19º DRUNH, SETERGU / LÍQUIDOS SEQUENCIAIS

Saí do habateni. Meus rins segregaram o líquido excrementício com falta de temperança. Urinei em grande quantidade e por muito tempo. O bys-har me agradava. Retornei ao balcão e pedi a terceira jivec.
- Estar em outro planeta não significa encontros com batalhas estrelares, vilões perversos que executam piruetas mirabolantes para invadir um outro planeta. Também não se constitui na tradução de se ater a mocinhos peritos em salvamentos. -estabeleci esta proposição para os meus pensamentos assim que aceitei ser abduzido por Rumbo Lone.
Desenvolvia-se em mim uma sequência de encontros dotados de cenários fantásticos e personagens reais providos de uma lúdica e desvairada existência nos confins do Universo.
A cada drunh vivido em Liboririm minha humanidade se remexia. Ora tentava se prevalecer nos conflitos e dramas que me eram apresentados; ora se extinguia nos improvisos que eu fazia no intuito de que as minhas adequações à maneira liboririntática de viver não me causasse desconforto.
Quando no 18º drunh Godigodi Osu falou-me que estava partindo para as árvores das margens do Rio Ojand desejei me pôr a caminho com ele. Quem sabe eu seria também um nubagan...
Foi tudo tão veloz que nem estranhei a sensação osmótica que tive ainda com os pés grudados naquela aconchegante esquina formada pelas ruas Koaat e Cramenyl. Passou-me pela mente um líquido morno. Esta sensação agiu como se dissolvesse um solvente em meu corpo eliminando várias substâncias.
Minhas mãos foram puxadas por nove mãos ajoelhadas. Sem decifrar os movimentos porque um enorme sentir se apossou do meu íntimo não pude saber se andei, voei, naveguei. Lágrimas se verteram. Exprimiram ode à tristeza que mergulhava em alegrias. Ao mesmo tempo a noção de deslocamento me fazia acreditar que sorrisos se expandiam conduzindo-me a um odeão que abrigava uma ópera triste.
Aos poucos a névoa seca foi embora. Meus olhos se desembaçaram. Constatei a presença do Rio Ojand e das árvores fabulosas.
- Godigodi Osu, você se encontra por aqui?
Dessa vez o silêncio não reinou absoluto. Escutei os sons nítidos da correnteza do rio. A luminosidade também estava presente. Os sóis se refletiam nas águas do Ojand brindando as árvores com cores deslumbrantes.
- Godigodi Osu sinto que você não se encontra mais por aqui! -respondi a mim mesmo sem relevar o mistério de como cheguei às margens do Rio Ojand.
O rio era comprido. Possuía uma extensão que eu não conseguia imaginar. Godigodi Osu poderia estar tão longe naquele momento que achei mais acertado e sensato deixá-lo seguir para mais adiante ainda. Esta decisão agiu como um sudorífero. Transpirei feito um porco escaldado no telhado. Pela primeira vez senti o ferro e o fogo provocado pelos sóis do Planalto dos Metais. Protegi-me nas sombras das árvores. E a elas supliquei que me levassem de volta a Nesemix.
Minhas súplicas devem ter chegado às nuvens porque as partículas de água em suspensão se escureceram e a tempestade atenuou a quentura. Os sóis se esconderam detrás das nuvens carregadas. O vento de rajadas ensenhoreou-se de mim. Levantou-me do chão. Minhas intensidades aumentaram e diminuíram desordenadamente. Assim que a tempestade alimentou a garganta do Rio Ojand o vento se acalmou e se mostrou favorável ao caminho que eu desejava seguir.
Dessa vez tive certeza de que voei. E foi sobrevoando o rio que vi nove liboririntáqueos ampliados no palco do teatro da mente. O primeiro deles, ajoelhado com os olhares no rio, vestia-se com uma túnica cor-de-rosa. Um outro caminhava a olhar para o infinito das árvores. Havia um liboririntáqueo, também ajoelhado, que usava uma boina branca. Ao seu lado era a vez de um liboririntáqueo negro estar em cena. Nas solas dos seus pés cruzavam-se varas parecidas com bambus. O quinto liboririntáqueo se vestia de azul e na sua cintura se amarrava um arco-íris. As quatro figuras restantes eram liboririntáqueas. Também ajoelhadas traziam enrolados na cabeça um pano branco. Olhavam para o rio como se esperassem a chegada de um vaioby.
Quanto mais a certeza de estar voando crescia em meus pensamentos mais os nove liboririntáqueos se juntavam à imensidão do Rio Ojand como se o módulo se acoplasse com a nave. Então, outra vez, tive a sensação de um líquido morno atravessando a minha mente. As mãos tocaram de leve na superfície de lolesboquias ainda úmidas. Os pés se fixaram no chão.
Havia retornado à cidade de Nesemix. Tinha sede. Encontrei em uma das ruas perpendiculares à Rua Hesb, bem próximo à casa onde eu estava morando, um bys-har. Entrei no Bys-har Honinas e pedi ao tabalon uma bebida fermentada chamada jivec. Trespassada de frio a jivec me refrescou.
- Matei a minha sede! -exclamei pensando.
A figura de Zoer Rabrim, o tabalon, bem penteado e usando um avental azul me trouxe Godigodi Osu à memória. 
Ficou-me a impressão de ter o tabalon escutado o meu pensamento exclamatório. Trouxe mais uma garrafa de jivec. Aproveitou-se da nossa proximidade liquefeita e me disse:
- Não perca de vista, fluído duoef, o seu ponto de partida!