Inteligente, sensível e próximo das artes o stwolkc ao falar em teatro me fez entrar com os seus dizeres e trejeitos no mundo particular que desistia de viver nos meus pensamentos e sentimentos como uma forma de retorno aos vazios e às serenidades, aos azuis das amizades e aos aniquilamentos dos temporais.
Mais uma vez em Liboririm as lembranças do meu pai me procuraram. Eu iria sim ao teatro. Faria o meu horizonte de acepções. Mas antes, talvez movido pelas jivecs do Bys-har Azanytwa, precisei fazer duas empreitadas.
A primeira tarefa iniciei a fazê-la com tamanha naturalidade que me pareceu, enquanto revelava a Ajna Ajyx algumas das minhas lembranças, ser o meu pai uma comoção.
- Ao comunicar o meu pai sobre a concretização da minha matrícula na Escola de Teatro ele não se assustou nem fez expressões faciais de aceitamento. Continuou colocando os sapatos nos seus pés. Depois dos cadarços amarrados levantou-se do sofá e foi trabalhar. As aulas de teatro começaram. Sentia que a minha escolha estava correta. O tempo passou. Chegaram as festas de fim de ano. Meu pai me perguntou qual presente gostaria de ganhar no Natal. Pedi-lhe um livro. Anotei o título e o nome do autor. Expliquei-lhe sem muitos detalhes do que se tratava o livro. Meu pai não produziu aplauso nem discordou do meu interesse. Colocou a anotação no bolso da calça e continuou amarrando os cadarços dos sapatos. Depois levantou-se do sofá e foi trabalhar. Na noite de natal me presenteou A Preparação do Ator, de Constantin Stanislavski. Chegou a escrever uma dedicatória na primeira página do livro. Era na Terra o ano de 1977.
A segunda tarefa seria dormir. Bebi outra jivec e me despedi de Ajna Ajyx.
- Aluno duoef, despedir por qual motivo se os sóis não nos abandonam?
Fora do bys-har acelerei os passos prometendo-me um sono profundo e ao acordar iria ao teatro relatado pelo stwolkc que demoraria a arredar os pés do Bys-har Azanytwa.
Meus olhos se fecharam. Segurei com força um dos travesseiros. Cumpri a promessa. Dormi profundamente.
Quando acordei, e passava do otyem-drunh, quebrei o jejum. Alimentado me vesti para retornar às ruas de Nesemix.
Rodei na cidade sob os brilhos solares. Sempre fui para Nesemix um pássaro. Nesemix me oferecia a afeição real liboririntática. Trazia-me por algum tempo a recordação do meu pai e me possibilitava andanças fenomenais.
Passei à frente do movimentado Bys-har Azanytwa. Logo achei a rua comprometida com a subida. Fingindo-me veloz caminhei por essa rua até me deparar com os andaimes externos do imponente Dliwlimble. Emocionado entrei no teatro.
Logo ouvi ruídos na solidão duradoura que tentava me seduzir. Fui além dos andaimes internos da casa de espetáculos. No palco encontrei a origem dos ruídos.
- Artista duoef, chegastes no horário da primeira leitura dramática da peça que iremos ensaiar, encenar e estrear nos próximos drunhs. Vamos duoef, pegue sobre a mesa o seu texto. Sou Moeth Touc, o togno. Na verdade sou um dos tognos que interpretará assim como o duoef a bela história de amor escrita por Ajna Ajyx, expoente vivo do teatro liboririntático.
Posicionei-me ao lado de Moeth Touc. Segurei com curiosidade o texto da peça. Arrepiei-me ao ler o título da obra: Ludom Cnefi.
- Por Eudaips, sinto-me um ugnal. Aprenderei o liboririnkes. Pouco a pouco serei capaz de ver o que é invisível. Andarei sem coxear. Não serei veloz demais comigo mesmo. Falarei de maneira que todos possam me escutar e me entender. Ajna Ajyx me informou da existência do Teatro Dliwlimble. Nada me disse, no entanto, sobre ter escrito uma peça de teatro chamada Ludom Cnefi. Ou me disse? -pensei em murmúrios.
Mouth Touc se levantou. O palco era grande. A mesa era redonda. Ouvi as vozes dos outros tognos. Não os enxergava. Como sempre a minha adaptação aos momentos liboririntáticos era perfeita. Flagrava os meus sentimentos em desespero e logo como se tudo não passasse de fantasias me sentia conectado à realidade.
Moeth Touc deu início à leitura da peça. Nas primeiras cenas compreendi que Ludom Cnefi significava A Boa Sorte. A história escrita por Ajna Ajyx se passa em uma Nesemix mais futurista do que para mim Nesemix era. Conta a história de amor entre o justiceiro Autum Tiped e Iva Dnalg, uma nesemixiana abalada pelo sequestro dos seus entes queridos por uma nave guywalamiana. Iva Dnalg, apaixonada pelo justiceiro, deseja a boa sorte a Autum Tiped em sua empreitada. Ele vai ao planeta Guywalam para resgatar os liboririntáqueos sequestrados. O retorno de Autum Tiped e dos resgatados a Nesemix se torna um drama repleto de conflitos existenciais liboririntáticos que atinge o seu ponto máximo na fala final da trágica e licenciosa personagem Iva Dnalg.
- ...sabeis vós a verdade por mim querido da minha alma. Não permitais que vossos sentimentos se deixem invadir por ilusões e maldades. Sabeis vós por mim verdadeiro amor do meu corpo e da minha alma em chamas que mesmo que a vossa coragem se afastar da minha existência continuarei a vos amar como jamais amei e amarei alguém. Vós Autum Tiped lutastes em Guywalam! És um herói! Salvastes a clã Dnalg por amor a Eudaips, a Liboririm. à justiça e a mim. A verdade que procuras é a cristalinidade, não é a escuridade. Eu, Iva Dnalg, sou um stwolkc! Eu, o stwolkc, vos amo intensamente. Se vós ficareis comigo ou não deixou neste momento de ser uma questão de pergunta e de resposta...
Várias vezes lemos e relemos Ludom Cnefi.
A noite entrou pelas brechas do Teatro Dliwlimble. Envolveu-nos. Transmitiu-nos as compreensões progressivas dos subtextos, intenções e inflexões da obra de Ajna Ajyx. Os entendimentos dos estados motivacionais dos personagens me transportaram com vigor aos sóis de txetagu, o meu setuagésimo sexto drunh em Liboririm.
