90º DRUNH, DOSUGNO / O TRANSE

Senti o perfume da minha casa liboririntática, no outro drunh que amanheceu, como nunca o havia sentido antes. O agradável cheiro me transportava a locais praticamente esquecidos. Enviava-me atividades mentais estimulando o desempenho dos neurotransmissores cerebrais. Minha memória vasculhava-me.
Ao mesmo tempo em que eu me grudava na cama o meu corpo rolava por ela como se os movimentos rolantes pudessem eternizar aqueles encontros dos pensamentos com a alma. Quando em Liboririm me experimentava assim era sinal de que passaria longo tempo escrevendo cartas, poemas e encantamentos.
O perfume e o sinal não estavam incorretos. Por conseguinte ao me levantar, finalmente, percebi que a manutenção e a limpeza que Pikanus Etrazu, o vuozatra, fizera na casa a tornara menor. Meu quarto se reduzira. De maneira simplória, mas diminuíra. A cama se elevara. Aproveitei a ocasião e fiz da cama uma mesa. Espalhei pela sua superfície folhas de papel metalizado. De pé, recurvado sobre o lençol esticado e endurecido iniciei as escritas que se formavam em minha mente. Recebia as palavras dos sentimentos e da parte de Eudaips. Por parte de Deus Pai visitava-me todos os ventos. Bem antes de me vestir e de me lavar nas águas ajustadas do banheiro mal o dia amanhecera escrevi que entre as terras salgadas e metalizadas e o céu de Liboririm existiam anjos desesperados. Nenhum desses anjos se assemelhavam com os Anjos das Pressagias. Os que a mim se mostraram eram anjos terríveis e temíveis. Gritavam contra o que eu escrevia.
Atinei que os meus pés não estavam mais sobre o chão do quarto. Desequilibrei-me a ponto de ver um ser com as mãos sobre a cabeça se formar sob as plantas do meus pés. Nos últimos tempos meu corpo não era mais o meu corpo. Tornei-me para mim uma liboririntáquea, máscara de colombina, com um arco na mão. Um pássaro e uma flor se colocaram sobre a flecha arremessada em direção dos anjos desesperados.
A imaginação terrena se unia à imaginação liboririntática. As palavras escritas preenchiam as folhas de papel. Respingavam ciscos de metal em meus olhos. Por toda a manhã do dosugno meu corpo não se soltou daquela entidade feminina.
Coloquei toda a esperança e graça na espera da revelação que a mim poderia ser feita. Por volta do otyem-drunh, Syssica Kanri se desalojou do meu corpo. Materializou-se num quarto distante do meu. Imediatamente parei de escrever. Ocorreu-me um transe, êxtase, exaltação. Deitei-me nas quinas da cama acolhendo a minha hóspede. Consegui ir à presença de Syssica Kanri.
SYSSICA KANRI, A TANGIDEXI
- Loquaz duoef, escrevestes tanto que conseguistes vir a ter comigo neste quarto enfiado nos sóis. Vinde caminhar comigo. Como podeis constatar estou sozinha. Os anjos desesperados, produzidos pelas vossas imaginações,  foram embora. Sou bastante real! Estais a pensar duoef que também nasci das vossas imaginárias palavras?
O que eu pensava eu mesmo não sabia. No tempo do transe desejei voltar a ser uma criança. Retribuir ao tempo a casca grossa que cobria a alma. Permaneci próxima de Syssica Kanri. Havia me desembestado até as asas da adorável liboririntáquea.
- Hipnótico duoef, será que acharei em algum drunh um nome para vos chamar e sentimentos para vos esperar? Sou Syssica Kanri, a tangidexi.
A beleza de Syssica Kanri se aflorava da sua juventude. Ao vê-la esplendorosa a alma a identificou como a possível companheira do meu liboririntático futuro. Fiquei em silêncio. Não desejei atormentá-la com desvarios e amolações.
- Implicador duoef, quando se findar o tempo do transe nem se lembrará mais de mim.
Por Deus Pai e por Eudaips afirmo que nunca impliquei com a tangidexi. No tempo do transe queria apenas mostrá-la os meus caminhos de regresso ao planeta Terra. Era como se todas as palavras que escrevi fossem metáforas de pedidos amorosos.
- Fique comigo Syssica Kanri! Não me deixe sozinho no meio da multidão liboririntática.
- Armazenador duoef, sou jovem e velha. Nunca pensei em estar sempre ao vosso lado, que é um terráqueo abduzido velho e jovem. Mas gosto do duoef. Preciso ir buscar a vida...
A tangidexi foi se entregando ao silêncio. Nada mais ouvi. O silêncio prosseguiu a me seguir em cada pensamento que me restava. O silêncio não se importava se Syssica Kanri desaparecesse dos corpos dos sentimentos. Tão gigante se fez o silêncio que o próprio silêncio criou barulhos que partiram o transe ao meio.
O transe se sentindo quebrado partiu o meu coração. Separou-me do perfume da minha liboririntática casa como nunca o tempo me havia separado antes.