21º DRUNH, INQUAGU / AS MANCHAS

Agarrei-me aos travesseiros espalhados sobre a cama. A tristeza da alegria começou a conviver comigo. Da tristeza retirava pensamentos poéticos que dariam para preencher vários pergaminhos. A alegria se fazia nódoa, mácula do existir interplanetário. Permanecia deitado como se o ócio houvesse me transformado às custas dos drunhs em uma estrela apagada.
Vida e morte. Morte e vida. O fato era que o meu desânimo progredia a olhos nus. Paralelo à melancolia que me encontrava nas janelas da casa onde eu habitava, o tempo liboririntático fez os meus cabelos crescerem. Também mudaram de cor. De aloirados retornaram ao original: pretos! Amarrava-os feito coque preso na tira elástica azulada que encontrei na gaveta do armário da copa.
Meu certo fim era fazer conluios comigo mesmo. Intencionava-me readquirir dinamismos. Meu coração pedia o levante, mas o meu corpo se tatuara à cama. Visitava-me constantemente a ideia de eu estar doente. A prostração mórbida na qual eu me enfiara fazia-me apático. Nada reluzia aos meus olhos. Assim iniciei o 21º drunh em Liboririm. Sabia, portanto, ser necessário edificar a fé nas alterações que as emoções e o corpo estavam sujeitos a passar. Precisava sonhar. O sonho haveria de me dizer as palavras certas. Diria-me e me mostraria o motivo da minha modorra.
Não demorou a acontecer o inusitado. Ao redor da minha cama surgiram draoels cobertos com manchas lilases. Quando vi aqueles animais duvidei da realidade. Também não acreditei que estivesse sonhando. Senti-me infame. Foi este sentimento infamante que me fez soltar dos travesseiros espalhados sobre a cama. Levantei-me com dificuldades. Capacitei-me de que cometi um erro ao me entregar à ociosidade. De pé, erguido, percebi que a minha pele se tornava manchada.
Respirei a temperatura do gelo ao me ver cheio de manchas. Busquei o espelho do habateni. Meu rosto parecia um esboço de quadro a óleo. A respiração atingiu os ares mais quentes das distribuições dos sóis liboririntáticos. Desesperado e intrínseco ao medo de estar doente pela primeira vez tive vontade de fumar um cigarro. Imaginei o fumo picado sendo enrolado nas manchas finas.
Enquanto imaginava o tabaco um dos sóis do Planalto dos Metais se transformou em lua. Os draoels aos poucos foram desaparecendo. Sobre a cama os lençóis amarrotados, sem ciência e sabedoria se mexeram como se houvesse estendido no colchão um zalivani. Corri à cozinha. Retirei do esconderijo a enorme ufzac. Passei-a na nuca. Meu nariz se aproximou tanto das paredes que a respiração umedeceu os tijolos. O umedecimento deixou de pé em terreno interior roçado o mato em que é fácil apanhar a caça. A ufzac atingiu o ponto escuro da superfície da cama. O quarto se cercou de penumbras. O sol transformado em lua tornou-se visível através do espelho do habateni. Persistente e sedento em subsistir às manchas me agarrei aos tubos de Infinisoim que a revendedora da Vonalom, Nihaim Idu, deixou em meu poder. Apliquei o creme na pele. Em questão de foroacs a lua que não era lua voltou a ser sol; em questão de overebuts os lençóis amarrotados se aquietaram. Se houve mesmo um zalivani no colchão ele, o animal, não estava mais ali.
O que mais me surpreendeu foi a metamorfose das manchas da minha pele. Na terceira vez em que untei o corpo com a pomada Infinisoim manchas caíram no assoalho da casa liboririntática. E quanto mais manchas se juntavam no piso mais elas se movimentavam por vontade própria e de uma forma rápida e caótica.
Quando a pele se livrou das milhares de marcas me animei ao ver as manchas depositadas no chão darem vida a um ser chamado Torenk Stenkiv, que fiquei sabendo logo em seguida à sua evolução espontânea ser o crioterápico. Com todo o calor de Nesemix causou-me espanto sentir o frio que exalava de Torenk Stenkiv.
- Restabelecido duoef, se desejar pode me denominar de terapêutica do Infinisoim. Prefiro que me chame de Torenk Stenkiv, o crioterápico. Retirei as rugas, asperezas e, claro, as manchas medonhas provenientes da mínima incompatibilidade surgida entre os tecidos do seu organismo e os do organismo que provém da inserção da nova pele muito bem feita pela roupeira Luoda Igefem. Da mesma forma afugentei as acnes e queratoses de pele. Garanto-te que não terá mais reações indesejáveis. Agora, o duoef está completamente adaptado e compatível à pele liboririntática. Como a noite verdadeira se achega ao Planalto dos Metais ela não mudará a cor dos seus cabelos que continuarão pretos como sempre foram. Aconselho ao duoef recobrador das forças que não me demore a dormir e a sonhar pois antevejo uma viagem para o seu corpo e espírito aventureiro.
Realmente não tardou que o sono me levasse à cama. Desta vez ao me agarrar aos travesseiros senti uma corrente de alegria.
E esta é a nota mais triste depois que a tristeza se foi: Torenk Stenkiv se dissipou, desapareceu. O crioterápico se derreteu feito uma pedra de gelo que se liquefaz.