O brilho das estrelas, o estrondo do trovão, o estampido do ardor e o inesperado entusiasmo da força amorosa dentro de mim provocaram rajadas de vento. Flutuei me misturando aos ares dos amores passados e dos amores presentes. A intensidade do vento parecia mexer com a fixidez dos drunhs agarrados no tempo. Era como se uma campainha soasse na minha mente me informando que o retirar-se, o ir-se embora de Marbcifm, a Cidade dos Amores, não me extrairia os futuros amores.
Algo me fazia apreciar o nachayran. A porta do brinquedo transportador se abriu. O voo me faria ocupado. Calculei ser a apreciação o meu trabalho. Quando parei de flutuar entrei no nachayran. O meu coração me observava como se eu fosse, além de passageiro, um novo satélite, um procurador de almas e corpos nascidos no mesmo instante gerador da partida do nachayran.
Sem hesitações apossei-me de um dos assentos. Tinha certeza que a viagem de volta ao tshilafosnymit não representava o meu prematuro fim. Liboririntáticos ou não, outros amores viriam me fazer permanecer na onda agitada, opositora da onda ômega.
Os pensamentos se calaram porque as emoções foram mais fortes do que eu. Conversava comigo mesmo. Os olhos se declararam à beleza espiritual do nachayran. O brinquedo girava em alta velocidade em torno de um eixo de simetria. Os giros exerciam a função de direcionar o nachayran para a região onde se situava o tshilafosnymit. Pelas aberturas pude ver os sóis, as estrelas. Nos momentos da viagem que o silêncio reinou absoluto busquei pelos vãos do nachayran outros planetas. Devo ter encontrado bilhões de planetas. Ao caçá-los não me importava mais com os amores perdidos, os amores atinados.
Os sentimentos me diziam que eu estava sozinho no nachayran. Feito um sopro apoderei-me de todos os assentos. Não tinha certeza que a viagem de volta ao tshilafosnymit representava o meu prematuro início. Liboririntáticos ou não, outros amores talvez não viessem me retirar da onda conclusiva, oponente da onda alfa.
Princípio e fim fizeram os pensamentos retornar às emoções. Seguia na normalidade do percurso quando de um overebut para outro overebut ouvi ruídos e sussurros que me alçaram.
Ao me ver fora do assento preparei-me com sentimentos e pensamentos para executar a minha primeira pesquisa exploratória do nachayran. Qual caminho deveria escolher? O princípio? O fim? Alfa ou ômega?
Os ruídos mudaram de rumo e se tornaram estrondos. Os sussurros não se disfarçaram e converteram-se em estampidos. Ambos, estrépito e estouro, provinham da última fileira de assentos. Encaminhei-me ao fim do nachayran. Deparei-me com um ser de outro planeta. A criatura não era terráquea nem liboririntáquea. Ao me aproximar do nfysnzarrim reajustei as minhas ideias anteriores. Acreditava agora que as ondas alfa e ômega estavam encarnadas no alienígena que ele era e no alienígena que eu desejava ser.
- Meu nome é Rúbio Talma Pertinax. Sou do planeta Terra.
- Meu nome é Aksd Loqw. Sou do planeta Nfysn.
As emoções se calaram porque os pensamentos foram mais fortes do que uma simples comunicação identificatória. Abri-me aos pensamentos do nfysnzarrim. Em sua mente e alma encontrei a paz que o mundo terreno não admite. Sei que beira o delírio, mas Aksd Loqw poderia ser ao mesmo tempo meus antecessores, meus avôs, meus pais, meus filhos, meus anjos. Nele descobri a queda e a proteção. Em minha mente aconteceram luzes vestidas de sombras e sombras fantasiadas de luzes. A viagem a Marbcifm poderia ter sido uma metáfora. Retornar de Marbcifm jamais seria a transferência para um campo de ação que não fosse o tshilafosnymit. Até porque Eudaips, o Conselho Esclabrim e os anjos do Vale das Pressagias sabiam que Nesemix ainda era o meu sentido próprio. Todavia faltavam-me o algo, o sentido figurado, o alguém. E este ato ou efeito de faltar tão presente no meu futuro significava com exatidão liboririntática o que eu sou.
- Além do seu planeta e do seu nome quem é você? -perguntei ao outro passageiro do nachayran.
A resposta tão esperada penetrou no silêncio de Aksd Loqw. Minha mente e alma levaram os meus olhares para longe. Pode ser que no silêncio eu tenha escutado e decifrado o essencial da resposta do nachayran. Não me lembro se o silêncio era a linguagem natural do outro abduzido.
Eu e Aksd Loqw éramos abduzidos. Estávamos em Liboririm por nossa aprovação. Ao sairmos do nachayran era provável que nunca mais nos veríamos. Começamos por mímica a estabelecer relação. A viagem de volta ao tshilafosnymit nos alfabetizou, ensinou-nos uma linguagem mimetômana.
- Rúbio Talma Pertinax, o planeta Nfysn é lilás.
- Aksd Loqw, o planeta Terra é azul.
Em Marbcifm as nossas juventudes se entregaram ao tempo e aos amores liboririntáticos.
Fizemo-nos adultos sem que houvessem perdas totais das juventudes.
- Aksd Loqw, a onda ômega é Terra.
- Rúbio Talma Pertinax, a onda alfa é Nfysn.
Retornei ao assento. As luzes do tshilafosnymit surgiram no horizonte. Senti que o nfysnzarrim ficara nos meus olhos e na minha mente. O nachayran parou aos poucos de girar. Procurei Aksd Loqw na última fileira de assentos. Ele não se encontrava mais no nachayran e talvez em nenhuma parte de Liboririm.
Comecei a flutuar. Saí do nachayran. Atravessei o tshilafosnymit e passei para fora dos seus domínios. Chegaria à minha casa liboririntática, rua Hesb, em pouco mais de 15 overebuts.
Era noite em Nesemix. Uma espantosa e longa noite sem estrelas.
