78º DRUNH, MINODGU / O AVISO


Depois de a primeira exibição de Ludom Cnefi outras apresentações da peça de Ajna Ajyx vieram preencher algumas das minhas noites em Nesemix. O teatro liboririntático permaneceu nos meus pensamentos e sentimentos. Uma das minhas certezas se traduz em não esquecê-lo.
Um sonho me visitou pouco antes de os sóis se espalharem por Nesemix. Ao abrir os meus olhos sonolentos conversei em silêncio com as paredes do quarto. Estiquei-me na cama sonhadora. Ergui-me arrebatado em busca de uma eoewwil. Queria escrever o sonho que me despertara.
Encontrei a eoewwil nos tentáculos de um animal inverossímil que a minha imaginação naquele instante desejou que existisse. Ao localizar a eoewwil achei engraçado o jeito do imaginário molusco me olhar. Meus risos causaram o desvanecer das lembranças do sonho. Não que eu caísse em desânimo mas quando o animal de corpo mole também se dissipou a eoewwil escorregou da minha mão. Ficou grudada no chão do quarto. O que pensei em escrever sobre o sonho perdeu-se no tempo sem memória.
Raios de sóis inflexíveis iluminaram a eoewwil. Corri ao banheiro. Necessitava mijar. Ao me movimentar um dos meus pés chutou a eoewwil que se desgarrou do chão e voou para longe. Seguiram-na aqueles raios solares obstinados. Sem saber a razão urinei pensando em festejos carnavalescos.
- Haveria carnaval em Liboririm? -perguntei-me sem produzir nenhum som mesmo quando deixei sair de mim uma ou duas lágrimas causadas pela saudade repentina da terrena festa profana.
Saudade? Nunca fui de participar de carnavais. Por que os meus sentimentos se dispunham a executar dores, admoestações ou seja lá o que fosse de tal longínqua comemoração?
Nenhuma resposta veio me visitar. Terminei de mijar. Vesti-me adequadamente. Busquei com o olhar o paradeiro da eoewwil. Nada encontrei. Aos poucos as lágrimas se secaram. Permaneci mais alguns overebuts no quarto certificando-me que a minha "loucura" se estagnara.
De repente a porta do quarto se abriu como se o vento a mando dos sóis se preparasse para agir ininterrupto. Não retornei ao banheiro para me olhar no espelho. No entanto impressões me fizeram não ver Nesemix de cabeça para baixo. Sentia que era eu quem estava invertido. Ao contrário dos meus sentimentos os meus pensamentos me informaram que tudo estava normal desde as imagens dos caminhos até as representações ambíguas dos espaços que a minha liboririntática casa oferecia-me.
Então sem falta de sabor mandei os overebuts irem passear.
- Vão embora abençoados e malditos overebuts! Levem com vocês os foroacs! Nada quero saber sobre os tehms e konasts! Deixem-me apenas os drunhs!
A porta do quarto se abriu ainda mais. Impulsionei-me a atravessá-la. Do outro lado de fora do quarto não havia mais o corredor, a sala, a casa. Sem entender o que acontecia recomecei a trazer a umidade do meu rosto. Sem ver a casa que me era tão querida a tristeza da perda outra vez me convidou em pleno carnaval às lágrimas.
Pela graça de Eudaips um vasto campo de plantas, flores, sóis, estrelas e eoewwils se apresentou à minha visão. Sensações cenestésicas me causaram admirável bem-estar. Emocionei-me ao perceber nos olhos de quem me olhava que eu jamais estivera invertido.
- Meus sentimentos estão tão errados assim? -perguntei ao ser liboririntático, o dono dos pacíficos olhos, que não parava de me observar.
- Predito duoef, por que me olhas tanto? Será porque aos pés de Eudaips sempre escutei o duoef? O vento a vós contou que eu já havia me adentrado em vossa casa. Em vossa companhia, que por sinal gosto muito, apresento-me. Sou Lonnysna, o Zaurtkaya.
- Vi os seus olhos poderosos agirem a meu favor. Meus pensamentos estão tão certos assim?
- Semeador duoef, ao contrário das vossas semeações ou tão idêntico a elas sinto que queres retornar o mais breve possível ao planeta Terra e dar um basta a esta sua aventura em Liboririm. Também penso que desejas permanecer em Liboririm e prosseguir, se for assim possível, nas semeaduras liboririntáticas. Vamos duoef diga-me o que é certo e o que é errado. Diga-me duoef se pensas nos meus sentimentos ou se sente os meus pensamentos.
O que eu poderia dizer ao Zaurtkaya? Eu tinha a vida liboririntática diante dos meus olhos e mesmo assim esperava que a vida terrena surgisse das explosões das sementes. Por outro lado eu tinha a vida terrena diante dos olhos de Lonnysna e mesmo assim semeava sementes para colher metafóricas e poéticas explosões.
- Estimado duoef, ouça o silêncio. Ele está diante dos nossos olhos. Liboririm é um tesouro sem carnaval! Tesouro escondido pela graça de Eudaips num vasto campo de plantas, flores, sóis, estrelas e... Escreva o aviso que ao duoef direi!
O Zaurtkaya se movimentou em várias direções. Movimentos ora velozes, ora lentos que o fizeram parecer um animal verossímil, um molusco cheio de tentáculos. Quando os movimentos se esvaíram do seu corpo - foi nesse clarão solar que presenciei a existência de asas em Lonnysna - ele me entregou a minha eoewwil. Continuou a falar.
- Vocacional duoef, escreva o aviso que a vós digo. Estais em Nesemix, rua Hesb, dentro da vossa liboririntática casa. O vento penetrou em vosso espírito e alma porque o duoef atingiu a metade do vosso caminho em Liboririm. Aviso ao duoef que não há nada mais daqui para a frente embora liboririntaticamente sempre haverá círculos e ciclos em tudo o que viverá na outra metade do vosso trajeto. Alcançastes o ponto culminante da vossa existência liboririntática. Falas o liboririnkes com afeição e o escreve com perfeição. Quando desejos visitam o duoef pensas como um liboririntáqueo. Quando pensas feito um liboririntáqueo vossos sentimentos palpitam como pulsam os sentimentos de um liboririntáqueo. Já consegues enxergar plenamente as infinitas aparências físicas dos liboririntáqueos quando eles estão juntos. Foram dos pensamentos, semblante e sentimentos de Eudaips que se originaram os encantos da vida de Liboririm.
Senti dentro de mim uma benéfica explosão. Lonnysna retornou ao silêncio. Algo maravilhoso começou a acontecer. Minha roupa ficou branca e resplandecente. O Zaurtkaya breve saiu do silêncio.
- Derivado duoef, o branco e a resplandecência da vossa vestimenta significam que a partir do próximo drunh o duoef iniciará regresso ao vosso planeta de origem. Não se esqueça de escrever no aviso que a vós comuniquei que o vosso coração levará em vosso ser o vosso tesouro.