84º DRUNH, INQUAGU / A MELHOR LEMBRANÇA

Quem sabe foi um pássaro que esbarrou as asas em alguma nuvem e me fez abrir os olhos, acordar. Procurei-o no céu. Encontrei somente os sóis do Planalto dos Metais, lançadores das luminosidades em Nesemix.
Havia dormido em uma das calçadas no centro da cidade. Não me recordava de qual maneira eu voltara a Nesemix. Mas carregava uma forte lembrança do rio Ojand e seus profundos arksibs. O rio acordara comigo.
Levantei-me do chão. O movimento em Nesemix começava a ficar intenso. Meu estado em geral não se encontrava estacionário. Ao caminhar não achei a direção correta. Leste, oeste, norte ou sul? O certo era que eu não possuía a certeza de querer ir atrás do rumo da minha casa liboririntática na rua Hesb.
Mesmo assim, um verdadeiro errante, sentia-me convicto dentro do inquagu que se iniciava. Convicto e jovem. Esquecido da minha própria idade vi os transeuntes se multiplicarem nas ruas ensolaradas de Nesemix. A idade não se perdera no tempo. Ela estava morando no interior do meu esquecimento. Passei a mão no rosto. A pele liboririntática me convidava a aproveitar o momento, o drunh, o presente.
Interrompi a marcha. Parei de me mover. Não sabia que rumo tomar. Achei melhor esperar a chegada das visões. Pouco tempo durou a estagnação. A curiosidade havia nadado comigo no rio Ojand e permanecera dentro de mim. Borbulhava-me inquietações. Precisava me pôr em movimento. Inserir-me na busca.
Tateando as paredes retornei à caminhada. As visões chegariam aos meus movimentos. Não encontrariam destino diferente.
Ao olhar para o alto da rua que me abrigara vi a via perpendicular ser tomada por pássaros de muitos tamanhos e múltiplas cores. Apressei-me a me misturar com eles. Inexistiam nessa via perpendicular onde os pássaros se juntaram veículos de qualquer espécie. Os pássaros formavam caleidoscópios. Giravam em meus olhares sem nenhum sinal de temporal. Tranquilos, afetuosos e expressivos eles deram-me a entender que eu deveria eleger um deles. Um pássaro em especial havia me chamado mais a atenção. Suas portentosas asas bordadas pelos brilhos solares foram a nave que escolhi. O eleito se aproximou de mim enquanto os outros pássaros se puseram a partir em voos semelhantes a uma fuga desordenada.
Partir... Fugir... Espíritos  de aves encarnados em corpos de metal. Ao subir no dorso negro do pássaro escolhido percebi presença de metal. A criatura subitamente chilrou e aumentou de tamanho. Grudei-me em suas penas filiformes de metal. Subimos ao céu.
Vista do alto Nesemix se preenchia na sombra gigantesca do pássaro robô hiper-realista que se comportava como um pássaro de verdade. Ao vê-lo em ação confiei que executava as manobras de voo pensando.
Fui conduzido a uma curta rua de um nocrith possuidor de altos prédios. Nessa rua existia apenas uma casa. Foi justamente nessa casa que o meu transportador alado me deixou. Quando a porta se abriu e eu entrei o pássaro trilou e foi embora efetuando o voo em espirais.
Ao pisar no primeiro cômodo da casa senti um agradável cheiro de alimentos em cozimento. Uma liboririntáquea idosa passou à minha frente correndo em direção à cozinha. Salivei. Não tive como visitar a origem do aprazível aroma porque uma escada estreita surgiu no meu rumo. Completei a subida. Vi-me diante de um freghtyl. Ele segurava o seu instrumento favorito. Fui reproduzido, gravado em uma freghtile. Pego de surpresa só uns três overebuts depois reparei que o freghtyl estava sentado em uma toinforebla.
RESOLC GHEAF, O FREGHTYL
- Modelo duoef, chegastes em bom momento porque Erfaxaj Gheaf, minha idosa mãe, prepara uma saborosa refeição. A vossa freghtile, duoef, ficou excelente. Noto pela mocidade da vossa pele liboririntática que o duoef alcançou o drunhoyd. Bem meu caro duoef por fim chegastes ao meu estúdio e laboratório que é esta casa perdida entre prédios. Sou Resolc Gheaf, o freghtyl. Claro que vós já ouvistes relato ao meu respeito. A vossa estada na minha casa não passará de um drunh.
Os aromas dos alimentos em cozimento se expandiram. Trouxeram-me lembranças de fatos, acontecimentos ocorridos na antiguidade e na modernidade. Havia sim escutado falar do freghtyl chamado Resolc Gheaf. Ouvi nos tempos outros do amor de Marlepixna Reap, a tobleanyl. A Toblealyc Reap apareceu nítida na minha mente.
A súbitas as paredes da casa, estúdio e laboratório de Resolc Gheaf se clarearam em brilhos. Agarrada a elas inúmeras freghtiles de pássaros metalizados compunham o cenário onde me encontrava. O freghtyl não era mais um afoito jovem liboririntáqueo repleto de chegadas e partidas imediatas. Ele me olhava intensamente. Eu sentia que Resolc Gheaf sabia da minha ida ao Porto 9, Lymberhem, e da minha estadia na Toblealyc Reap. Movimentou-se preso à toinforebla. Os reflexos espetaculares dos sóis desenharam em sua fronte figuras revestidas de penas cujos membros anteriores se transformavam em asas. Ao se dar conta da minha perplexidade o freghtyl disse:
- Estupefacto duoef, sou mesmo o freghtyl, o hóspede da Toblealyc Reap por quem Marlepixna Reap se apaixonou. Ela tenho certeza falou a meu respeito depois que o duoef viu e admirou o rosto quando jovem da tobleanyl na freghtile emoldurada pendurada na parede da toblealyc. É certo que eu também me apaixonei por ela assim como Marlepixna Reap se apaixonou por mim. Mas naqueles poucos momentos que a tive ao meu lado não me declarei, evitei penosamente que os meus olhos crescessem e nem estendi em pelo menos um drunh a mais a minha permanência no Porto 9 do rio Ojand. Arrependo-me de ter sido tão medroso diante dos enormes olhos da bela Marlepixna Reap. Assim mesmo nos beijamos. Depois que a beijei em silêncio e com desejo e que os sóis ininterruptos da Esfera Brilhante trouxeram o drunh seguinte fui embora sem me despedir. Depois de uma longa viagem ao chegar em Nesemix, por uma distração e por obra do acaso, fui atropelado por um veículo de solo desnorteado. Devido ao acidente perdi a função motora nas pernas. Desde então a toinforebla se tornou os meus passos. Nunca mais retornarei à Toblealyc Reap. Marlepixna Reap é para mim a minha melhor  lembrança.
Sentei-me ao lado de Resolc Gheaf. Não éramos gigantes. A saborosa refeição preparada pela idosa mãe de Resolc Gheaf foi servida. Fiquei hospedado no estúdio, laboratório e casa do freghtyl até que o novo drunh amanheceu.
- Resolc Gheaf, é certo que estou retornando ao meu planeta de origem. É certo também que voltar à Terra será mais demorado do que foi a vinda ao planeta Liboririm. No fundo da minha humanidade sinto e quero permanecer até o tempo impossível entre vocês liboririntáqueos.
O amanhecimento do novo drunh aconteceu sob uma tempestade que tinha ares de interminável.