2º DRUNH / O ESTRANGEIRO E O MÉDICO

Com os pés na plataforma espacial, estrangeiro do disco voador, encostei-me em Anya Ydyug para aguardar que o meu equilíbrio retornasse seja de lá onde fosse que ele estivesse. Sem se esquivar, muito pelo contrário, a Encarregada da recepção se firmou lateralmente girando o seu ombro a favor da minha mão.
O desequilíbrio ao me visitar tentou me confundir com variabilidades de humor. Principalmente intencionou retirar-me o equilíbrio mental. Desatinou a me trazer imagens de pessoas falecidas. Entre as imagens maximizou-se na minha mente o rosto do meu pai. Ele morreu depois de uma cirurgia no coração. Não suportou o bisturi profundo. Não resistiu ao mergulho do instrumento cirúrgico de corte nas águas musculosas do oceano. A face paterna se agigantou. Retirei-me do velório. Ausentei-me do enterro.
Ânya Ydyug balançou o meu corpo evitando que a minha mente se aprofundasse nos maus pressentimentos. Os movimentos de um para outro lado me puxaram para fora do desvanecimento repentino.
Pedi à imagem do meu pai que me outorgasse o perdão e me ensinasse a viver tão distante da nossa casa de portas azuis e janelas brancas construída nos sinos da Igreja Matriz de uma cidade inclinada aos desígnios das esmeraldas, turmalinas, diamantes, ouro e sol.
A recepcionista tornou-se obcônica e exalando o aroma da Sala dos Milagres do Santuário de Santo Antonio do Bom Retiro da Roça Grande, bairro da cidade histórica de Sabará, Minas Gerais, pude ver pela primeira vez o seu sorriso. E foi com este sorriso de robô replitáqueo que Anya Ydyug me conduziu ao Doutor Rolzi Stemkiv.
Sem despedidas e intempéries entrei no consultório médico.
- Retire as suas roupas Rúbio Talma Pertinax.
Nu deitei-me em uma cama vibratória pentadimensional. O médico deu início à bateria de exames. Eu respirava às vezes com o nariz colado ao vidro que funcionava como parede de canto; outras vezes respirava com a boca recheada com líquidos coloridos de sabores estranhos; e ainda aconteceram as vezes em que respirava usando o diafragma que se conectava a um tubo mínimo laminado inserido nas narinas e coçava a víscera situada entre o esôfago e o duodeno. Eu sentia cócegas e não prendia os risos.
- Se sentir vontade de rir é recomendável que solte o riso. -falou-me o doutor.
Os meus braços foram untados com Lonimusus, o que fez com que as veias se dilatassem. Foram penetradas por agulhas de fibra óptica. O meu sangue irrompeu em jorro e se desaguou em uma jarra hermética, transparente e brilhante. A jarra se contorcia. O sangue retornava ao meu corpo. E regressava à jarra por várias vezes.
- Agora vou lhe injetar um fanter de Soro Esclerenliboririntático para lhe conferir maior rigidez às suas estruturas ósseas. 
Cedo ou tarde, sempre ou nunca, tempo ou vento. Nada disto fazia sentido mais. Quando o Soro Esclerenliboririntático penetrou na corrente sanguínea foi inevitável o sono. Dormi profundamente sem ser vasculhado por sonhos. Simplesmente me aprofundei no descanso do fechar os olhos. Ao abri-los me adaptei aos poucos ao grau de clareza sépia contida no ambiente.
- Enfim acordou terráqueo Pertinax. Os resultados dos seus exames acusaram cinco esses em seu organismo. Esses que vieram do planeta Terra hospedados em você: sarna, septicemia, sinusite, solitária, soluços. Mas não se preocupe. Como te disse eu encontrei. Não encontro mais. Com os resultados iniciais pude codificar os seus males. Depois joguei os códigos no computador DIMELAC que me forneceu as doses necessárias dos antigos, modernos e alternativos medicamentos liboririntáticos. Apliquei as doses enquanto você dormia. Garanto-lhe negatividades totais de doenças como você mesmo pode constatar ouvindo o laudo conclusivo que aqui está. 
Memoravelmente o tal computador DIMELAC atraiu-me com frenéticos movimentos próprios. Estes movimentos geraram uma duplicação e outro computador DIMELAC surgiu ao lado daquele que já existia. O médico sentou-se à frente dos dois computadores. Seus dedos tentaculares regeram os teclados. O meus pensamentos entraram no sistema computacional. O médico, o usuário. Eu, a operação, o nome, a senha, o login. Ouvi uma voz tenorina cantar o conteúdo do laudo conclusivo dos exames completados. O canto era nítido. Não denunciou nenhum tipo de malefício orgânico ou mental.
- Pode se levantar e ir tocar a sua vida aqui em Liboririm. Ah, e o seu coração está voando. -encerrou o Doutor Rolzi Stemkiv a sessão de conexão em um satisfeito logoff.
E voando recoloquei as minhas roupas no meu corpo. O computador DIMELAC se tornara uno novamente. O médico deixou escapar um sorriso que passou a ideia de que logo as minhas roupas tirariam férias por mais de uma centena de druhns. O médico se despediu como se desejasse voltar. Desapareceu por portas azuis e janelas brancas.