Libertei as mãos dos travesseiros. Espirros fizeram os meus olhos se arregalarem diante do novo drunh que se iniciava em Nesemix. Sentia um sabor amargo na boca proveniente do sentimento de aborrecimento que principiava a me invadir. Não queria me desgraçar. Deixei a cama de lado.
No habateni me lavei. Comprovei o sumiço das manchas do meu corpo. Nu, fiz desvios no meu curso mudando as minhas direções dentro da água que me lavava. Brinquei de derivações tentando afugentar o enfado. Ao finalizar o banho desejei me vestir com o melhor traje que encontrasse no guarda-roupa.
Vesti-me como se fosse realizar uma viagem. Perambulei por uma região da casa que até então não havia visitado. Desabitado de imóveis o cômodo empoeirado armazenava um praticável. Do alto da plataforma observei no centro a presença de duas cadeiras repletas de pó e entulhos. Pareciam mortas ao redor da sujeira que por sua vez parecia gerada pelo espectro de uma reforma inacabada, abandonada no esmo do tempo. Sem mover as pestanas desci do praticável possuído por desgostos intoleráveis. Inoperante nas minhas próprias medidas deitei-me no chão imundo do cômodo. Com o ventre e o rosto voltados para baixo, em posição horizontal, esforcei-me em descobrir os motivos da minha tristeza súbita, descontentamento repentino.
À mente vieram imagens de Andrim Herdzana, a ningeifaxa do Cerne Noturno Do Desejo, e imagens de Nauji Kenda, a angolana que adorava elefantes e era exímia jogadora de xadrez. A liboririntáquea e a terráquea moviam as minhas mãos nos destroços espalhados no chão daquele aposento que poderia muito bem ter sido um quarto ou uma sala.
Alastrou-se em mim a possibilidade de Andrim Herdzana e Nauji Kenda terem a mesma alma. Nesse momento o vento abriu a janela. Poeiras pousaram nos meus lábios retirando da minha boca os resquícios da amargura. Nesse caso a minha roupa preta e vermelha blindou-se contra a imundície do chão.
Ao me levantar retornei ao praticável. Constatei que o cômodo no qual me encontrava tinha a forma de losango.
- Impossível! Claro que a liboririntáquea Andrim Herdzana nada tem a ver com a terráquea Nauji Kenda, e vice-versa! -afirmei ao meu ponderável sorriso que se desabrochou quando me retirei das alturas perigosas das pinguelas cósmicas.
E sorrindo me afastei das poeiras, do cenário das desordens. Retornei à ordem da casa.
A cada drunh vivido em Liboririm a necessidade fisiológica de me alimentar parecia menor. Quanto mais eu me adaptava ao planeta mais o tempo entre uma refeição e outra se dilatava. Por outro lado eu não repudiava os quitutes liboririntáticos que me eram oferecidos. Os petiscos mudavam de forma com frequência. Eram proteicos. Surgiam em momentos inusitados. Eu acreditava que os liboririntáqueos me ministravam uma dieta exigente.
A moradia me dava a impressão de estar encerrada dentro de um clarim que tocava O Toque De Silêncio. De repente um som motorial não se reduziu às lástimas de um coração aflito. Quase ensurdecedor e incrivelmente apaziguador o barulho atingiu um nível de sensação acústica que me fez não esperar que a champnax fosse acionada. A origem do som motorial estava rente à entrada da minha casa. Corri à porta abrindo-a com volúpia. Extraordinário, indizível, fora do comum foi o que os meus olhos viram: a nave espacial que provocara a quebra do silêncio se transformando em um ser chamado Sirro Dreanso, o wodsa.
O pequeno e sossegado Sirro Dreanso entrou nos aposentos da casa. Logo que se adentrou à sala foi me informando:
-Prepare-se ferido duoef! Vós ireis realizar uma viagem. Passareis alguns drunhs em Butrew. Sua visita a esta cidade durará o tempo necessário para que a reforma da casa onde vós morais seja concluída.
Espantado, surpreso e assustado em saber que havia uma nave espacial contida no ser liboririntático ou um ser liboririntático contido na alma e nas estruturas de uma nave espacial, com o informe da viagem a Butrew e com a existência da reforma repentina da casa não pude evitar as lágrimas, misto de fuga ao desconhecido. Com o olhar sereno estampado no semblante Sirro Dreanso prosseguiu:
-Prepare-se maravilhado, surpreendido e intimidado duoef! Vós não levareis absolutamente nada a Butrew. Não será necessário! Não mude de roupa e nem de sapatos. Como te comuniquei a reforma do imóvel continuará a ser feita. Esta viagem, podeis ter certeza, não se constitui um paradigma de ausência enquanto substâncias são reduzidas a pó.
Perpassamos nossos corpos pela porta de saída. Fora de casa prendi-me ao corpo de Sirro Dreanso. Senti os movimentos da sua transformação em nave. Deixei-me conduzir às metamorfoses de Andrim Herdzana e de Nauji Kenda.
Quando a nave espacial Sirro Dreanso atravessou as alturas sossegadas das pontes cósmicas do Planalto dos Metais rumo à cidade de Butrew coloquei entre as minhas mãos a certeza de estar levando no coração nada além do que o coração.
