91º DRUNH, SETERGU / A CASA SEM CIDADE

O drunh me viu quando eu lavava as mãos pela nona vez. Eu vi o drunh nascer por uma fresta na parede. A claridade dos sóis se intercalava entre o repetitivo e o pensamento. O vento estava brando. Sem perturbações me coloquei a prumo. Entrei no banheiro. Abri a torneira. O drunh tomava o interior da casa.
Perdi por completo o controle da situação. Não sabia mais onde eu estava. Se na invisibilidade do espaço físico ou se no âmago da nulidade. Dentro ou fora o infalível era que o drunh não se determinava no tempo. Eu respirava com todas as forças. Minha voz se tornara úmida. A respiração ansiosa. Voltei-me intuitivamente para onde imaginei que poderia estar as lembranças do último cômodo. Deparei-me com um caminho. E sobre o caminho a cadeira e a roupa, a blusa feminina. Ao reconhecê-las o vento recebeu o espírito dos desejos e partiu em pedaços aquela cadeira. A roupa e a blusa feminina voaram. No mais alto do voo duas mãos as agarraram. Não resisti. A dor veio de encontro ao meu peito. Cai no chão que nunca existiu. A minha voz se perdera na umidade. Encontrou-se com a secura, a aridez. Em desequilíbrio berrei. As mãos agarradoras eram elásticas. A razão era que a blusa feminina pertencia à dona daquelas mãos, uma liboririntáquea fonte de tudo.
Vi dentro do último cômodo uma outra cadeira nunca vista. Dependurada nessa cadeira meus olhares encontraram roupa, uma blusa feminina que balançava frenética. O vento se tornara agitado. Outra vez meus olhares buscaram a realidade daquela cadeira e daquela blusa. Meus pensamentos despertaram. O último cômodo me puxou para as suas entranhas. A casa se escureceu. Senti que o drunh se extinguira, que tudo o que se relacionava com equilíbrio, alegria e bem-estar deixara de existir. O pior de todas as coisas aconteceu quando a fresta na parede se alargou e a casa liboririntática simplesmente desapareceu.
Com rapidez uma nova casa surgiu. Visitei cada compartimento e a aos passos me envolvia o tempo. Tudo estava tão claro. Havia mais luminosidade do que o costume. Irradiava-me o drunh uma enorme felicidade. Era como se a vida liboririntática tivesse acabado de nascer. Quando a casa parecia conter equilíbrio, alegria e bem-estar eu abri a porta do último cômodo.
DERMAX KURMAL, O OXULPTALYDA
- Sou Dexmax Kurmal, a oxulptalyda.
Sentou-se em lugar nenhum. Agarrou-se ao meu olhar transverso. Mexeu o corpo como se soubesse provocar os meus nervos. Explodi num misto de desabafo, desequilíbrio e certeza.
- Devolva-me a casa. Há tantos drunhs que nela habito. Acostumei-me às suas feiuras e belezas. Quero que a oxulptalyda vá embora o quanto antes. Não temos nada em comum. Não possuímos afinidades.   Quando lhe conto as minhas histórias você monta acampamentos de sonolências em seus túneis auditivos. Sua tacicriz me desespera. Regressarei ao planeta Terra. Quando eu retornar a Liboririm não penso em morar com você.
Dexmax Kurmal se mantinha impassível. Seus cabelos amarrados me causavam distância. Ela não me permitiria regressar à Terra. Louca pelos seus poderes seu único desejo era zombar da minha fragilidade.
- Incompetente duoef, escutais os sons das espaçonaves em trânsito ininterrupto pelo espaço liboririntático. Escutais os sons da vossa inexistência no paradoxo no qual estamos. Escutais os sons das correntes que se arrastam por Nesemix aprisionada. Finalmente, escutais o silêncio que reina em vossa finitude.
Quanto mais Dexmax Kurmal falava eu me atordoava com os seus barulhos impostos.
O drunh me viu quando eu lavava as mãos pela décima vez. Eu vi o drunh nascer por uma fresta na parede. A claridade dos sóis se intercalava entre o repetitivo e o pensamento. O vento estava brando. Sem perturbações me coloquei a prumo. 
Entrei no banheiro. Abri a torneira. O drunh tomava o interior da casa. No entanto, a casa na qual eu me encontrava não era mais a minha liboririntática casa da rua Hesb.
Recordava-me de Dexmax Kurmal. Das espaçonaves em trânsito pelo céu de Nesemix. Entrei em uma das espaçonaves. Escutei os seus sons me prendendo aos seus comandos. Ouvia as palavras proferidas pela oxulptalyda, mas não a enxergava. Ela se afastou ou fui eu que me distanciei da existência? Poderia estar sonhando um sonho de Hetrotadem. Mentira! Eu desejava a vida mais do que tudo. Nesemix me prendera aos grilhões de Nesemix. Por Eudaips onde estava Nesemix? A cidade sumira. Cultivei a ideia de que eu viajara, que eu fora transportado por Dexmax Kurmal a outra cidade, a outra casa.
- Idoso duoef, o tempo liboririntático já deixa marcas em vosso corpo. Encontrastes um caminho. A vida ainda o quer duoef. Viestes a esta casa porque soubestes ouvir o amor. Nesta casa, Origem, ficarás por alguns drunhs. É uma casa sem cidade. Vós, duoef, no transcorrer dos próximos drunhs construirá a cidade que abrigará a vossa casa temporária. Darás nome à futura cidade. Acredite em mim duoef. Retornarás a Nesemix no momento certo. Que Eudaips esteja convosco!
Foram estas as últimas palavras de Dexmax Kurmal antes de alargar os seus olhos e desaparecer de onde ela nunca estivera. Levou consigo a roupa e a blusa.