16º DRUNH / MARAVILHOSA PUREZA DA TOLERÂNCIA

Sentia-me à vontade no Cerne Noturno Do Desejo. Quando eu não estava de conversas com Racaloni Zetezeut me debruçava sobre a janela. Contemplava a vista parcial de Nesemix como se a espera contasse comigo e eu contasse com a chegada repentina de alguém ou alguma coisa que fizesse vibrar o pulso dos drunhs.
Fui alojado em um quarto na parte superior da casa. Os movimentos da clientela e das ningeifaxas aconteciam na parte inferior da construção. Ao perceberem que a sala se enchia de clientes as ningeifaxas saíam dos espelhos e dançavam. Depois da dança cada um dos clientes escolhia a ningeifaxa que mais lhe chamara atenção. No quarto que me consolava havia uma espécie de balcão que mudava de rumo e virava mesa nos momentos da minha alimentação. Quando os brilhos dos sóis me despertaram para o 16º drunh vi a kasanoim colocar sobre a mesa o alimento. A liboririntáquea se aproximou de mim. De suas vestes emanavam perfumes que me transmitiam as sensações próprias das despedidas.
- Amical duoef, os aromas que sentes é a minha alma a suspirar por ti. Se suspeitas que estou de partida estás certo! Necessito viajar ate Ruwazi, cidade onde nasci. Não se esqueça de mim. Também não perca a lembrança de que as lágrimas não foram feitas para as despedidas.
De um momento ao outro como se os foracs e os overebuts se entrelaçassem no interior dos redemoinhos de esperas Racaloni Zetezeut desapareceu. Ao constatar com os meus silenciosos gritos a veridicidade da sua partida a vontade que tive foi de segui-la. No meio dos gritos inarticulados, vozes que a paixão e o sofrimento me fizeram soltar, aprendi que havia um drunh para ser vivido.
Entreguei-me ao apanho da fome. Sobre a mesa o zaoup me atraiu. Rente ao zaoup a ufzac se apossou das minhas mãos. Ao desenhar na casca e na massa do zaoup o corte, a lâmina da ufzac penetrou no dedo polegar da minha mão esquerda.
- Caralho! -esbravejei puxando os gritos do esperadouro.
O sangue fechou a janela do quarto. Mastiguei a fatia do zaoup com compaixão. A trilha vermelha construída pelo sangue iluminou o chão da casa. A porta do quarto se abriu. O sangue escorreu pela escada interna em formato helicoidal. Intuitivo segui o movimento caracoleado da vida. Tolerante com o ferimento no dedo polegar rastreei a voz de Racaloni Zetezeut:
- Esperado duoef, vós compreenderdes o significado do ferimento e não caminhareis aos sacrifícios e não condenareis os inocentes. As flores são as amizades que Eudaips introduziu nos espinhos.
Acompanhei o sulco aberto pelo sangue corrente. Levou-me a um dos espelhos da sala do Cerne Noturno Do Desejo. Uni-me à superfície do vidro polido, estanhado, que refletia o céu azul, nuvens. Entre duas árvores inversas uma torre quadrangular possuidora de uma porta me convidou a entrar. Movi os passos. Ao entrar na torre os reflexos platinados do espelho fizeram a fortaleza sem sinos desaparecer. Assim como aconteceu com a voz da kasanoim.
Nesse então, momento ardente, concentrei-me nas ondas luminosas e caloríficas que se soltavam do espelho. À minha frente surgiu a imagem real do corpo de uma ningeifaxa.
- Delicioso duoef, bem-vindo sejas. Meu nome é Andrim Herdzana. Sou A Ningeifaxa Do Amor Súbito. -falou-me com a inseparável voz do amor de 1001 amores.
Meu sentimento imediato por Andrim Herdzana foi o amor. Meu coração foi à agradabilíssima presença da ningeifaxa. Desejei-a nos meus abraços. Ela me soprou como se desejasse me despertar com o sopro da paixão. Curvou-se como se fosse um sol se inclinando com sensual delicadeza. Senti doce surpresa ao ser beijado. Meu coração se cingiu de poesia. Minha cabeça se circundou de poemas. Meu corpo tornou-se flutuante. Nossos corpos se abraçaram sobre os desenhos de amor e psyché produzidos pelas claridades que penetravam nas frestas em formas de corações losângicos das janelas do espelho. Amei Andrim Herdzana sem mistérios igual a um anjo encarnado. Vestido de sátiro me perdi na salvação do amor. Também me atormentei tal qual um visionário nas dependências das circunstâncias. Abduzido, cliente e amante. Eu estava convencido que sim! Achei que Andrim Herdzana se apaixonara por mim. Entretanto no Cerne Noturno Do Desejo a paixão era a kasanoim e o amor diferente da despedida não se afastava das lágrimas.
O drunh anoiteceu quando naquele então, instante gelado, desconcentrei-me das ondas luminosas e caloríficas que me prendiam ao espelho. Despedi-me da ningeifaxa chamando-a de A.H.
Sobre a escada dos 1001 degraus a casa das ningeifaxas abriu a porta. Ao colocar o meu pé direito no primeiro degrau as árvores inversas ao lado da casa balançaram...