Da cabeceira da cama vibratória pentadimensional desloquei a toalha de rosto. Passei a toalhinha de tecido sintético no meu peito untado por um creme de aroma desagradável. Ainda recolocando as minhas roupas suadas e cansadas no meu corpo limpei o meu rosto. Desapropriei-o do óleo escuro com o qual fora pelo médico emoldurado. O silêncio e o zumbido me faziam companhia.
Com as roupas recolocadas esperei que o silêncio e o zumbido se renunciassem de mim. Sem saber o que fazer com a ociosidade que sentia desenhei na parede clara de sylarts mesomórfico com o dedo médio da mão direita os números: 10, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1...
No movimento seguinte do dedo médio quando o número 11 se materializava por interversão do pensamento a parede branca repleta de quadrados começou a mudar de cor indo parar na cor preto. Abaixo dos meus joelhos surgiu na parede uma abertura estreita enquanto o meu corpo se achatava. Trêmulo e amedrontado tentei gritar. O grito se cravou nas entranhas daquela fenda. Quando o meu corpo se achatou o suficiente para penetrar na greta os números que desenhei na parede clara de sylarts mesomórfico tornaram-se visíveis, brancos no fundo negro.
O número 11 se materializou e as duas verticalidades que o formavam empurrou-me para dentro da abertura que de estreita se transformou em larga e seus contornos se igualaram aos contornos do número 9.
Se caminhei, planei, voei, boiei, rastejei ou fiquei estático em alguma dimensão daquele consultório médico nunca consegui saber. A exatidão é que ao experimentar a visceral sensação de estar entrando dentro do número 9 vi à minha frente uma imensa ave semelhante ao albatroz. Tentei segurá-la. Apenas a rocei com o dedo médio da mão esquerda. Asas e cauda se multiplicaram e sobrevoaram o meu corpo. Senti-me um múltiplo inteiro de outro elemento inteiro. Dos seus dois bicos jorrou um líquido de várias cores que banhou-me feito uma cachoeira. Tomou-me, naquela divisibilidade do absoluto, um trépido bem-estar. Meu corpo se lubrificou, hidratou-se, equilibrou-se e curou-se.
Trebuni, a ave do bom agouro, nidificava-se. Fazia o ninho me parecer o meu refúgio e abrigo. A forma do meu corpo retornou à originalidade ao atingir a saída da fenda. Em movimentos rápidos mergulhei no oceano colorido e nos 9 vultos que emanavam ectoplasma. De repente tudo o que parecia girar aquietou-se. Ouvi passos úmidos e leves vindos de muito perto.
-Como está se sentindo agora Rúbio Talma Pertinax? -perguntou-me o Doutor Rolzi Stemkiv.
-Não me sentia tão bem assim desde 5 de Maio de 1985 quando sai vivo da sessão das 21 horas, Cine Pathe, Belo Horizonte, depois que assisti um documentário chamado Cabra Marcado Para Morrer. -respondi-lhe por um lado sereno, por outro lado lúgubre.
Inesperadamente a ave Trebuni voou para as alturas inalcançáveis. O médico revoluteou-se. Suas agitações e tremedeiras repentinas o transformaram em Ledub Genala, a carismática criança que trabalhava como lanterninha da Sala 9. Metamorfoseou-se o doutor à minha frente sem o uso de efeitos especiais ou maquilagem. Ficou mais alterado do que o ator Jim Carrey no filme O Grinch. Em súbito voo alcançável o lanterninha se aproximou do meu rosto e me falou:
-Agora o levarei onde você terá que ir. Sou Ledub Genala.
O lanterninha no qual o médico havia se transfigurado era na verdade um nong simpático, falante e perspicaz. Acendeu a lanterna e começou a me conduzir por corredores escuros e tenebrosos. Antes dos 9 primeiros passos me deixou alerta e inábil a sentimentos de ociosidades.
-Os 9 vultos que no oceano colorido emanavam ectoplasma são os anciões do Conselho Esclabrim. Nunca mais na sua permanência em Liboririm os verá juntos novamente. Mas com certeza os anciões, um de cada vez, em algum drunh dos 140 drunhs que lhe restam, aproximar-se-ão de você.
-Estamos distantes da Sala 9?
-A paciência é uma cinéfila virtude de desejos. Acalme-se. A lanterna, instrumento do meu trabalho, está funcionando perfeitamente bem. Logo chegaremos aos 9 esclarecimentos.
Enquanto andamos por estes corredores umbrosos me responda: quantas letras do alfabeto em uso na língua portuguesa existem na palavra Liboririm?
