34º DRUNH, TURAYDO / O VASTO NOVO MUNDO

O tromert tardou a vir.
O meu corpo não mais se apresentava cansado, derreado, desancado, silencioso. Como se um espírito protetor houvesse me mostrado o melhor caminho, o meu corpo estava falante, descansado e alimentado pelas energias terapêuticas das Cadeiras Esaris e pelos momentos contemplativos que passei à espera do tromert.
Entendia-me vivo parecido com um cão. Em Liboririm, a solidão tornava menos próximo o nada. A Esaris na qual eu estava sentado mexeu-se. Assustei-me com as gotas sudoríparas que escorreram na minha nuca.
Rugi a pedir aos nove sóis de Liboririm que me levassem ao vasto novo mundo existente sob eles. A plenos pulmões clamei, chorei. Suores e lágrimas formaram aguadas nos pensamentos. O leão que eu me entendia saciou a sede nas fontes naturais do itinerário do tromert à nudez da minha alma. Bebi as águas das boas vertentes ao lado do touro que eu me sentia. Vivo me levantei das Cadeiras Esaris ao vê-las imprimirem movimentos de despedidas.
Deliciei-me com os sóis. Eles me tranquilizaram. No momento em que rugia eu mugia solicitando aos astros a conjugação de esforços que adicionada ao tempo e ao espaço resultasse no reencontro com a minha casa liboririntática porque o meu rosto retratava um ser humano saudoso de aconchego e acalanto.
Vibrantes, em processo avançado de desmaterialização, as Cadeiras Esaris, partículas interagindo com antipartículas, transformaram-se em energia. As cadeiras desapareceram no instante em que a sabedoria da natureza me fez voar feito uma águia destinada a empurrar os ventos contra as ansiedades, os pânicos e os delírios.
As luzes sonoras e os sons iluminados foram os meus últimos descansos no passado das Cadeiras Esaris. Quanto mais o leão, o touro e a águia se distanciavam dos sóis mais o tromert parecia estar perto do vir.
Faíscas se ejetaram dos trilhos. Sobre as duas paralelas barras de zaztut o tromert abriu as suas portas. Entrei no último vagão. Nada, nem as palavras catalisadoras que me erguiam até as palavras temáticas, poderia desfazer, impedir o percurso do tromert. As portas se fecharam. Não desejei ficar parado no mesmo lugar.
Percebia as sensações interativas. Admirava e compreendia o fato de eu estar cercado por liboririntáqueos invisíveis. A razão da invisibilidade era porque a minha conexão com o planeta Liboririm se efetuava por eu não poder ver os seus habitantes agrupados em profusões de sempre.
Quando ocupei um dos assentos do último vagão aconteceu algo fantástico: o tromert começou a se movimentar acelerado. Eu me vi dividido. Uma parte de mim se recusava a Hetroaa; a outra parte aceitava a Hetrotadem.
- Evanescente duoef, devido à velocidade agarrai-vos nos metais do tromert. O regresso à moradia poderá ser cansativo se a viagem se estender em demasia. O tromert será veloz se o tempo não se ocupar somente com o próprio aspecto.
- Quem estar a me dizer tais palavras? -ininterrupto me perguntei enquanto os meus olhares giravam no interior do tromert.
- Descarnado duoef, sou eu quem vos fala. Estou ao vosso lado. Tende vós fé em Eudaips. Sem assombros vós me vereis! Hoje eu sou o fantasma de quem fui ontem. Chamo-me Coram Etfix e se a Hetrotadem não tivesse em mim vivido eu ainda seria o condutor do tromert. Para Eudaips todos os seres do Universo vivem.
Não desejando ficar sozinho levantei-me. Ofereci e servi a Eudaips a minha fé em suas realizações. À medida que me convergia plenamente para o centro da união, comunhão das minhas duas partes antagônicas enxerguei o anjo ou o extraterrestre, aparição imaterial de Coram Etfix. Branco e maravilhosamente sólido o fantasma do condutor de tromert me preencheu de afagos. Minhas duas partes numa totalidade orgânica já não podiam mais se separar uma da outra.
- Não quero me destruir! -gritei.
A velocidade do tromert mais ainda aumentou, e agarrada ao meu grito num súbito fogo se diluiu.
- Eurrítmico duoef, talvez eu não devesse estar aqui no tromert, mas o fato é que estou! Seu retorno à casa da Rua Hesb é infalível. Não tenha medo...
- Por que temê-lo?
O tromert parou. As portas dos vagões se abriram. Compreendi que era a hora de sair daquele comboio do sistema de transporte urbano liboririntático. A viagem terminara. A minha casa reformada me esperava. Do lado de fora da escuridão os sóis de Nesemix iluminavam o vasto novo mundo.