10º DRUNH / ERVA, CHÁ E O CALEIDOSCÓPIO NO QUADRADO DA FUGA

O adeus de Terima Ansom se repetiu por uma única vez. O show da cantora da cavidade vermelha terminou. O público produziu o barulho, a gritaria característica quando o fim do bis da última canção fez com que as luzes do palco se apagassem.
Desvaneceram também as imagens dos liboririntáqueos. Perdi o contato visual com a multidão de fãs de Terima Ansom. Retornei à condição imposta pela minha invisibilidade, solidão de um homem abduzido cercado por ruas desconhecidas, diferentes.
Na parte exterior do local do show tive mais certeza de que o palco fora montado dentro de um coliseu. Meus sentimentos desiguais geravam esticamentos dos meus músculos. Meus pensamentos começavam a ser concebidos por uma sensação de rejeição assim que olhei para o alto e vi o Leque Voador ir embora sem deixar que os ventos me levassem.
Ruas que não chegavam à condição de inóspitas, mas que me causavam terror e dúvidas se apresentaram aos meus passos. Movia as minhas pernas com a vagareza própria de uma alma tomada pela melancolia. A cada passo eu constatava o estado da coisa que me consumia. E esta coisa se chamava rejeição. Mesmo me sabendo um eremita eu possuía a necessidade por relações sociais. Sentir-me excluído causava-me uma dor semelhante à dor física. Ao ser deixado fora do Leque Voador julguei-me em abandono e em depreciação. A minha personalidade predisposta a estas sensibilizações interpretava fácil uma rejeição imaginária como se fosse uma rejeição de fato.
Muros apareceram à direita e à esquerda. Minha atração por muros me levou a querer tocá-los. Os braços se ergueram. Quando os dedos se esticaram as mãos se fecharam determinadas. Os muros ruíram dentro do meu sentimento de rejeição. Pararam de separar um lugar do outro.
Sem circundações de muralhas as paisagens noturnas de Nesemix se aprofundaram no meu desejo que queria executar uma fuga. Foi quando avistei uma tenda. Algo parecido com uma barraca de feira. Aproximei-me extraindo do meu rosto expressões excursionistas. A tenda repleta de quinquilharias era cercada por um ervaçal. Nela morava Huiglia Rehva, a feiticeira herbolária. Ao vê-la me preenchi de sentimentos de acolhimento e receptividade.
- Ao ver você logo depois que os muros caíram pensei nos adzânenis, tribo indígena aruaque do alto Cuiari. Eles habitam as imediações do rio Aquio no planeta Terra. Os adzânenis também são conhecidos como tatus-tapuias. -disse-lhe tentando ser simpático de supetão excitado por um intento incendiário.
- Florestal duoef beba este chá. Ele abrirá a sua mente e confortará o seu coração. Seus pensamentos entrarão nas entranhas dos seus sentimentos.
Saboreei até a última gota daquele chá que parecia existir somente na fantasia e na imaginação. Olhei a feiticeira herbolária. Ela se transformara em quatro pássaros e a tenda em uma árvore sem metais carregada de umbus. Um dos pássaros voava à esquerda do umbuzeiro. Um outro pássaro se conservou pousado nos galhos mais altos da árvore. Os dois pássaros restantes voavam distantes e pareciam querer fugir da imagem do céu.
E fugir era o que me propunha a rejeição revestida de plumas e penas do corpo das aves que bebiam também do chá de drevaci-irare em minha completa exaltação mental e inquietude física. Os quatro pássaros regressaram ao chão e expuseram à minha vista a saída, figura geométrica, do planeta Liboririm.
- Ervoso duoef, basta dar um pulo nesta tua fé que tu imaginas ser um caleidoscópio. -chilraram os pássaros.
A saída exposta era um caleidoscópio cravado no ervaçal. Senti medo e coragem. Pensei em fugir de Liboririm pulando dentro do instrumento cilíndrico em cujo fundo se moviam fragmentos de vidros coloridos.
Ao girar o meu corpo à procura dos pássaros a feiticeira herbolária, emplumada, penada e com  uma proeminência córnea saída da sua tacicriz, enterrou no caleidoscópio mais espelhos que refletiram no infinito da minha alma os pedaços de vidro e fizeram combinações de imagens de cores variadas. Bebi com avidez mais do chá de drevaci-irare.
Devido à erva metida de permeio entre a voluptuosidade e a amargura humanas a mutagênese da minha alma avançou mais do que as inconstâncias e as modificações nas minhas informações genéticas. 
Se eu fosse música poderia dizer que a alma se alterou no modo liboririntático de se viver dentro de uma tonalidade, acorde ou fragmento musical. Eu não era e nem sou música. O meu corpo girou alucinado. Exausto e suado perdi momentaneamente a consciência. Quando a recobrei não vi mais a tenda, as quinquilharias, as ervas, a feiticeira herbolária, os quatro pássaros. No chão ardiam brasas. No lugar do caleidoscópio deu-se em vida um enorme, suspenso e aberto quadrado.
- Florestado duoef, o quadrado é a porta da sua fuga! -reconheci a voz chilrada de Huiglia Rehva.
A fuga cantou uma canção que não coincidia com as canções incandescentes da cantora da cavidade vermelha. Com veemência recusei aquela melodia. Apresentei-me como a objeção ao quadrado que também se distanciou de mim.
Comovido, energizado e decidido a continuar existindo em Liboririm senti a presença de Terima Ansom dentro do Leque Voador. A espaçonave e a rejeição se afastaram da minha alma e cabeça dando equanimidade aos meus sentimentos o que fez parar as distensões dos meus músculos.