Fora dos esforços espetaculares da memória explorei pela primeira vez o espaço cósmico liboririntático desde que se deu a minha chegada ao planeta. A nave espacial Sirro Dreanso se projetava retilínea sem admoestar minhas acrobacias aéreas.
Meus pensamentos tinham saudades das águas de um rio cuja nascente é em Minas Gerais, das canoas, dos remos, do anjo que eu fui no período mais puro e brando da minha vida terrena: a infância.
E foi entre o nascimento e a puberdade que o rio me mostrou a fundura das mãos. Aconteceu o êxtase nas proximidades de uma fazenda no norte do estado de Minas Gerais. Não satisfeito em contemplar com adjetivos as águas correntes o meu tio, proprietário da fazenda, colocou-nos dentro de um barco. Fomos ao outro município. Ao voltarmos percebi que o rio já fazia parte da minha vida. Retornei a esse rio várias vezes. E em nenhum dos retornos sequer imaginava que mais adiante quando o tempo despertasse o futuro eu pensaria nos momentos úmidos do passado estando em outro planeta e vivendo a condição de passageiro de uma espaçonave que percorria o rio e singrava em velocidade sob asteroides e cometas aproximando-me de sóis e estrelas.
Ausentava-me o conhecimento de quanto tempo ainda duraria a viagem a Butrew. Fosse a viagem durar o tempo que fosse existir nada retiraria da memória as imagens fantásticas e inimagináveis que eu encontrei no curso do rio da nascente à foz e no caminho, na rota até Butrew.
Embora eu fosse o único passageiro de Sirro Dreanso em todos os instantes da viagem não me senti sozinho. Meu íntimo se preenchia de perspectivas. Mesmo se as ignorasse ou não as relevasse o mais certo e real era que eu as bendizia porque reconhecia nelas a esperança. As perspectivas eram o trampolim que me conduzia ao descobrimento dos erros e dos dons.
Deus é a energia. No planeta Liboririm existe uma energia chamada Eudaips. A cada arrepio emocionado por me experimentar cada vez mais próximo da cidade de Butrew compreendia ser Deus e Eudaips uma única energia criativa e vibrante do Universo. Estas compreensões forneciam luzes à alma e compreensão ao espírito.
Aproveitei o momento íntimo de alegria, sensação de bem-estar, um verdadeiro lisukeo, para perceber as sombras no horizonte interior de Sirro Dreanso. No tempo e no espaço as luzes e os conhecimentos trouxeram ao silêncio as vozes das sombras.
- Foi o gostar de correr que me fez gostar de pilotar espaçonaves. Mas posso te dizer que não fui eu que me escolhi para ser o piloto de Sirro Dreanso.
A interposição do corpo do piloto nos fachos luminosos ocasionavam as sombras. O comandante da astronave se chamava Q09. E Q09, o piloto, possuía nadadeiras dorsais. A princípio me assustei com sua presença. Justamente por não haver o mar em Liboririm a sensação de que o comandante Q09 era um ser pelágico me divertia. Ao se adiantar e se aproximar de mim deu-me um vão de luz. Devido a esse clarão constatei nas paredes de Sirro Dreanso faixas transversais e horizontais de coloração avermelhada.
- Ribeirinho duoef, assim viajando no espaço e fazendo do sol ou dos sóis minhas sombras passo a vida. Quando estou em casa anseio em voltar ao espaço. Sempre tive a certeza que pilotar uma nave espacial seria o meu destino, o acerto e o dom.
Sirro Dreanso diminuiu a velocidade. Ao desacelerar iniciou movimentos circulatórios dando-me a convicção de que a nave procurava delimitar uma circunscrição territorial.
- Circulável duoef, o iulmoxatar da nave Sirro Dreanso começou a executar o procedimento de chegada, pouso. Aproveite e divise no horizonte exterior a imagem prodigiosa da Esfera Escura. Estamos nos limites do Planalto dos Metais. Benvindo à cidade de Butrew.
Fiquei estupefato ao divisar no horizonte a Esfera Escura e o seu único sol. Dediquei-me por inspiração daquela paisagem a querer conhecer a quantidade do mundo liboririntático que me encharcava de eternas temporariedades. Afinal eu, primitivo habitante da memória, encontrava-me no interior de um aborígine objeto voador identificado.
