadem da Vida. Os degraus revestidos de figuras geométricas por onde andastes são os stocumuos do Rimeceiro de Butrew. Os meus clacachataucos exalam cheiros deliciosos porque além de serem fonte de energia são fabricados com a legítima essência de cadoamenua. E já deve ser do teu conhecimento que Butrew é a cidade do Planalto dos Metais mais próxima da Esfera Escura. Se tu continuares a caminhar depois da conclusão do muro encontrarás de um lado o Glazevew, estreito que lhe dará acesso à Esfera Escura, e à cidade de Gnegof, onde nasci. E no lado oposto verás no ponto extremo de Butrew a Rexatrex Woset.
Tantas coisas e lugares para descobrir e conhecer em Liboririm... A minha intenção nos meus últimos momentos em Butrew não era prosseguir na andança até a Esfera Escura.
- Manifesto duoef, deixe que eu lhe presenteie com alguns dos meus clacachataucos. Leve estes de cores ultrabrilhantes e estes de sabores incomuns. Já sei que tu não irás à Gnegof porque já optastes pelo lado oposto. Recomendo-te saborear os clacachataucos quando atingires a plataforma do mirante da Rexatrex Woset. E lá das alturas aprecie as paisagens. Depois que tu saboreares as minhas iguarias em tabletes uma nave espacial aparecerá no céu e realizará o seu regresso a Nesemix.
Guardei os tabletes de clacachataucos nas claridades das minhas mãos. Ao me despedir tive a impressão de que Deron Elpe se fixara aos rés do muro do Rimeceiro de Butrew porque alguém muito importante para ele deveria estar em um daqueles degraus brancos que abrigavam stocumuos retangulares com ares de banheiras ovais.
Sessenta overebuts depois que o muro ficou para baixo me deliciei com clacachataucos, os doces alimentos fabricados pelo olmeaqyu. Do mirante da Rexatrex Woset alcancei com as vistas os pensamentos que eu tivera tão perto e tão longe do escuro.
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