A chegada a Butrew provocou-me a impressão de que a cidade era verde e que um incêndio devorava os seus viadutos.
- Butrew é tua. -participou-me o piloto da Sirro Dreanso.
- Minha?
- As ruas da cidade começam a ser as suas escolhas, esverdeado duoef!
O comandante Q09 acionou o mecanismo de abertura da saída de passageiros. Despediu-se com um aceno de mão que preencheu de independências o futuro que eu vivia e viveria em Liboririm.
Enquanto eu procurava palavras de retribuição ao aceno do piloto fui retirado de dentro da nave por um vento que me convidou a bebê-lo. Bebi os ares de Butrew. Em uma fração de foroac passaram pelos meus pensamentos palavras como apocalipse, cântico, crônica, levitação. Senti-me com o diafragma vivo de letras misturadas. Velho esotérico, talvez na solidão que se aproximava, deduzi que o silêncio poderia ser mais relevante do que achar palavras. Realmente a solidão não me deixou para trás. Saí de dentro da Sirro Dreanso feito um lugar ermo e despovoado.
Aguardaria estático novo encontro com algum liboririntático ou caminharia pelas ruas desconhecidas da cidade estranha? Respondi minha pergunta soltando grunhidos. Sabia buscar apoio na solidão que propunha ao vento me desequilibrar. Sustentei-me na falta que sentia de Nesemix. Palavras fugiram dos meus pensamentos. Fui outra vez alfabetizado por imagens. Vieram-me as cores das lutas. Ouvi uma voz - e até hoje acredito ter sido a voz de Eudaips - que foi decisiva para que o medo não abortasse os meus aprendizados em Liboririm.
- Não tenhas medo de se perder! Não tenhas vergonha ou orgulho em pedir ajuda.
Se a mudez me fizesse surdo eu não ouviria a melodia do tempo comum. Se a surdez me transformasse em mudo eu não guardaria na memória a música do tempo simples. O tempo liboririntático também se adaptava às minhas indecisões. Eu me adaptara aos seus mistérios litúrgicos, aos seus rituais psicológicos. Nossas adaptações, vozes e silêncios assim iguais às letras misturadas dos diagramas vivos dentro de mim buscavam a solidão para se locomoverem.
Butrew retirou do meu íntimo a sensação de que a paralisia é verde. O tempo se revirou. Realidade e lembrança me tocaram com suas respectivas caridades.
- Butrew é sua! -afirmou-me o piloto Q09 sem me sacrificar.
- Minha?!
- As ruas da cidade já são as suas escolhas, amarelado duoef!!
Sem espaçonave ao meu lado perdi o contato com o wodsa Sirro Dreanso e com o comandante e piloto Q09.
A solidão se dissipou levando embora as fumaças negras dos viadutos de Butrew. Fumaças brancas apareceram. Fim do incêndio. Constatei que Butrew é uma cidade amarela e que a melodia do tempo, diferentemente do tempo, nem sempre é constante.
Escolhi uma das ruas. Segui-a até o meu coração pedir que eu entrasse em outra rua. Reconhecia-me perdido. Mas não julguei o planeta Liboririm. Ao chegar em uma bifurcação do caminho escolhi a rua que me pareceu de menor importância. Segui-a até a minha cabeça pedir que eu entrasse em outra rua. Além de perdido reconhecia-me limitado.
Foi neste ou no outro tempo, momento ou ocasião que uma liboririntáquea já não muito jovem surgiu à minha frente ocupando uma bolha de ar vinda quem sabe do turião ou do incêndio exterminado.
- Diga-me, imperfeito duoef, uma palavra que comece com a letra F.
- Extravio! -disse-lhe.
- E onde está o F?
- No futuro.
Sentindo-se saciada como se as ervas ou o fogo lhe causassem aprazimentos a liboririntáquea soltou uma risada. Contaminado pela gargalhada não resisti à tentação de sorrir.
- Ouça-me risonho duoef. Meu nome é Sona Gorida. Sou fxifariex. Recebi chamado para limpar uma casa. Quando cheguei ao endereço não encontrei ninguém. Como a porta estava aberta entrei e fiz a limpeza solicitada. Esperei por alguns overebuts. Quem sabe chegaria alguém... Os overebuts viraram samenoas. E antes que as samenoas virassem tehms pulei para fora da espera. Agora estou indo em direção a uma outra casa localizada no início da bifurcação do caminho, na rua que me parecerá de maior importância.
Sona Gorida tinha ares de ser excelente fxifariex. Falei-lhe da reforma da casa onde eu morava em Nesemix. Ela assumiu a condição de ser solidária comigo. Informou-me que Butrew é uma cidade sossegada. Não se mostrou curiosa em saber para onde eu estava indo. Na verdade eu que mais a necessitei.
- Estou perdido nesta cidade sossegada. Pode me ajudar?
- Foi bom encontrá-lo. Preciso, extraviado duoef, prosseguir com as minhas faxinas. Recomendo-te a prosseguir naquela rua ali. Quando estiver andando pela Rua Rapdew não ouvirá a melodia do tempo porque o tempo estará tão próximo do duoef que ele, o tempo, virá a ser o seu cúmplice e parceiro. Mais adiante verás um gigantesco canal cilíndrico avermelhado. É o Tubo Sabuplew. Siga-o! O tubo o escoltará até...
Apressado, sabe-se lá por qual razão, sem medo de cumprir aos pés das letras as indicações da fxifariex e vendo-a se esvair no interior de um glóbulo de ar soltei a minha voz:
- Obrigado pela ajuda prestativa Sona Gorida. Vá com Eudaips!
