8º DRUNH / O ANIVERSÁRIO DE ZALE LALU

Distanciei-me da Loja Machina de Costura. Encostei-me na parede longínqua dos meus sentimentos. Dava-me bem com as novas roupas e a minha pele nova não me importunava com efeitos colaterais ou coisas similares. Os pensamentos descreviam órbitas nas tristezas e pareciam mais decididos a deixá-las em abandono incompleto.
Era tão necessário que eu não parasse de caminhar que a parede longínqua ficou mais longínqua ainda. Senti-me perto da porta de saída do Setor de Imigração. Pulsou-me o coração quando pisei na primeira rua de Nesemix. À primeira vista a cidade me agradava. Sabia que Nesemix era populosa. No entanto não me era dado o privilégio de enxergar os seus habitantes no formato de multidão.
A rua se apresentava silenciosa. À minha frente uma escada de pedras que parecia levar a lugar nenhum. Também a presença de um muro que parecia proteger a larga avenida do lado direito. Avistei uma ponte atravessando um escoadouro vermelho e úmido. Citos Redi me informara em um dos seus saltos que somente no Planalto dos Metais o dia se deixava levar pela noite. Provavelmente no momento no qual eu saíra do Setor de Imigração o 8º drunh não estava amanhecendo. Pelo cheiro dos sóis indo embora, sombras velhas, era a noite que se demonstrava chegando. Do lugar que achei ser um escoadouro se originou uma ventania ocasionada por um gigantesco leque que sobrevoava a cidade de Nesemix. Sem tirar os olhos do leque fui descobrindo se tratar de uma nave espacial cheia de vento. Por todas as partes da cidade o vento se infiltrava. No alto de um morro a janela de uma casa se abriu. Alguma coisa saiu pela janela e aproveitando o vento de feição mergulhou no espaço e se fez favorável ao caminho que desejava seguir.
A ausência do meu destino durou - eu não posso me aproveitar da palavra tempo porque me afastaria das exatidões dos meus relatos - o nada e o tudo. No voo cada vez mais próximo tive a certeza de ser aquela alguma coisa um envelope destinado a mim. Movimentei-me. Desci ainda mais a rua. O meu deslocamento combinou com o movimento do vento. O envelope alisado pousou em minhas mãos.
Agachei-me ao lado do lugar do escoadouro vermelho e seco. Abri o envelope. Sorri. Era um convite. Eu deveria seguir a ventania. Ela me levaria até a casa da janela que se abriu. Lá acontecia a festa de aniversário de Zale Lalu. E ela, a aniversariante, aguardava-me. Subi até o último degrau da escada de pedras. Segui as curvas do vento. Cheguei ao interior da casa festiva. Liboririntáqueos das mais diversas cores e estampas se divertiam no ambiente alegre. Suspeitei que os convidados não me viam. Eu podia vê-los. Passavam por dentro de mim. Eu não conseguia fazer o mesmo feito.
Quando a noite ficou encorpada a aniversariante se aproximou de mim. Ela podia me ver. Agradeceu-me a presença, a aceitação do convite. Ofereceu-me bebida. Avisou-me que o Parabéns Para Você seria cantado bem antes que se iniciasse na outra extremidade de Nesemix o espetáculo da cantora Terima Ansom porque os convidados, inclusive eu, iriam ao show. Somente Zale Lalu permaneceria naquela casa.
- Sei que o show é imperdível. Beba mais ventos por mim afável duoef. Deixe-me lhe apresentar a cantora Terima Ansom. Ela está aqui em minha casa e pode vê-lo.
Ao ser apresentado à cantora logo depois que terminou o Parabéns Para Você foi partido o favocaraf. Os quatro sóis escondidos no céu do Planalto dos Metais se mexeram deixando que raios solares penetrassem na noite e iluminassem o rosto da cantora. Zale Lalu nos serviu uma fatia de favocaraf.
- Muito delicioso este favocaraf! -disse-lhe de olhos grudados na beleza exótica de Terima Ansom.
Zale Lalu me abraçou feito uma amiga que se despede de um amigo. Ainda abraçado a ela ouvi o seu pedido:
- Nada de tristezas. Afável duoef esta é uma despedida sem lágrimas.
Nem mais o crédulo ramo da minha loucura acreditou no que aconteceu quando a aniversariante se desgarrou de mim. Zale Lalu se infiltrou nos interstícios de Terima Ansom. 
A gigantesca nave espacial parecida com um leque ressurgiu no meio do vento. Os convidados da festa correram e em saltos e voos se adentraram no interior da espaçonave. 
Zale Lalu tornada Terima Ansom ou Terima Ansom virada Zale Lalu puxou-me para dentro do vento e sobrevoamos as luzes da noite de Nesemix até o local do show da cantora da cavidade vermelha.