80º DRUNH, INSEGOGU / A ILHA IMAGINÁRIA


Várias vezes acordei durante a noite. Em cada uma das ocasiões em que despertei fui à janela me certificar que Nesemix não saíra do seu lugar.
Voltava a me deitar e dormia um sono sem sonhos até abrir os olhos novamente.
Assim passei a noite. Assim ao acordar pela nona vez a janela me mostrou a rua Hesb sob a aurora rompida. Considerei até que os sóis cantavam.
Embora eu tivesse uma única carne senti que havia me transformado, pelo menos nos pensamentos, em dois Rúbio Talma Pertinax. Um deles vivia com saudades do palco do Teatro Dliwlimble, das falas dos personagens de Ludom Cnefi; o outro entendia que saudades não o levariam naquele momento nem ao palco nem à Terra e que era preciso seguir no tempo liboririntático.
Afastei-me da janela ensolarada. Estava convencido de que me harmonizara com o teatro liboririntático. Tê-lo encontrado me fez crer que eu continuaria estivesse onde estivesse à procura do meu grande trabalho.
Corri à janela ensolarada. A rua Hesb se erguia em quietudes experimentais. Não fui eu, aliás nunca soube quem criou essa rua ou quando e como ela surgiu. Desde que me instalaram em Nesemix em várias oportunidades atravessei a rua Hesb horizontal e verticalmente. Na maioria das vezes a percorri de maneira firme, ereta. A Hesb me alegrava. É uma rua privilegiada pela localização, presença de Eudaips e da mente dos liboririntáqueos.
Beijei a janela do meu quarto. Mostrei aos reflexos dos vidros libertados pelos metais as minhas mãos amanhecidas na coletânea de drunhs que os meus sentimentos reunira no tempo. Eu dialogava com esse tempo liboririntático tão propício às conversas.
Preparei-me para viver mais um drunh. Fazendo-me deslizar me movi pela casa. Visitei os seus cômodos. Abracei os seus aromas. Revelei-me às portas e ouvi as suas confissões. Passei por uma dessas portas e cheguei à metade da rua Hesb. Estimulado e preparado feito um togno em ação uma ideia veio à minha cabeça.
Virei-me veloz para o lado direito da rua Hesb. Desloquei-me depressa como se a felicidade tivesse colocando-me em comunicação com os brilhos solares de Eudaips. Lentamente entrei na ilha imaginária.
Rodeada por edifícios estilosos a ilha imaginária, habitada por um incalculável número de liboririntáqueos, dava-me a sensação de estar suspenso no ar sem voar. Ruas apinhadas de transeuntes se declaravam às fantasias.
Talvez todas aquelas coisas flutuantes não passassem de cenários e cenas de teatro. Mas nada me fez concluir que todas aquelas coisas flutuantes não eram componentes que se adicionavam à funcionalidade do meu tempo restante em Liboririm.
Mas sim! Pressenti que acontecia na ilha imaginária uma nova ordem das coisas. Era como se eu estivesse sendo plugado a uma tomada. Se aquela ilha imaginária me levasse ao planeta Terra eu não teria dúvidas em exclamar:
- Aqui com imaginação ou sem imaginação é a verdadeira casa da mãe Joana!
Mas não! O planeta Terra ainda estava muito distante de Liboririm.
Infiltrei-me cada vez mais nos orifícios daquela ilha. Impregnei-me com a balbúrdia local. De um momento para o outro desejei estar com a minha mãe. O meu querer me transportou a uma erthanallow primorosa incrustada nas grossas ramificações de uma inversa ou cenográfica árvore nascida ou colocada no centro do último andar de um dos edifícios mais altos da ilha imaginária. Usando os meus dedos iniciei a escrever uma carta à minha mãe. Quanto mais a escrevia mais a carta se distanciava do fim.

"Querida mãe,
Estou em Liboririm.
Hoje queria dormir mais cedo...
Além de estar morando tão longe ainda faço teatro...
Tento colocar em prática o que a vida sempre me disse...
Meu subconsciente não merece aprovação nem reprovação...
Procuro por objetos perdidos...
Quero tentar realizar coisas extraordinárias...
Sei quando regressarei à Terra...
Ignoro quando estarei em seus braços...
O fim não pode ser um sonho..."

Meus dedos se cansaram de escrever. Parei de inventar amor para a minha vocação de escritor. Arreceei-me em ficar apegado àquela erthanallow maravilhosa até que alguma Hetrotadem se anunciasse. Dobrei as palavras da carta. Coloquei-as no vento romanceador e deixei que a carta se fosse.
Haveria de existir na ilha imaginária pelo menos uma janela de fuga ou uma saída na estreiteza duma porta. Esforçar-me-ia para atravessá-la.
Não parava de correr. Notei que os liboririntáqueos da ilha imaginária não gostavam de dar graças a Eudaips e muito menos serem prudentes com os abduzidos.
- Será que eu falo tudo o que penso sem pensar no que estou dizendo? -indaguei-me.
O certo era que eu não corria porque buscava respostas. A minha vontade apenas era a de encontrar a saída daquela ilha ou ser encontrado por um liboririntáqueo real que não me impedisse de examinar as minhas verdadeiras intenções.

"Querida mãe
Será que estou na cidade de São Paulo?
Hoje queria acordar mais tarde...
Além de estar morando tão perto ainda faço teatro..."

Meus sonhos não eram tão obtusos quanto a minha história liboririntática. Ou a minha história liboririntática não é tão obtusa quanto os meus sonhos?
- E se esta ilha imaginária for...
Realmente era! Aquela ilha não passava de um amontoado de cenários pertencentes ao Teatro Dliwlimble em processo de recolhimento. Cenários de antigas peças teatrais produzidas pelo Dliwlimble.
Se eu me atentasse a isso antes e se eu estivesse no planeta Terra poderia exclamar sem dúvidas:
- São cenários de carnavais passados!
As portas se revelaram e confessei-me a elas. Por uma porta cheguei à metade da rua Hesb. Estimulado e preparado feito um togno uma ideia veio à minha cabeça.
Lento percorri o restante da rua Hesb. Andei como se a felicidade tivesse colocando-me em comunicação com os brilhos solares de Eudaips. Vi-me diante do Teatro Dliwlimble. Praticamente eu estava dentro do Teatro Dliwlimble.
HERMEX ISUM, O PYPEEL
- Expansivo duoef, fostes vós o togno que interpretava o justiceiro Autum Tiped?
- Era eu sim! Smokt Judxeid, o tognonomoj, é quem o interpreta agora.
- Imaginativo duoef, compreendo. Bem, vou continuar a carregar esta notável erthanallow. Precisei arrancá-la à força das ramificações de uma Árvore Inversa cenográfica. Bem, como pode ver sou o pypeel. Meu nome é Hermex Isum. Compreendeu?
A sede e a fome embora fossem em Liboririm reduzidas fizeram parte das minhas correrias na ilha imaginária. Por isso entrei no Azanytwa. O bys-har estava vazio no início daquela tarde. Eu precisava beber algo e me alimentar.
Sede e fome levados à saciedade retornei para a frente do Teatro Dliwlimble. Misturei-me aos liboririntáqueos reais e curiosos que assistiam Hermex Isum trazer dos porões do teatro os múltiplos e antigos cenários que ainda seriam usados em fantásticas peças do futuro.