Meu relacionamento com os silêncios possui a dimensão do meu trato com as palavras. Pensei que eu era sempre assim. Depois que recebi a notícia da Hetrotadem de Zanlog Romua iniciei a escutar uma música vinda de longe cantada por um coro cujas entonações me davam a sagração andarilha. Eu fornecia às paisagens liboririntáticas o caráter sagrado mesmo se elas surgissem em ruas mal-iluminadas, sujas, disformes.
Naquele momento eu percorria silencioso o admirável tão ser das palavras. Quantas maravilhas os silêncios ainda me proporcionariam se as palavras não se afastassem da vida e da morte?
Deixei a resposta vagar nos ambientes urbanos de Nesemix enquanto eu caminhava rumo à minha casa liboririntática depois de ter a sensação de sair da marcação cerrada do destino. Falsa impressão que era conduzida ao meu sistema nervoso central.
Os valores obtidos na Terra se punham distantes dos valores especificados pelos drunhs vividos em Liboririm e pelos outros druhns que eu ainda viveria no planeta que me tratava pelo menos até agora com indulgências.
Com as mãos toquei nos meus ouvidos. Tentativa de não me perder da melodia entoada pelo conjunto de cantores. Acredito que as palavras nascem da audição. Tenho confiança de que os silêncios são orais. Aquela música vocal semelhante aos cantos gregorianos principiou o movimento restaurador da minha alma. A cada palmo de chão visitado em vários sentidos fugia-me o triste sentimento da perda do corretor de imóveis.
Por meio dos sentidos resolvi retornar às ruas mal-iluminadas, sujas e disformes da cidade. O canto medieval que me acudia se descendia de uma das casas no topo das escadas tão comuns na arquitetura de Nesemix. De certa forma me senti um rato e uma criança enfeitiçado por aquela música sacra. Não recusei que os meus pensamentos chegassem à Alemanha, precisamente em 26 de Junho de 1284, aldeia de Hamelin, onde apareceu um estranho flautista que prometeu livrar a aldeia dos ratos...
Palavras e silêncios estavam certos. O ritmo e a expressividade musicais procediam de uma casa sobre uma escada de 1001 degraus. Ao colocar o meu pé direito no primeiro degrau as árvores inversas ao lado da casa balançaram. O vento repentino soprou nas minhas costas. Com a rapidez do clofinus alcançando uma presa o vento levou-me à porta semiaberta da casa noturna. No alpendre uma placa feita de atricoci exibia em letras capitulares o seguinte aviso: NÃO GUARDAMOS PACOTES PARA EVITAR EMBRULHOS.
Entrei na casa de cômodos. Na sala luzes vermelhas me ofuscaram. Senti o cheiro forte do soncin espalhado sobre os móveis, misturado no ar. Nas paredes notei a presença de reflexos purpúreos e brilhos prateados. Desejei apalpar os efeitos que as luzes causavam nelas próprias. Uma voz feminina, rouca e ardente se fez ouvir:
- Sou Racaloni Zetezeut, a proprietária e administradora desta casa de ningeifaxas chamada Noturno Cerne Do Desejo. Bordeleiro duoef, aproxime-se! Sentai-vos ao meu lado. Estou no sofá à esquerda.
Meu coração tremeu. Silêncios e palavras não tiveram medo. Também não se esticaram aos delírios. Sentei-me próximo da liboririntáquea de corpo farto. Suas mãos acariciaram as minhas pernas produzindo libidinagens. Racaloni Zetezeut animou o meu corpo. Experimentei a certeza que os reflexos e brilhos que procediam das paredes eram espelhos.
Deixando, talvez, que eu me acostumasse ou me adaptasse às fantasias e estímulos sexuais que os movimentos das suas mãos me enviavam Racaloni Zetezeut se transformou por alguns overebuts em uma fêmea de jipugyste, tipo de peixe copulador, e mergulhou em um aquário que estridente saiu de dentro de mim. Acostumado ou não, adaptado ou não me levantei do sofá e desliguei o aranhento Aparelho Xaraq que transmitia um programa de músicas instrumentais religiosas.
Meu coração parou de tremer. Palavras e silêncios tiveram medo. Delírios não se entregaram àquela liboririntáquea que regressou à sua forma original e ao sofá. O aquário astrologicamente voltou para dentro de mim.
Em silêncio outra vez me coloquei ao lado da proprietária e administradora da casa de ningeifaxas.
- Os silêncios me ditam os seus pensamentos. Saboroso duoef, chegou o drunh de saber o motivo pelo qual vós fostes abduzido, afastado do planeta Terra e por 143 drunhs permanecerás no planeta Liboririm.
Impulsivo cheguei perto da kasanoim. Minhas mãos se encostaram em suas pernas atraindo palavras para o Noturno Cerne Do Desejo. Ela, senhoraça de si, religou o Aparelho Xaraq. A voz do locutor me invadiu:
- Ao contrário do que os terráqueos imaginam sobre outros planetas o Governo Liboririntáqueo nunca almejou tornar as abduções uma experiência traumática para o abduzido. Exames médicos se fazem necessários. Há a mudança de pele para os que chegam do planeta Terra e dos planetas que não possuem sol. Ao final da permanência abdutiva em Liboririm o retorno ao planeta de origem não deve carregar nenhuma agressão emocional capaz de desencadear perturbações mentais e físicas.
A Kasanoim desligou o Aparelho Xaraq com um piscar de olhos. Com o silêncio de volta não tive dúvidas de que as paredes da sala estavam repletas de espelhos. Racaloni Zetezeut sorriu. Segurou em minhas mãos. Seu semblante agora me passava um ar maternal porém incestuoso. Ela me ditou as palavras dos seus pensamentos:
- Vós não fostes abduzido por um motivo principal. Na verdade de Eudaips fostes vós Rúbio Talma Pertinax que desejastes ser abduzido. O deleitoso duoef não se sentia em harmonia com a vida na Terra. Desejava encontrar afinidades, motivações pontuais e, claro, aventuras. Viestes a Liboririm com o intuito de viverdes o que sois realmente. Nós, os liboririntáqueos, não somos cruéis alienígenas. Poético duoef nós não estamos lhe ministrando doses de vampirismos psíquicos. Não se preocupe por enquanto em voltar à sua casa liboririntática. Soletrado duoef vós passareis este e o próximo drunh aqui na casa das ningeifaxas Noturno Cerne Do Desejo. Vós ficareis próximo da maravilhosa pureza da tolerância.
