- "Só se atiram pedras em árvores carregadas de frutas".
Com prazer dialético deambulei a voz neste provérbio semítico e conduzi o olhar à forma triangular de um telhado prateado.
A noite se desfez.
Os sóis retornaram. Com eles vieram os draplis em cantorias. Os pequenos pássaros pousaram no infinito urbano de Butrew, uma cidade coincidente com a cor prata do telhado que ainda se prendia às minhas retinas.
A Rua Rapdew se alargou em qualquer tempo passado. Nada além do que esta transformação se sucedeu. A rua chegou ao fim.
O Tubo Sabuplew, ao contrário do término da rua, prosseguia no seu trajeto ao meu ver ad infinitum.
Eu havia chegado a Butrew proveniente de Nesemix. Cheguei a Nesemix por intermédio de Citos Redi, o alcoviteiro policial e cerimonialista. E atingi Liboririm ao aceitar o movimento da vida na minha saída da Terra. Finalmente me cansei de caminhar e tive sede, o que fez o triangular telhado prateado se libertar das minhas retinas.
Com o sumiço do telhado me senti um chimpanzé. Tal sentimento estimulou-me a compreender que os liboririntáqueos e os terráqueos seguiram diferentes caminhos evolutivos.
Agora escrevendo a minha história tudo parece ter acontecido com uma velocidade estranha e comovente. Confesso que não foi completamente assim o meu ato de estar em outro planeta. Ao me sentir estimulado a compreender determinadas coisas em Liboririm não significava que eu atingia rápido o entendimento focado. O tempo liboririntático me pegava peças, criava armadilhas racionais, tropeços emocionais. Eu receava tirar dos acontecimentos conclusões precipitadas. Nós, seres humanos, historicamente somos adestrados a ter uma visão reduzida, unilateral dos fatos.
No mesmo instante em que eu havia finalizado o percurso da Rua Rapdew alonguei o meu nariz, imaginei-me sem queixo, salientei os meus caninos, curvei-me para a frente, estiquei os braços e desejei retirar dos meus pés o calcanhar. Se a fome, vontade me alimentar, defrontasse-se com a dieta, equilíbrio de nutrição, eu optaria no instantâneo em me tornar um frugívoro trepador arborícola. E onde poderia encontrar a água que saciasse a minha sede?
Esvaziando-me da imagem humana projetei-me na realidade inabalável do meu querer entrar no telhado prateado e triangular. Busquei as sombras da casa no fundo das minhas retinas. Ao encontrá-las a casa se moveu célere e foi às nuvens do fim da Rua Rapdew.
Os draplis se multiplicaram sob os raios solares. Alguns se aproximaram do meu corpo peludo. Entoaram cantos sublimes. Foquei meus sentidos nos abstratos dos voos dos passarinhos. Ergui dos meus pensamentos uma escada e uma corrente existentes na moradia dos meus longínquos amigos Manfredo Carlim e Elisabete Carlim. Na minha derradeira noite no planeta Terra essa tinha sido a última casa que eu pensara e por conseguinte sentira e entrara. Materializei a escada e a corrente sob o prateado e triangular telhado. Consegui a autorização dos níveis vibracionais do Universo para visitar usando a forma corpórea de um animal primata a residência do baab Xezco Govird.
- Savânico duoef, vós sois bem-vindo à minha casa! Aceitais um frasco com água?
- Conceda-me também o discernimento, a sensibilidade, a compreensão...
- Pela ação do espírito, Eudaips atua na crosta liboririntática, nas colônias espirituais, nos umbrais, nas paisagens celestiais. Estejais vós no seu Reino de amor, justiça... Saciai vós com a água! Nela está o plantio, a colheita.
Depois que me deliciei com a água pousei o frasco em um dos degraus da escada. A casa do baab era simples e conchegativa.
- Plantareis vossas possibilidades nos exercícios de interpretações. Semeareis drunhs nas noites e noites nos drunhs. Vós colhereis almas, vidas, músicas.
Sob a corrente úmida girei o meu corpo. Eu me achegava a ela como se procurasse estabelecer relações da autonomia de Xezco Govird, um liboririntáqueo barrigudo e de baixa estatura, com os meus guinchos dialéticos que me cabiam e que me eram caros.
Eu me visualizava agudo, inarticulado e com toda certeza uma espécie de macaco que mais se aproximava dos terráqueos.
- Antropomorfo duoef, eu vos transmiti imagens liboririntáticas que eu recebi dos campos espirituais, dos caminhos da Luz. Siga na sua evolução. Primórdios e modernidades das pedras me agradam mais do que sacrifícios. Que Eudaips esteja sempre em vossa companhia! E sempre dê água a quem tem sede.
