O silêncio me dizia a mesma coisa que Terima Ansom me falara dentro da espaçonave que eu apelidara de Leque Voador.
- Assim que descermos no local do show começarei a perder o contato visual com o duoef. E o duoef em contrapartida começará a ganhar contato visual com os liboririntáqueos que estiverem no meu show. Ou seja: durante a minha apresentação será possível que o duoef veja a multidão delirante. Que a paz de Eudaips esteja convosco!
O Leque Voador pousou. Não vi por onde a cantora saiu. Não me senti sozinho. Meu íntimo se clareou com um sentimento de equilíbrio e doçura. Sai dos ventos da espaçonave. Não me contive de alegria ao perceber que a minha visão se ampliara me trazendo as imagens dos liboririntáqueos presentes nas expectativas do show da cantora da cavidade vermelha.
O silêncio deixou de ser os sons da multidão. Os barulhos me fizeram arrepiar antes que eu ouvisse os acordes dos instrumentos musicais. A plateia alvoroçada em seus milhares de vigores não me era mais invisível e poder vê-la mexia com os meus outros sentidos. Guiava-me pela intuição. Pressentia que os liboririntáqueos ao me verem me identificavam como Rúbio Talma Pertinax, o abduzido proveniente do planeta Terra. Procurei um lugar na plateia. O local do show me parecia mais um grande anfiteatro, um coliseu do que um estádio. Achei um lugar que não me deixaria longe nem perto demais do palco. Constatei a agitação do público ao observar as folhas de uma árvore de metal se levantarem do chão. Aprumavam-se devido aos pulos da ardorosa plateia.
A expectativa pelo início do show me causava vozes recônditas. Elas me diziam em alguns momentos palavras trincadas, partidas. Em outros momentos frases inteiras, irrestritas. Assuntos moldados nas recordações do tempo que se perdera em algum buraco do próprio tempo terrestre.
A noite em Nesemix era bonita. Mesmo sem a existência de uma lua a noite acatava os meus pedidos de desejos. Conduzia-me às emoções da vida. E por mais que estas emoções estivessem distantes ou próximas das almas de Liboririm poderiam me demonstrar com a minha convivência com seres diferentes da minha espécie as possíveis e desejadas afinidades com encontros, projetos e planos que não desaparecem de um drunh para o outro, com mágoas passageiras, com perdões.
Os refletores e os canhões de luzes se acenderam. O zum e o foco mostraram ao público o cenário esplendoroso. Entendi que Deus me perdoara por Lhe ter pedido amores inverossímeis, rumos anestesiados, destinos ignorados, milagres preguiçosos. Entendia também que Eudaips entrava no meu cérebro de mãos dadas com o meu coração que aprendera a pedir perdão e a perdoar. Experimentei a fé na natureza, na força ativa que estabelece e conserva a ordem natural de tudo que é agraciado com a existência.
Por um instante me aproximei do cenário do show como se eu fosse um ator em crescimento, em desenvolvimento. Um poeta ávido por rimas sociológicas. Eu era um abduzido sem rancores apto a se adaptar à atmosfera liboririntática. Toquei com as mãos crédulas o rosto do personagem epopeico, os pêndulos justapostos materializados no centro do espaço cênico. Soprei as folhas das árvores de metal na confiante tentativa de eternizar emoções naquele determinado pedaço do drunh.
Desejei retornar múltiplo às minhas origens. Pensei em retroceder o futuro às dimensões do passado. As mãos crédulas se afastaram do cenário da imediata apresentação da cantora Terima Ansom e se arriscaram a arrancar do meu coração as ficções, as exageradas cenografias das epopeias. As mãos queriam me preencher de poesias ininteligíveis. Rápido voltei ao meu assento. Quando as luzes se focalizaram nos pêndulos justapostos iluminando quem jurei ter o rosto da festeira Zale Lalu adicionado ao rosto de Terima Ansom o show começou. Absorto na dança que as músicas me propunham disse ao meu cérebro:
- Rogai por nós!
Pontos luminosos flutuavam no cenário. Terima Ansom surgiu no palco agarrada aos pêndulos justapostos. Eles pronunciavam vibrações sonoras. A maturidade vocal da intérprete atingia naturalmente as trocas do registro modal para o falsete. Seus improvisos vocais iam além das técnicas do canto. Dona de um timbre metálico e suave Terima Ansom era uma cantora notável, de qualidade divina, uma deusa, uma diva.
Nos intensos momentos do show eu senti vontade de abraçar e beijar os meus amigos de todas as épocas. Quem sabe eles, e até mesmo os amigos que foram embora levados pela morte inevitável, pudessem estar presentes naquele fantástico espetáculo de um inimaginável futuro.
