11º DRUNH / NAMORADO DA DURAÇÃO CALCULÁVEL DAS COISAS

A rua que me fazia subir às estrelas tornava-me o espaço das coordenadas de despertadores tridimensionais concebidos nas adjacências  do meu enraizado conceito de tempo.
A imaginação parecia querer beijar a ilusão. Quando a rua se completou na curva assemelhou-se a uma pista de dança com casais liboririntáqueos em movimentos de namoro. Surpreendi-me com o sumiço das estrelas e com a repentina aparição dos sóis.
Nesemix se clareou. Com o surgimento de um novo drunh os dançarinos se aproximaram de mim. Os casais ruidosos e tremelicosos me serviram de veículo aos seus tique-taques regulares e cadenciados. Conduziram-me a uma transpiração farta.
Os sóis do Planalto dos Metais fizeram-se abastados. Testemunharam o meu corpo sendo guiado pelos enamorados pares ao cume do outeiro onde residia um rologihon chamado Cobis Rulan. Ao se apresentar vestido com pijama amplo e leve o hilário relojoeiro me fez cócegas porque o achei parecido com um ponteiro.
- Dimensionado duoef, bem-vindo à relojoaria. E vós românticos namoratórios do cortejar podeis ir embora. Retornai aos seus pensamentos sentimentais!
Senti-me acordado por uma velocidade alta. Sem estar completamente acostumado a esta velocidade vi os dançantes casais saírem em voos rasantes da relojoaria que era também a residência do risonho e sisudo Cobis Rulan.
- Auferível duoef, desde que entrastes na minha casa quero lhe oferecer a minha mão. Pegue-a enquanto me visto com uma roupa mais apropriada para esta ocasião. -disse-me.
Admirado com os relógios da casa presenciei a mão do relojoeiro vir em minha direção fora do seu  punho. Apertei-a com a minha mão direita. Falei-lhe:
-A vida namora o infinito e o planeta Terra é curto. Entendeu?
Soltei a mão do sério e engraçado liboririntáqueo. Ele recolocou a mão no seu punho. Mexeu-se dentro do meu tempo quantitativo. Situou-me dentro do seu tempo quantificado. Tentei lhe dizer dos relógios que eu conhecia: sol, água, areia, pulso, digital.
-Entendi. Mire-se na relojoaria. Quando o drunh que se passou amanheceu foram os relógios que me despertaram. No drunh que amanheceu poucos overebuts atrás foram o termodinâmico duoef e os enamorados casais que me acordaram alegres. Não posso afirmar que acordei cedo ou tarde nem assegurar que fui dormir tarde ou cedo. Em Liboririm inexiste o primeiro amor. Existe o amor, fruto deiscente, inspirado em Eudaips. E cada liboririntáqueo possui a liberdade de amar da maneira que mais lhe for próxima, cabível. A espera madura da germinação das sementes que escapam do fruto aberto não é rápida, lenta, curta, longa nem faz de conta. Compreendeu?
Tossi. Súbito e ruidoso expulsei o ar da boca visando à eliminação da matéria estranha contida nas minhas incompreensões ao ouvir pela primeira vez as palavras do papudo relojoeiro. Por mais que eu tossisse ou pensasse que tossia não queria fugir dos pensamentos que me traziam os terrenos e conhecidos medidores de tempo: pêndulos, quartzos, cronógrafos, relógios atômicos, alarmes, cronômetros, calendários. Por outro lado, contagem regressiva, não poderia deixar de me libertar ao fazer contato com as terminologias liboririntáticas: foroac, overebut, thooren, samenoa, tehm, drunh, konast.
Compreendi que eu não queria me provar nada. Sem a exagerada hilaridade dos seus movimentos iniciais o relojoeiro agora agia e falava com sobriedade e bom humor dos resultados de suas pesquisas científicas nas áreas dos relógios e do que eles representavam, dos climas nos espaços e dos tempos planetários.
-...Por possuir nove sóis, Liboririm poderia ser o mais quente dos planetas. Isto não acontece. O mais quente é Vênus. Comparado com Vênus o clima em Liboririm é mais brando. Nossa atmosfera é constituída essencialmente de dióxido de carbono em uma densidade mínima o que faz o CO2 reter o calor sem determinar o nível da temperatura. De todos os planetas só Liboririm tem boas condições para os terráqueos...
Com tempo ou sem tempo, relógios ou sem relógios, percebi que o meu encontro com Cobis Rulan chegava ao fim. No entanto a sensação sem intervalos era a de que o nosso encontro mal começara.
-Estações climáticas não acontecem em Liboririm. Rologihon, por aqui o tempo não cura dores, perdas e não é assim constante?
Não houve resposta. O relojoeiro não estava envolvido com o passado, presente ou futuro. O alucinante era que os apaixonados casais continuavam em Nesemix prolongando sem interrupções a rua que me fazia descer das estrelas. Eu prosseguiria no beijo lendário da imaginação na ilusão me multiplicando nos sóis, nas indivisões do tempo que naquele planeta sem rotinas me fazia namorado da duração calculável das coisas.