As claridades dos sóis ao atingirem a cidade de Butrew me exibiram uma janela fora do alcance das minhas mãos. Janela de um quarto onde ela, a imaginação, e ele, o pensamento, misturavam-se na alma do tempo e no corpo da vida. Os sóis projetavam nesta janela imagens compreensíveis, acessíveis, abertas, enigmáticas, impenetráveis, encerradas. Imagens mudas e sonoras que me infiltravam concertos melódicos, psicodélicos. Desejando penetrar naquela abertura articulei cálculos matemáticos e progressões geométricas usando os drunhs da minha existência liboririntática para concluir quantos konasts ainda faltavam para que o meu prometido retorno à Terra me atingisse.
A minha lucidez trêmula gostaria de saber gargalhar como Sona Gorida, a fxifariex, porque se soubesse prolongar os meus risos e adorná-los com ruídos forneceria à Butrew uma gargalhada fenomenal. Eu, entre os tantos sóis que lançavam focos luminosos, poderia estar ficando demente.
- Demente?! Louco?! Insensato?! -gritei.
O grito alcançou a janela do quarto que fora exibida pelas claridades solares. Ela, a alma, e ele, o corpo, separaram-se do tempo. Experimentei a sensação de coragem. Meu pensamento compreendeu que a minha imaginação naquele momento preferia caminhar a ter que voar. E na mesma vida dos liboririntáqueos a imaginação me explicou ser aquela janela abrigo e não devaneio. O grito pausou o movimento, o passo, o entretenimento, a diversão, o exercício, o ar, o fim.
O silêncio não me cegou, não me ensurdeceu. Parei no trecho da Rua Rapdew onde pequenos pássaros entoavam sibilos, zumbidos. Assobiei acompanhando o ritmo dos silvos metálicos dos draplis. Ainda estático defronte à casa simples mas muito bonita dei continuidade aos meus assobios. De repente os draplis se calaram. Ruborizei-me ao me ouvir assobiando com tamanho entusiasmo. Poderiam os assobios estar chamando a atenção de alguém? Nem precisou que os pensamentos retornassem à atividade. Uma janela se escancarou na parte alta da casa simples mas muito bonita. Um liboririntáqueo apareceu no jardim. Desenvolto nos movimentos destrancou o portão. Veio à calçada trazendo no ombro um objeto metálico, comprido, excêntrico e até então desconhecido por mim. O portão ao ser outra vez fechado pelo liboririntáqueo fez a janela da parte alta da casa também se trancar. Virou-se como se uma inspiração que se escondera na distância do caminho. Sua voz aguda, incessante, interior encontrou-se com a minha resistência.
- Corajoso duoef, a tarde de Butrew não é maravilhosa? Vede vós quantos draplis há neste lugar...
Mal terminou de falar os pequenos pássaros levantaram voo fazendo zunidos agudos e prolongados.
- Os draplis me escutaram. Sentiram que a noite não está longe. Por isso voaram. Encontrarão a noite. Ao encontrá-la cairão em sono profundo e só voarão novamente quando os sóis retornarem ao novo drunh. Mas deixemos os draplis em paz! Vinde duoef caminhar comigo. Caminharemos juntos até o Tubo Sabuplew.
- Tubo Sabuplew?! É justamente para onde quero e penso estar indo.
- Então se movimente porque idênticos aos draplis nós chegaremos ao Tubo Sabuplew à noite.
A Rua Rapdew era uma rua por demais extensa. Com tantos passos a serem dados não tardou para que eu soubesse que aquele liboririntáqueo, morador da casa simples e bonita, chamava-se Gnee Arnont. Ao saber o seu nome me inteirei também que utront era o nome do objeto esquisito que ele apoiava no ombro.
- Sempre fui apaixonado por música. O primeiro instrumento musical ao qual me dediquei foi o utront. Sua sonoridade é vigorosa e potente.
Ouvia com tranquilidade de espírito o que o tocador de utront me falava. Sentia elevação em suas palavras. Fazia-me bem estar caminhando com elas e com ele.
De modo repentino visitou-me a lembrança oral de Sona Gorida. Toquei em seus dizeres: "...quando estiver andando pela Rua Rapdew não ouvirá a melodia do tempo porque o tempo estará tão próximo do duoef que ele, o tempo, virá a ser o seu cúmplice e parceiro...".
A recordação de Sona Gorida me trouxe um sorriso.
- Parelho duoef, qual o motivo do vosso riso?
- Acho que o canto dos draplis é a melodia do tempo.
Gnee Arnont ao modo dele também sorriu.
A noite chegou a Butrew. Com a noturnidade à flor da pele atingimos o Tubo Sabuplew.
- O tubo é vermelho como me dissera a fxifariex. -pensei.
O tocador de utront me indicou com os seus olhares o alto do horizonte sobre o tubo. Vi no espaço uma janela iluminada fora do alcance das minhas mãos. E se havia alguém na Rua Rapdew que pudesse com as mãos alcançar aquela janela decerto esse alguém era Gnee Arnont, que se despediu dizendo-me:
- Orientado duoef, eu fico por aqui porque preciso tomar outro rumo. Sigais o vosso caminho. Misturai-vos às almas, às vidas e às músicas.
Continuei a caminhar venturoso pela ampla Rua Rapdew escoltado pelo Tubo Sabuplew e por todos os sentidos do agora.
