Cútis é sensorial. O maior órgão do corpo humano. Epiderme. A superficialidade. Derme. Tecido conjuntivo. Hipoderme. Tela subcutânea. Melanina. A pigmentação. A minha pele era a mesma. Ela não havia mudado de cor. Continuava do mesmo jeito de sempre. Um sempre nem sempre sempre porque anos atrás ela era mais macia e rosada. O sol sobre as minhas tantas caminhadas a amorenara. Acreditava que transformações poderiam acontecer à minha pele. A ciência terráquea aprendera o processo de criar células humanas a partir da pele. Esta técnica ajudava a desenvolver fontes de células para aplicações clínicas. Imaginei neste momento o grau de desenvolvimento no qual poderia estar a ciência liboririntática.
O mesmo achar não acontecia em relação às minhas roupas avançadas para a minha época. Sentia os meus trajes típicos deformados, frouxos e apertados. As velhas roupas bordadas com técnicas artesanais se colavam no meu corpo e se mantinham revestidas por um pó espinhento. Embora pressentisse que o meu corpo estava limpo e que mesmo assim dos meus trajes se desprendiam fortes odores de amônia pensei vagamente na ideia de tomar um bom banho.
- Por onde se metera o saltitante Citos Redi?
Sentia-me só. Evitava focalizar-me em tristezas de fim dos mundos. Atacava-me a ideia de que a Terra conhecera o seu fim. Defendia-me o juízo de que Liboririm entregava-me ao seu início.
- Citos Redi, aquele saltitante alcoviteiro, não voltaria a cruzar os meus caminhos. -não desconfiei desta certeza.
Procedente de um ímpeto um repente luminoso apareceu-me. Um pedaço da parede mais próxima acendeu-se. Indicou-me um caminho. Não me importava a direção que eu tomaria. O importante não era mais salvar a minha pele. Por conseguinte obedeci àquela luminosidade. Começava a não ter dúvidas de que o planeta Liboririm era o meu destino infalível.
Caminhei a ponto de me lavar com uma água extraída de uma grande jazida que parecia um grande metal que me seguia sem descansos. Uma máscara branca sem expressões colou-se no meu rosto esfregando-se na minha pele. No meu corpo acampou o calor como se a pele estivesse sendo arrancada e uma outra pele estivesse se aproximando de mim tomando-me por inteiro. Sem reação tornei-me um instrumento daquela máscara. Minhas orelhas se mexiam frenéticas. Com os olhos tampados afrouxei a boca já tomada pela elasticidade da máscara. Entreguei-me ao silêncio. Como se trocasse a camisa por uma de cor igual mas de modelo diferente levantei os braços em ritmos agitados. Meus cabelos que eram pretos pareciam aloirados. Desceram sobre o meu olho direito. Eu não era mais o mesmo. Ou quem sabe o quem que eu me traduzira era o verdadeiro Rúbio Talma Pertinax. Meus sujeitos filosofavam nos meus verbos. Meus verbos poetavam nos meus predicativos. E meus predicativos buscavam atribuir aos sujeitos e aos verbos as qualidades da felicidade.
Das paredes compactas uma porta se abriu. Entrei na loja de roupas e Luoda Igefem, a costureira e roupeira, ao ter a intenção de me vestir penteou os meus cabelos retirando deles a louridão inexata. Devolveu-lhes a pretidão. Subtraiu os resíduos amoniotélicos da máscara sem expressões e jogou-os na grande jazida que não mais parecia um grande metal e que não mais me seguia. Em descanso a máscara branca sem expressões se infiltrou no chão e sumiu.
Fiquei nu diante de Luoda Igefem. Ela me vestiu com as novas roupas. A minha pele se restituía homóloga ao meu EU. Enquanto me vestia com os trajes liboririntáticos descobria fertilidades nos conceitos de fronteira, limite.
- As roupas liboririntáticas lhe ficaram muito bem. -disse-me a costureira e roupeira.
- Estou me sentindo bem nestes novos trajes.
- Suas roupas terráqueas serão transformadas em pastilhas e armazenadas no Kavaneure. Quando chegar o drunh do fim da sua permanência em Liboririm suas roupas sairão do Kavaneure. Pode ir agora duoef. Outras peças de roupas liboririntáticas lhes serão enviadas assim que o Setor de Imigração, e não demorará mais do que seis drunhs, entregar-lhe as chaves da casa onde o duoef irá residir.
- Mas até a entrega das chaves da casa onde irei morar?
- O duoef morará no que é visto pela primeira vez: a sua nova pele.
