A ABDUÇÃO
-Não estou vendo nada de terrível nos resultados dos seus exames. Retorne daqui um tempo. Não tenha medo de tocar a vida.
-Obrigado doutor. Então até daqui um tempo.
O médico me acompanhou até a porta da sua sala. Ao passar pela área de espera acenei para a irmã do cardiologista. Sílvia Nique trabalha como recepcionista do consultório.
Dentro do elevador pensei em beber um refrigerante no primeiro bar que encontrasse na Rua Mato Grosso. Assim aconteceu. Sorvi em longos goles a Coca-Cola tentando não me remoer com negativas ideias e sentimentos. Naquele instante eram 18h30 na cidade de São Paulo.
Mas estando quase dentro dos cemitérios da Consolação, dos Protestantes e o da Venerável Ordem 3ª de Nossa Senhora do Carmo senti a necessidade de falar comigo mesmo que a morte é tão fundamental e essencial quanto a vida. Depois que saí do bar entrei na Rua Sergipe e atravessei a Rua da Consolação. Prossegui no meu destino caminhando pela calçada do sentido Centro.
Eu havia marcado um encontro com um amigo em um restaurante localizado no piso dos cinemas do Shopping Frei Caneca. Pretendíamos beber um vinho e jantar uma suculenta picanha suína. Manfredo Carlim queria conversar comigo sobre o seu relacionamento com Elisabete. A esposa, quando recolheu as roupas para serem lavadas, por acaso encontrou no bolso de uma calça do marido um recibo referente à compra de flores. Ao indagá-lo ficou sabendo que as flores foram compradas na floricultura ao lado do posto de gasolina onde costumava abastecer o carro.
-Elisabete, as meninas que atendem lá no posto de gasolina, as frentistas, são tão legais que me deu vontade de comprar flores para elas.
Elisabete ficou uma fera. Mordida pelo ciúme fechou a cara e tudo mais para o marido comprador de flores, que me enviou e-mails, procurou-me nas redes sociais, ligou-me. Marcamos o encontro.
Assim que cheguei à esquina da Rua Dona Antônia de Queiroz o semáforo da Rua da Consolação avermelhou-se. Um carro idêntico ao carro de Manfredo Carlim parou ao meu lado. A janela do veículo se abriu e lá dentro estava o meu amigo convidando-me a entrar rapidamente no Hyundai Sonata, cor prata.
-Que puta coincidência danada! -gritei-lhe.
O cinto de segurança se cruzou no meu tórax. O semáforo se tornou verde. Manfredo Carlim sorriu de maneira enigmática. Nunca o tinha visto sorrir assim.
-E a Elisabete melhorou o trato com você?
Atento aos movimentos do trânsito ele não me respondeu insistindo naquele inusitado sorriso difícil de compreender, interpretar.
De repente, o motorista desobedeceu as orientações vindas do navegador GPS que tinha a voz do Tio Patinhas. O carro desenhou uma virada brusca para a direita ao invés de uma virada suave para a esquerda. O meu celular vibrou e começou a reproduzir a música Eclipse, Pink Floyd. No visor li atônito que a ligação era de Manfredo Carlim. Rápido, antes que eu desmaiasse, ainda consegui atendê-lo. Depois do meu alô perplexo não ouvi mais do que estas nove palavras:
-Sou eu Manfredo Carlim. Vou me atrasar para o...
O condutor do automóvel prateado esticou o braço. Seu braço era colorido, achatado. Colocou sua mão mutante sobre o meu peito. Perdi os sentidos.
Ao me recobrar estava dentro do carro parado em uma estrada de terra cercada de ramagens e pedras. O silêncio brincava com o vento. As estrelas corriam pelo céu atrás da lua. Assustado e confuso vi quem eu pensara ser Manfredo Carlim se transformar em outro ser, um feixe de luz, uma criatura alienígena. O Hyundai Sonata se transformou em um disco voador.
-Rúbio Pertinax, habitante do planeta Terra, bem vindo à ALAOT-143. Meu nome é Rumbo Lone, o abdutor. Devo transportá-lo em segurança a Liboririm desde que você aceite ficar em meu planeta por 155 drunhs, o que equivale no tempo da Terra a 1008 períodos de 24 horas ou sejam: 2 anos, 8 meses e 4 dias.
Em linhas pontilhadas o desespero se infiltrou no meu medo que mesmo assim começou a me abandonar. Das ramagens e pedras ao redor da estrada de terra senti a perplexidade se converter no aroma das descobertas que se espalhou pelas flores, insetos, frutos e pedras. Imaginei grinaldas esvoaçantes ao me despedir dos compromissos agendados com o casamento do ócio com a minha inutilidade. Tracei com arabescos a coragem que me invadia de trocar de vida, de tocar a vida. Procurei ficar o mais próximo possível de Rumbo Lone. Com a voz sem medos, crueldades e dilemas informei ao que se identificara como abdutor o meu aceite.
DESPRENDIDO DA ÁGUA E DA TERRA
-Mesmo se eu pudesse retirar de dentro de mim a vontade de ir embora da água e da terra eu também te responderia sim. Não te escondo o meu desespero infiltrado no meu medo. O desejo de ir ao seu planeta é forte. Chega a ser rude.
Rumbo Lone não retirou os seus olhares das minhas palavras ruidosas. Seus imensos olhos me atraíam. Puxavam-me os músculos tensos. Senti o relaxamento proposto pelo abdutor. Esquecia-me pausadamente da picanha suína e do vinho que eu e Manfredo Carlim agendamos para a noite. Procurei um adjetivo que combinasse naquele momento com aquela noite. Relaxado e veloz tentei sonorizar o adjetivo conseguido. O silêncio, frequência clássica na minha alma, parecia querer se desgrudar dos meus princípios espirituais. Por um momento meu coração me confessou curado pulsando em imortalidades. Rumbo Lone como se soubesse das outras palavras que passavam na minha mente disse-me com a voz e os trejeitos de Manfredo Carlim:
-A melhor palavra a ser usada para definir esta noite é o adjetivo salvadora.
Agarrei-me à barra metálica entre o meu assento e a porta. Agarrei-me ao metal porque o objeto discoide no qual me encontrava começou a subir rodopiando no ar, descrevendo círculos sobre círculos. A sensação de estar segurando uma criança apareceu-me nos meus sentimentos perplexos que em corrupios ligeiros me fizeram penetrar nos círculos. Imagens me tomaram vindas das alturas, sonhos, loucuras.
A primeira visão foi a da praça de alimentação do Shopping Frei Caneca. De relance avistei a fachada transparente do restaurante onde eu e o marido de Elisabete iríamos nos encontrar. Quase todas as mesas, envoltas em sonoridades desiguais, estavam ocupadas. O interior do restaurante parecia um castelo medieval. Cavaleiros, escudeiros, mulheres nobres, mulheres de má fama, rinocerontes e flores se movimentavam na plataforma da sorte da vida. A cada sílaba e cada vez mais alto encontrei com os ventos sobre os andaimes das ampliações das paisagens.
Depois que os ventos desapareceram como se tivessem sido sugados pela imensidão do universo pude gozar da segunda visão: um céu repleto de fios elétricos, postes e coqueiros ao lado de um imenso muro desgastado onde carros amassados se encostavam como se esperassem que o nada os retirassem dali. No horizonte, pelo menos me pareceu ser o horizonte, vi alguns prédios de dimensões gigantescas cujas paredes externas possuíam desenhos figurativos de dinossauros com rostos humanos. Em outras construções em ruínas constatei a presencialidade de danificadas estampas de demônios abstratos com caudas de dinossauros.
Sem emitir ruídos o abdutor voltou os seus olhares à minha direção fazendo com que eu alcançasse a possibilidade de refletir e ao mesmo tempo negar toda a espetaculosidade daquelas visões.
No meu íntimo eu compreendia que deveria a partir daquele momento, mesmo se o processo me mostrasse veloz ou lento, aprender a arte do diálogo, a arte da discussão e apreciar a terceira visão que se mostraria após a passagem das estrelas mais distantes: a escuridão.
O abdutor que não tinha medo da própria sombra até porque não a possuía principiou a ficar cada vez mais disforme. Começou a se movimentar nos intricados caminhos do disco voador de maneira perpendicular configurando-se com a minha sombra e formando ângulos retos enquanto pronunciava vocábulos que eu não compreendia mas que me soavam como mantras. Tornou-se melancólico e ao mesmo tempo garboso. Falou-me que no planeta Liboririm existem 3 esferas: a escura, a clara, a brilhante. Entre as esferas permeia o Planalto dos Metais. E era para o Planalto dos Metais que estávamos nos dirigindo.
-Rúbio Pertinax, habitante da Terra, tenho certeza que você irá gostar de Liboririm. Breve estaremos em nosso destino. A minha missão estará finalizada assim que te levar à presença de Ânya Ydyug, a Encarregada dos Negócios da Recepção.
Pouco tempo (tempo?) depois o abdutor anunciou a chegada da inexistência da escuridade galáctica. Os resíduos do tempo como eu conhecia principiavam a me deixar. Eu começava a imaginar o tempo como se ele fosse uma sensação construída com partículas das idades que atingi em meus prazeres, espírito e hábitos.
Em seguida ao anúncio realizado o abdutor deixou de formar tantos ângulos retos e de ser uma figura disforme. Retornou aos movimentos circulares. Fez uma expressão facial de temporalidade diante das substâncias da melancolia, o que me fez transitar na hipótese de Rumbo Lone ser além de abdutor um artista. Artista este que parecia não desejar retirar os seus imensos olhos das minhas palavras visíveis e silenciosas.

