85º DRUNH. TXETAGU / A ALMA E A ARTE


Erfaxaj Gheaf, a idosa mãe de Resolc Gheaf, ofereceu-me a bebida. Uma bebida que ao ser ingerida foi lentamente do amargor para a doçura. Bebi de uma só vez todo aquele líquido de coloração amarelo-avermelhada.
A mãe e o filho me levaram até a rua. Pássaros, prédios e águas se mexiam ao meu redor. Erfaxaj Gheaf me abraçou sem dizer palavras. Finda a demonstração de amizade retornou imediata para dentro da casa. Resolc Gheaf também se despediu sem usar muito as palavras. Apenas, no limite entre a despedida e a ausência, disse-me:
- Vulcânico duoef, retornarás à vossa liboririntática casa. Usarás os vossos próprios sentidos de localização. Assim no horizonte verás o que o duoef conhece muito bem: a Gamojunx Kronskor.
Sem mais nenhuma palavra coloquei-me a caminhar no sentido em que as úmidas sombras dos pássaros me indicavam.
Os passos já me levavam longe quando o último pássaro de metal voou em volta do meu pescoço. Subiu às alturas do céu e partiu do meu convívio. O txetagu, que amanhecera sob uma tempestade, modificou-se e trouxe a resplandecência dos sóis a ele.
O tempo liboririntático me empurrava para a frente. Obstinado na caminhada cruzava as ruas de Nesemix sem me importar com os curiosos olhares que alguns liboririntáqueos remetiam a mim. Por onde eu passava ouvia vozes, rufar de tambores, assobios. Sob as águas do temporal vi a Gamojunx Kronskor surgir no céu de Nesemix. A espaçonave por alguns momentos se fixou no ar. Depois vertical desceu ao solo. Pousou alinhando-se aos prédios ocupando um esquinado.
Fui me colocando próximo da gamojunx. A cada respiro que nutria eu me lembrava de Lahitat Len, a Ieflisav 'Zli' Gamojunx Kronskor. Disparei a correr. Em meio à corrida os passos foram se arrefecendo porque cada vez mais que me aproximava da Kronskor mais pressentia que Lahitat Len não se encontrava mais na gamojunx.
O coração sentiu um aperto. Desejei me eternizar à frente da Gamojunx Kronskor. Por todos os lados dos meus sentimentos brotaram olhos liboririntáticos. Enormes olhos que me descobriram. Não me encobriram de panos e máscaras. Lágrimas não podem esperar. Chorei a falta de Lahitat Len.
Ao me ver em estado de tristeza indefinida um dos tropskors da Gamojunx Kronskor abandonou o seu posto à frente da entrada principal e veio me informar do paradeiro de Lahitat Len.
MERAQ USEE, O TROPSKOR
- Criatura duoef, não se aborreça com estas pequenas coisas. Lahitat Len que tanto o duoef deseja reencontrar está bem. Desembarcou da Kronskor em Tonokiedy. Nada ela disse  sobre voltar em algum drunh à gamojunx ou a Nesemix. Por que o duoef não dá uma entradinha na Kronskor? A tempestade acabou, os sóis ressurgiram e já estamos funcionando a todo vapor. Vinde às boas bebidas e divirta-se com as belas liboririntáqueas!
- Acho melhor que eu continue a caminhar...
- Ente duoef, ficaremos em Nesemix por alguns drunhs. Caso queira amanhã ou depois ou até mesmo depois do tempo se divertir na Kronskor me procure. Sou Meraq Usee, o tropskor.
Sem detença retornei aos caminhos. Vasculhei Nesemix atrás de portas abertas por onde eu pudesse atravessar. Nenhuma porta encontrei. Afundei-me nos arksibs do nada. Joguei-me ao patético. Em gesto doído, embora grande quantidade de olhares liboririntáticos não vissem assim, escrevi nos fundos insondáveis dos arksibs um poema inspirado na Ieflisav 'Zli' Gamojunx Kronskor. Chamei-o de Rios dos Sóis.

SE AS LÁGRIMAS
TIVESSEM COR, EUDAIPS,
AS LÁGRIMAS DE LAHITAT LEN
SERIAM AMARELAS.
E NÃO SERIAM AS DORES,
AS PRISÕES OU AS PERDAS
QUE AS REALÇARIAM, AS AVIVARIAM ASSIM.
SE OS SÓIS NÃO FOSSEM AMARELOS
SERIAM OS SÓIS OS OLHOS DAS ESTRELAS.
AÍ EUDAIPS
SERIAM AS LÁGRIMAS DE LAHITAT LEN
OS RIOS DOS SÓIS.

O ato de escrever o poema me retirou dos arksibs do nada. O patético universo do desencontro por intermédio do poema deixei-o para trás. Passado, presente, futuro e a vida liboririntática se dava mesmo aos círculos.
Os olhos dos liboririntáqueos não me afligiam. Eram olhos que os meus olhares a eles sorriam. Não havia motivo que me fizesse receá-los.
O Porto 9 do Rio Ojand não voltaria mais ao meu destino. Tinha certeza de que o fim do começo do retorno ao planeta Terra havia se cumprido.
A minha liboririntática casa reapareceu na grandeza dos olhares da reparação. Existiam naquela casa a alma e a arte.