Os corredores umbrosos não eram mais tão sombrios assim. Agora despontavam neles um certo bem-estar ainda desprovido de cores e cintilações.
Sóbrio, aberto aos acontecimentos da minha mente, Ledub Genala como se me preparasse para o próximo episódio afastou-se do meu corpo proporcionando aos meus pensamentos uma elasticidade que nunca havia experimentado.
Levaram-me os pensamentos aos meus pés. Encontrei-os misturados à terra e às folhas que pareciam ser feitas de barro. Estavam sujos de uma aglutinante massa que me pareceu ser argamassa. Nas unhas se alojavam detritos de lama. A sujeira instalada nos solados dos pés se movimentavam ofertando-me sensações e conhecimentos do mundo externo. Meu sistema nervoso central parecia estar contente, executado, realizado.
Entre as minhas pernas, eu aparecia para mim mesmo sentado em um chão imundo, uma pedra proporcionava apoio às laterais dos joelhos o que fazia com que os pés ficassem parados, fixos em uma única posição, em uma só angulação. Sem camisa meu peitoril se escurecia pouco a pouco. Minhas mãos escuras seguravam minha camisa manchada de uma substância que me lembrou betume asfáltico. Dos ombros para cima nada era visível. A falta de visibilidade não possuía cor nem era fosca. Acreditei ser o limite entre as realidades, os delírios e os ensinamentos.
O elastecer dos pensamentos regressou ao ponto de origem. Senti a presença de uma garrafa de vidro rente ao meu pé direito. Uma garrafa repleta de insetos rastejantes.
Permaneci estático naquele lugar. Não estava mais nos corredores frondosos e nem estava na plenitude da iluminação. Atraía-me a parte umbrívaga do meu eu. Necessário era que eu partisse em direção aos pontos claros daquela aventura que começara a se deflagrar em mim. E foi exatamente isto o que fiz.
Concentrado nos movimentos do nong envolto em neblina agarrei a pedra entre as minhas pernas. Joguei-a nos fúnebres corredores do passado.
A neblina que se enredava em Ledub Genala se dissipou. Ele, o nong, completamente nítido, aproximou-se de mim. Apontou a sua lanterna para uma porta. Os raios de luz alumiaram uma plaqueta onde li: W.C.
Apressei-me. Entrei no banheiro e urinei como se tivesse bebido os oceanos da Terra. Defequei como se tivesse comido os prédios da cidade de São Paulo.
-Agora que atravessamos o Portal de Honon estamos na entrada da Sala 9. -revelou-me o nong assim que regressei do banheiro.
Vazia de ruídos a Sala 9 se mostrou aos meus olhos e à minha sensibilidade. Assemelhava-se a uma sala stadium de cinema. Ledub Genala acionou a sua lanterna. Indicou-me em qual poltrona eu deveria me sentar. Sentei-me e fixei o meu olhar na tela branca.
Ao me ver sentado, ileso e com os olhares iluminados o nong se despediu acendendo e apagando a lanterna diversas vezes e cada vez mais rápido até que o pisca-piscar proporcionou-me o prazer sonoro de uma maravilhosa sinfonia. Enquanto a música preenchia a sala, Ledub Genala retirou-se. No último átomo de instante em que a minha mão o encontrou vi o doutor Rolzi Stemkiv pular para fora do nong e retornar das portas azuis e das janelas brancas. O médico sinalizou ao projecionista balançando a cabeça como se exclamasse sim.
Cruzei as pernas aproveitando o confortável espaço entre a poltrona na qual estava sentado e a outra poltrona à frente. Em qualquer momento o filme das cineastas, atrizes e irmãs gêmeas Toa Tlinaw e Oti Tlinaw se iniciaria. O médico se despediu de mim e saiu do recinto.
Assim que aconteceu o acorde final da sinfonia o projecionista Quinch Ho ligou a Lanterna Mágica. A Sala 9 se escureceu e a sessão de cinema se iniciou.
