Sob as densas nuvens os sons das sirenes vasculhavam os recônditos mistérios das ruas da cidade de Nesemix. Ao ouvir as propagações sonoras eu me transportava mentalmente aos estridentes sinais dalgum perigo. Em Liboririm não existe mar, portanto eu abandonara os alvoroços das aproximações dos navios. Preferia acreditar que entre os alarmes haveria de ter sons procedentes de fábricas anunciando o término do expediente.
A tarde se encostava na noite. Minha residência se localizava na Rua Hesb. E era na minha casa que eu me encontrava desde quando sai do Noturno Cerne do Desejo. Logo que cheguei em casa fechei as janelas. Dormi não sei calcular o tempo. Acordei com os barulhos das sirenes. Movimentei-me sob o edredom. Percebi, apesar do meu estado de quase abandono, um líquido quente, viscoso e vermelho se espalhar na superfície do meu corpo.
- Sangue!? -proferi a legenda do meu tormento, minha ferida.
Levantei-me com a rapidez de uma animal em fuga. Um urso com cabeça de touro passou no corredor. Assustei-me. Desnudando-me no vermelho corri ao banheiro. Enfiei-me na banheira branca. Lavei-me no mar inventado pelos meus pensamentos. A banheira se traduziu uma embarcação no mar purpúreo das chegadas e partidas. Na parede se desenhou a árida realidade: carcaça da cabeça de um urso com corpo de touro.
Retirei a tampa do escoadouro da banheira. Diluídos e misturados a água e o sangue foram embora pelas tubulações dos sentimentos. Não tinha como negar que a Hetrotadem de Zanlog Romua, o corretor de imóveis, e a ausência da ningeifaxa Andrim Herdzana me causavam estonteamentos, perturbações, aflições. Meu ser sofrente desejou sair a esmo pelas ruas de Nesemix. Achei que uma caminhada me traria de volta o equilíbrio.
As sirenes silenciaram quando a Rua Hesb se projetou sob os meus passos. Movido pelo silêncio percorri um trajeto improvisado. Sem certeza se havia um rumo certo a tomar atirei-me adoidadamente aos trajetos da memória. Recolhendo sinais, ícones, intuições, detalhes não esquecidos fui parar na calçada frontal do Hospital Tsahto Solex. Com ímpeto fiz sair do vértex da cabeça e da fundura d'alma um grito que me fez definitivamente parar de sangrar.
- E agora Rúbio Talma Pertinax?
Nada me respondi. Lembrei-me de Grody Acin, o ancião do Conselho Esclabrim, e de Vehjeh, o anjo filósofo. Almejei a paz. Orei a Eudaips. Investiguei com o olhar o sentido da rua do Hospital Tsahto Solex. Prossegui na caminhada. O esmo se atenuou. Perdi o hospital de vista. Com os drunhs passando deixaria de reter na memória o Noturno Cerne Do Desejo. No mesmo infinito do tempo me deparei com uma esquina. Senti-me convidado a sentar no meio-fio, um degrau, uma lolesboquia e descansar. Pousou-me o sossego. Parecia até que havia me sentado em nuvens.
No meio da noite me levantei da pedra, uma nuvem, e vi um vulto se aproximar da imensa árvore metalizada que abastecia de sombras aquela esquina aconchegante. Provoquei ruídos batendo os meus pés no chão. Os ruídos trouxeram em correria a presença de Eson Wisoj. O vulto se afastou da árvore. Veio se sentar ao meu lado. Sem ser remédio, mas instantâneo feito um remédio de efeito imediato, foi logo me dizendo:
- O absorto duoef com certeza não sabe quem sou. Pois lhe digo e juro pelos meus equipamentos de proteção que meu nome é Eson Wisoj e que sou um deproide.
- E o que fazes por aqui nesta noite que já se vai longe?
- Eu estava no interior da Nautiq avaliando os caminhos para se chegar à transformação. Pois lhe digo e juro pelas minhas ferramentas que serão necessários pelo menos uns 17 drunhs para completar a tal transformação.
- Então a Nautiq está em péssimo estado?!
- Por vários konasts a Nautiq ficou abandonada. Agora o Governo Liboririntático resolveu transformá-la em um Cengni Hoster. Pois lhe digo e juro pelo meu ectac que Nesemix será agraciada com outra fabulosa obra da Construção Civil liboririntática.
- Tenho certeza que sim! Se o deproide está vindo da Nautiq eu gostaria de saber para onde o mesmo deproide estava indo antes de se sentar aqui comigo nesta lolesboquia.
- Não obstante as suas tristezas, curioso e penitente duoef, eu estava indo ao encontro de Cadria Imis, minha esposa, que me espera no novo Cengni Hoster de Nesemix, que foi inaugurado na última samenoa. Tomou o lugar da desamparada Nautiq. Pois lhe digo e juro pela minha heclordae deproide.
